"O Bilionário Cancelou o Voo e Descobriu o Homem Morto Há 8 Anos" Capítulo 4
Caio localizou o cofre às duas e quarenta da manhã.
A agência fechada transferira os contratos para uma unidade no centro. O compartimento 0417 continuava ativo, com taxas pagas automaticamente pelo Fundo Braga.
— Titular? — Gustavo perguntou.
— Henrique Braga.
— Não Marcos Vieira?
— Henrique. Seu sogro manteve as duas identidades em lugares diferentes.
Renata estava sentada no sofá do apartamento da Mooca que Lúcia usava para plantões. Isabela dormia no quarto, abraçada à mochila da escola.
— Talvez ele precisasse do nome verdadeiro para movimentar alguma coisa — disse.
Caio fechou o computador.
— O banco abre às dez. Pedi bloqueio e acesso acompanhado. Até lá, ninguém fala com o conselho da Almeida Participações.
O conselho já falava com Gustavo.
Havia trinta e quatro chamadas perdidas, onze mensagens do vendedor e um comunicado pronto para responsabilizá-lo pela perda da aquisição.
Renata leu a tela.
— Volte para a negociação.
— Não.
— Você pode assinar por vídeo.
— O vendedor tem ligação com o Fundo Braga.
Caio ergueu as sobrancelhas.
Gustavo mostrara a ele o memorando da compra. Uma das subsidiárias que receberiam o pagamento chamava-se Aurora Gestão Patrimonial.
O mesmo nome aparecia nos depósitos médicos de Henrique.
— Ainda não sabemos se é a mesma empresa — disse Caio.
— Descubra antes que eu transfira um bilhão.
Renata cruzou os braços.
— E se não tiver relação?
— Perco o negócio.
— Seu conselho vai dizer que eu causei.
— Eles dirão que eu tomei a decisão.
— Isso nunca impediu ninguém de culpar a esposa.
Gustavo guardou o telefone.
— Então falaremos juntos quando houver prova.
Ela o encarou.
— Você ficou duas horas sem me contar.
— Fiquei.
— Não faça de novo.
— Não faço.
— Promessa de adulto ocupado?
A frase de Isabela atravessou os dois. Gustavo recebeu o golpe sem responder depressa.
— Promessa com consequência. Se eu esconder alguma coisa sobre nossa filha ou sua família, você chama Caio antes de me chamar.
O advogado levantou a mão.
— Prefiro não entrar em cláusula conjugal.
Renata quase sorriu.
Às nove, Lúcia avaliou Henrique. Ele compreendia o objetivo da ida ao banco, identificava a chave e podia autorizar a abertura.
— Eu vou — disse ele.
— Pode ser cansativo — alertou Renata.
— Minha… caixa.
Ela assentiu.
Teresa aguardava no corredor com a mesma roupa do dia anterior. Pediu para acompanhar.
— Henrique decide — falou Renata.
Ele olhou para a mãe por um longo tempo.
— Depois.
Teresa recuou.
No banco, um gerente tentou levar Gustavo a uma sala reservada. Caio exigiu que Henrique fosse tratado como titular, com Lúcia presente e registro de todo o procedimento.
O gerente pediu assinatura. Henrique segurou a caneta, escreveu o nome em letras separadas e empurrou o papel.
H E N R I Q U E.
Renata colocou a mão perto da dele, sem tocar.
A chave girou com dificuldade. Dentro do compartimento havia uma caixa preta, três envelopes, um livro-caixa de capa verde e um pen drive.
Henrique abriu o primeiro envelope. Fotografias do carro destruído caíram sobre a mesa.
O segundo continha o laudo original do hospital municipal. Registrava que a vítima fora retirada viva às vinte e três e quarenta, consciente por alguns minutos e identificada por uma cicatriz antiga no joelho.
O documento oficial do funeral declarava morte no local às vinte e duas e cinquenta.
— Quase uma hora antes do resgate — disse Caio.
O terceiro envelope guardava extratos. Oitenta e seis milhões de reais saíram do Fundo Braga entre 2014 e 2018 e passaram por cinco empresas.
Uma delas, Aurora Gestão Patrimonial, receberia parte do pagamento da aquisição de Gustavo.
— O negócio fecha o circuito — Caio falou. — Dinheiro desviado volta como venda legítima.
Gustavo ligou para o presidente do conselho.
— Cancele a aquisição e notifique as autoridades de controle.
— Você enlouqueceu? Temos multa de cento e vinte milhões.
— Pague a multa se for devida. Não transfira um centavo à Aurora.
— Sua crise familiar não governa esta empresa.
— Minha assinatura governa a transferência. Ela não será dada.
Desligou.
Renata folheava o livro-caixa.
Várias páginas tinham as iniciais O.B.; uma sequência terminava abruptamente.
— Arrancaram uma folha.
Henrique tocou o bolso do casaco, depois a estrela azul que Isabela lhe devolveria mais tarde.
— Estrela… guarda.
— Você colocou a página numa estrela? — Renata perguntou.
Ele fechou os olhos, frustrado.
Lúcia pediu que não insistissem.
Caio conectou o pen drive a um computador isolado. Havia gravações de reuniões, planilhas e um vídeo curto.
No vídeo, Henrique entrava no escritório do pai com o livro verde. A data era três dias antes do acidente.
— Você roubou do fundo da mamãe — dizia ele.
Otávio permanecia atrás da mesa.
— Abaixe a voz.
— Renata vai receber cópia de tudo amanhã.
A gravação terminou quando alguém cobriu a câmera.
Renata segurou a mão de Gustavo. O toque veio rápido, quase involuntário; ela não soltou.
Caio abriu outro arquivo, um relatório da oficina que examinara o carro. O sistema de freio apresentava falha mecânica, e a peça trocada semanas antes não correspondia ao lote faturado.
— Sabotagem? — Gustavo perguntou.
— Ainda não dá para afirmar. A manutenção foi paga por uma empresa do fundo.
Henrique apontou para a última página do relatório.
No campo destinado à testemunha da transferência hospitalar para o instituto do Paraná havia uma assinatura.
Teresa Braga.
O gerente entregou também o histórico de acessos ao cofre. Otávio entrara sete vezes depois do acidente; Álvaro Seixas, o contador, aparecia em quatro visitas.
A última ocorrera três dias após a morte de Otávio.
— Morto não abre cofre — disse Caio.
— Nem Henrique viajou até aqui — acrescentou Lúcia.
Uma câmera do banco registrara Álvaro carregando uma pasta verde semelhante ao livro-caixa. Ele usou procuração de Marcos Vieira para acessar um compartimento em nome de Henrique Braga.
— As identidades se encontravam quando era conveniente — falou Renata.
Caio solicitou cópia forense das imagens e bloqueio de todos os cofres relacionados. O gerente tentou telefonar para a direção jurídica; Gustavo pediu que a conversa fosse registrada.
— Passei a vida vendo gente importante resolver irregularidade numa sala fechada — disse. — Hoje a porta fica aberta.
Henrique caminhou até o corredor e sentou num banco. O esforço da assinatura deixara os dedos rígidos.
Renata massageou a própria mão para mostrar o movimento, sem tocá-lo. Ele imitou devagar.
— Eu assinava cheques — contou, separando as palavras. — Pai dizia confiar.
— E usou sua assinatura depois.
— Minha mão… continuou presa.
Isabela telefonou pelo aparelho de Gustavo. Queria saber se haviam encontrado tesouro.
— Encontramos papéis — respondeu Renata.
— Papel pode ser tesouro.
Henrique ouviu e pediu o telefone.
— Bela. Caixa abriu.
— Tinha estrela?
— Ainda não.
— Eu faço outra.
Ele sorriu. O gerente desviou os olhos, talvez pela primeira vez entendendo que o titular do cofre era uma pessoa, não uma inconsistência cadastral.
Na calçada, fotógrafos já aguardavam. Alguém do conselho vazara a presença de Gustavo no banco.
Caio pediu uma saída lateral, mas Henrique apontou para a porta principal.
— Meu nome entra aqui. Meu rosto sai aqui.
Lúcia caminhou ao lado dele. Nenhum dos quatro respondeu às perguntas, e Henrique manteve a placa da chave visível na palma.
Naquela noite, a fotografia dele chegou às redes antes de qualquer explicação: o morto da família Braga estava vivo e saía de um banco ligado ao negócio bilionário cancelado.
Renata desligou o telefone quando a quinta emissora pediu entrevista. Henrique ainda não recuperara o próprio nome nos registros; ela recusou permitir que a imprensa o batizasse de mistério.
— Amanhã falamos com o juiz — disse. — Hoje ele descansa.
Henrique ouviu e apontou para si.
— Eu escolho falar.
Renata corrigiu:
— Você escolhe. E pode escolher não falar.
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