"O Bilionário Cancelou o Voo e Descobriu o Homem Morto Há 8 Anos" Capítulo 5
Renata colocou o relatório diante da mãe sobre a mesa da clínica.
— Sua assinatura.
Teresa leu a página sem tocar nela.
— Eu assinei uma autorização de tratamento.
— Com o nome falso de Marcos Vieira.
— Otávio cobriu o cabeçalho. Disse que era um paciente da fundação.
— Você assinava qualquer coisa que ele colocava na sua frente?
Teresa levantou os olhos.
— Naquele tempo, sim.
Henrique permanecia na sala ao lado com Lúcia. Isabela desenhava estrelas numa mesa pequena, perto o bastante para ouvir vozes, longe o bastante para não ver o documento.
Gustavo e Caio ficaram junto à janela. Renata pedira que ninguém conduzisse a conversa por ela.
— Quando descobriu que era Henrique? — perguntou.
— Seis meses atrás.
— Quando suspeitou?
Teresa apertou os lábios.
— Mãe.
— No ano do acidente, achei o anel dele no bolso de Otávio.
Renata puxou a cadeira e sentou.
— O anel que disseram ter derretido no carro?
— Perguntei. Seu pai disse que a polícia devolvera uma réplica encontrada em casa.
— Você acreditou?
— Quis acreditar.
— Quantas vezes você quis acreditar enquanto ele apagava seu filho?
Teresa começou a chorar. Renata esperou.
— Encontrei uma carta na mesma caixa-forte — disse a mãe. — Era para mim.
Ela retirou um envelope da bolsa grande. O papel carregava o timbre pessoal de Otávio e uma data de oito anos antes.
Renata usou luvas para abrir.
"Teresa, Henrique sobreviveu. O dano é extenso e a recuperação incerta. Renata acabou de anunciar a gravidez; a notícia pode destruí-la."
"Assinei a transferência e providenciei o funeral para preservar nossa família. Um dia você entenderá que algumas vidas precisam desaparecer para que outras continuem."
Havia outra página.
"Se algo acontecer comigo, mantenha o tratamento. Não permita contato entre os irmãos até que o fundo esteja protegido."
Renata baixou a carta.
— Você leu isso há seis meses e continuou obedecendo.
— Eu encontrei Henrique sedado, sem saber o nome. Queria que ele melhorasse antes de trazer você.
— E queria ganhar tempo para suportar sua própria culpa.
Teresa não negou.
Gustavo olhou para Isabela. A menina parara de desenhar.
— Bela, quer esperar no corredor comigo?
— Não. É segredo de novo?
Renata abriu os braços.
Isabela foi até ela.
— Não vamos contar detalhes que machuquem você — disse a mãe. — Também não vamos mandar você mentir.
— A vovó vai morar com a gente ainda?
Teresa enxugou o rosto.
— Vou sair hoje, meu amor.
— Porque eu contei?
— Porque eu fiz escolhas erradas.
Isabela pegou uma estrela da mesa e colocou na bolsa da avó.
— Então não põe segredo aqui dentro.
Teresa fechou a bolsa sem responder.
Caio pediu os demais documentos encontrados na casa. Teresa entregou recibos, gravações e uma agenda de Otávio.
Os pagamentos ao instituto do Paraná apareciam como bolsas de pesquisa. Um perito recebera trezentos mil reais após declarar que o sangue no carro pertencia a Henrique.
— O DNA era dele — disse Caio. — Só não prova morte.
— Henrique cortou a mão no escritório naquela semana — lembrou Teresa. — Otávio levou a camisa para lavar.
O patriarca preparara uma identificação falsa antes do acidente ou aproveitara o ferimento quando soube da sobrevivência. A data do pagamento definiria a diferença.
Na agenda, uma anotação de dois dias antes da colisão dizia: "H. ameaça Renata. Resolver viagem."
Renata leu duas vezes.
— Ele escreveu meu nome como problema.
— Talvez "ameaça Renata" queira dizer que Henrique ameaçava contar — falou Gustavo.
— Para meu pai, dava na mesma.
Lúcia chamou todos à sala de vídeo. Encontrara nos arquivos de Teresa um cartão antigo rotulado como "avaliação pós-coma".
A imagem mostrava Henrique numa cama, muito mais magro, com curativos no rosto. Otávio estava sentado ao lado.
— Seu nome é Marcos — dizia o pai. — Henrique morreu na estrada.
O paciente tentou arrancar a cânula.
— Re…nata.
— Sua irmã acredita no funeral. E continuará acreditando.
Henrique virou o rosto para a câmera. Os olhos estavam abertos, atentos.
Otávio segurou o queixo do filho.
— Você vai descansar. Quando o fundo estiver seguro, veremos o que fazer.
Uma voz feminina perguntou se deveria aumentar o sedativo.
— Sim — respondeu Otávio. — Sarah nunca pode saber.
O nome inglês confundiu Gustavo.
Teresa explicou que Sarah era o segundo nome de Renata, usado pelo pai quando estudaram nos Estados Unidos. Henrique o empregava em documentos privados para indicar que uma cópia se destinava à irmã.
Renata desligou o vídeo.
— Ele sabia quem era.
Lúcia confirmou.
— A perda de memória oscilava. A repetição do nome falso e a sedação prejudicaram a recuperação.
Henrique apareceu no corredor. Tinha ouvido a própria voz.
Teresa se levantou.
— Filho…
Ele ergueu a mão.
— Não filho.
Ela parou.
— Posso pedir perdão?
— Depois.
Henrique entrou, pegou o controle e voltou o vídeo até a imagem de Otávio. Tocou a tela sobre o rosto do pai.
— Medo.
— Você tinha medo dele? — Renata perguntou.
Henrique apontou para Otávio.
— Ele. Medo de mim.
Caio ampliou um quadro em que o patriarca retirava do bolso uma abotoadura dourada. A peça tinha uma lasca vermelha na lateral.
Henrique tocou a cicatriz e depois imitou um volante.
— Ponte. Carro atrás. Luz.
Lúcia pediu pausa. Ele recusou.
— Eu dirigir. Freio… chão.
— O pedal afundou? — Caio perguntou.
Henrique assentiu e apontou para a abotoadura.
— Pai chegou.
— Depois do acidente?
— Antes… não. Depois.
As palavras se quebraram. Lúcia interveio, e Henrique permitiu que ela o levasse à poltrona.
Renata acompanhou. Antes de entrar, voltou e olhou para Gustavo.
— Fica.
Ele se aproximou.
Ela encostou a testa no peito dele e deixou os braços soltos. Gustavo esperou até que Renata o abraçasse primeiro.
— Eu não sei onde colocar tudo isso — disse.
— Não precisa decidir hoje.
— Não esconda nada para me poupar.
— Nunca mais.
Lúcia abriu a porta.
Henrique apontava para um mapa do litoral norte.
O dedo parou sobre uma ponte em São Sebastião.
Lúcia pediu que ninguém marcasse a viagem sem nova avaliação. Henrique aceitou passar a noite no centro, mas exigiu a chave do próprio quarto.
— Sempre ficou com a equipe — explicou a médica. — Era protocolo de segurança.
— Protocolo de quem?
Ela não respondeu imediatamente.
O contrato antigo proibia pacientes de manter chaves ou documentos. Lúcia mandou trocar a fechadura e entregou duas cópias: uma a Henrique, outra num envelope lacrado para emergência.
Ele girou a chave por dentro, abriu de novo e repetiu o gesto cinco vezes.
Renata esperou no corredor.
— Quer que eu fique?
— Amanhã.
— Tudo bem.
No estacionamento, Teresa aguardava dentro do carro. Pediu um minuto com a filha.
— Otávio dizia que Henrique ficava agressivo quando o nome verdadeiro aparecia — falou.
— O vídeo mostra por quê. Eles diziam que ele estava morto toda vez que tentava lembrar.
— Eu não sabia a extensão.
— Sabia o suficiente para esconder Isabela no carro.
Teresa estendeu um chaveiro antigo. Nele havia uma miniatura de estrela e a placa de uma pousada em São Sebastião.
— Seu pai ficou lá na noite do acidente. Disse que estava em casa quando recebeu a ligação.
Renata fotografou o objeto.
— Por que guardou?
— Porque comecei a desconfiar e depois tive medo de confirmar.
— Entregue a Caio.
Teresa obedeceu.
O registro da pousada mostrava que Otávio chegara duas horas antes da colisão. Pagara em dinheiro, acompanhado por um homem da oficina responsável pela troca dos freios.
A descoberta não provava sabotagem. Colocava o pai perto da ponte antes de qualquer telefonema oficial.
Gustavo ligou para o conselho e cancelou todas as reuniões do dia seguinte.
— Se eu perder o cargo, você vai achar que fiz por vocês — disse a Renata.
— Fez por quê?
— Porque assinar agora pode completar a lavagem do dinheiro.
Ela assentiu.
— Então fale isso quando perguntarem. Não coloque Isabela como desculpa bonita para uma obrigação que é sua.
Gustavo guardou a frase.
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