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"O Bilionário Cancelou o Voo e Descobriu o Homem Morto Há 8 Anos" Capítulo 3

正文开头

Renata estava entre duas consultas quando Gustavo entrou na clínica com Isabela pela mão e Teresa vários passos atrás.

Ela tirou os óculos e olhou para o relógio.

— Você não deveria estar voando?

— Cancelei.

— Aconteceu alguma coisa com a Bela?

Isabela correu para a mãe. Renata se agachou e examinou o rosto, os braços e as mãos da filha com a rapidez de uma médica.

— Estou bem — disse a menina. — Só contei o segredo.

Renata se levantou.

— Que segredo?

Teresa fechou a porta do consultório.

Gustavo a abriu de novo.

— Fica aberta.

A esposa observou o gesto.

— Alguém pode me dizer o que está acontecendo?

Gustavo colocou a estrela azul sobre a mesa. Renata a reconheceu e tocou uma das pontas.

— Meu pai fazia assim.

— Henrique também.

O rosto dela ficou imóvel.

Um carrinho de medicamentos passou no corredor. O ruído das rodas pareceu atravessar o consultório inteiro.

— Não use o nome dele desse jeito.

— Seu irmão está vivo.

Renata segurou a borda da mesa.

— Pare.

Teresa avançou.

— Filha…

— Mãe, cala a boca.

Isabela começou a chorar. Renata fechou os olhos, puxou uma cadeira e sentou.

Gustavo contou desde o café da manhã. Não omitiu o falso embarque, a perseguição nem o tempo que levara para chegar à clínica.

— Você sabia desde quando? — ela perguntou.

— Há pouco mais de duas horas.

— Duas horas.

— Eu precisava tirar Bela de lá e entender o estado dele.

— Você precisava ligar para mim.

— Sim.

A resposta direta a fez perder a próxima acusação. Renata virou-se para a mãe.

— E você?

— Seis meses.

Renata soltou uma risada curta e bateu a palma na mesa.

— Seis meses levando minha filha para ver meu irmão morto.

— Eu queria preparar Henrique.

— Usou uma criança de sete anos para preparar um homem com lesão cerebral?

— Ele respondia a ela.

— Isabela é minha filha. Não é fotografia, remédio nem ferramenta.

Teresa abaixou a cabeça.

Renata se ajoelhou diante da menina.

— A vovó pediu segredo?

Isabela assentiu.

— Falou que você podia ficar doente.

Renata respirou pelo nariz, devagar.

— Escuta. Minha tristeza pertence a mim. Você nunca precisa esconder uma coisa assustadora para cuidar de mim.

— Você vai ficar triste?

— Muito. E vou continuar sendo sua mãe enquanto fico.

Isabela abraçou o pescoço dela.

Renata permaneceu no chão por alguns minutos. Depois pediu que uma colega assumisse as consultas e trocou o blazer bege por um casaco.

— Quero vê-lo.

Gustavo dirigiu. Renata foi no banco traseiro com Isabela; Teresa seguiu em outro carro, a pedido da filha.

Na Marginal, Renata segurou a estrela azul.

— Nosso pai ensinou Henrique a dobrar quando ele tinha dez anos. Ele fazia uma para mim em toda viagem.

— "Estrelinha" veio daí?

正文1

— Henrique começou. Meu pai copiou.

Ela abriu uma ponta do papel. No centro havia um traço preto, quase uma letra.

— Bela disse que ele ficava nervoso quando abriam.

— Talvez esconda alguma coisa nas dobras.

— Ou talvez seja a única coisa que ainda controla.

Gustavo manteve os olhos na pista.

— Você está certa.

— Não concorde comigo para encerrar conversa.

— Não estou encerrando.

Chegaram à Mooca no fim da tarde. Lúcia os recebeu e explicou que Henrique descansara após o episódio.

— Ele sabe que vim? — Renata perguntou.

— Disse seu nome três vezes. Depois pediu espelho.

— Por quê?

— Queria ver o rosto antes de você.

Renata levou a mão à boca.

Lúcia estabeleceu cinco minutos, sem perguntas sobre o acidente e sem toque inesperado. Isabela ficaria do lado de fora com Gustavo.

Henrique estava sentado junto a uma janela. Usava camisa xadrez, calça escura e o casaco marrom dobrado sobre os joelhos.

Ao ver Renata, apertou a bengala.

Ela parou na porta.

— Oi, Rique.

Ele fitou o cabelo, os olhos e as mãos dela.

— Velha.

Renata soltou uma risada que virou choro.

— Você também.

Henrique tocou a própria cicatriz.

— Feio.

— Continua convencido.

Ele sorriu de um lado. Por alguns segundos, o irmão das fotografias ocupou aquele rosto.

Renata aproximou uma cadeira.

— Posso sentar?

Henrique assentiu.

— Posso pegar sua mão?

Ele olhou para Lúcia e estendeu dois dedos. Renata os segurou.

— Disseram que você morreu.

— Eu… também.

— Disseram isso para você?

Henrique bateu na têmpora.

— Marcos. Morto antes.

Lúcia explicou que, durante anos, ele fora corrigido sempre que dizia Henrique. Depois passou a responder ao nome falso.

Renata respirou fundo.

— Seu nome é Henrique Braga. Eu sou Renata. Sou sua irmã.

Ele apertou os dedos dela.

— Estrelinha.

Renata curvou a cabeça sobre a mão do irmão.

Os cinco minutos viraram oito. Lúcia encerrou quando o pé dele começou a bater no chão.

No corredor, Renata passou por Teresa sem olhar.

— Filha, eu quis trazer ele de volta.

— Você quase levou minha filha para o lugar onde ele estava preso.

— Aqui ele é bem tratado.

— Agora. Onde ficou antes?

Teresa não respondeu.

Caio chegou com uma mochila, um perito e a expressão de quem já encontrara problemas demais num único endereço.

— O fundo existe — disse a Gustavo. — Tem imóveis, participações e uma conta de custeio.

— O instituidor é Otávio Braga. A beneficiária secundária é Renata.

Ela ouviu.

— Eu nunca assinei nada.

— A assinatura de ciência parece sua, mas foi registrada quando você estava na Argentina num congresso.

— Quem é o beneficiário principal?

Caio virou a tela.

— Marcos Vieira.

Henrique fora escondido e usado como titular de uma estrutura financeira que a própria irmã desconhecia.

— Consigo bloquear? — Renata perguntou.

正文2

— Amanhã cedo, se um juiz aceitar a urgência. Hoje precisamos preservar tudo.

Lúcia trouxe uma caixa com objetos pessoais transferidos do antigo instituto. Havia roupas, cadernos de fisioterapia, estrelas e uma chave presa a uma etiqueta apagada.

Henrique apareceu atrás dela.

— Renata.

Ele estendeu a chave.

— Papéis.

Caio fotografou a etiqueta sob luz lateral. Quatro números surgiram: 0417.

— Parece número de cofre — disse.

Renata reconheceu o símbolo gravado no metal.

— Banco Mercantil Paulista. A agência da Avenida Paulista fechou depois que meu pai morreu.

Antes de sair, Renata pediu para ver o quarto do irmão. Encontrou livros infantis, um rádio antigo e uma gaveta cheia de etiquetas com o nome Marcos.

Henrique observou da porta enquanto ela retirava uma das etiquetas.

— Posso jogar fora?

Ele pegou o papel e rasgou ao meio. Depois abriu as outras gavetas, uma por vez, e fez o mesmo.

Lúcia trouxe uma caixa vazia para os pedaços. Renata não ajudou até que ele apontasse para a última etiqueta, presa sob a mesa.

— Essa também?

— Todas.

Isabela apareceu segurando dois copos de água. Colocou um diante do tio e leu o nome impresso num formulário.

— Aqui ainda está Marcos.

Henrique entregou uma caneta a ela.

— Corrige.

A menina riscou o nome falso e escreveu HENRIQUE com letras grandes. Lúcia fotografou o documento antes de anexar a correção clínica.

Renata guardou uma etiqueta rasgada num envelope.

— Prova? — Gustavo perguntou.

— Lembrança do que um papel consegue fazer quando todo mundo obedece.

Na saída, ela parou diante da porta metálica. O sol já desaparecera, e a rua industrial parecia o cenário de uma vida paralela construída a poucos quilômetros da casa deles.

— Eu atendia crianças a vinte minutos daqui — disse. — Falava todos os dias sobre reabilitação, memória e vínculo familiar.

Gustavo ficou ao lado dela.

— Seu pai organizou isso para você não ver.

— Minha mãe viu e decidiu esperar.

— E eu escolhi duas horas de silêncio.

Renata olhou para ele.

— Não use a culpa para colocar tudo no mesmo nível. Só não repita.

O telefone dela vibrou. Era a diretora da clínica perguntando quando voltaria.

Renata respondeu que precisava de uma semana e indicou uma substituta. Pela primeira vez desde o funeral, permitiu que uma emergência familiar interrompesse sua agenda.

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