"O Bilionário Cancelou o Voo e Descobriu o Homem Morto Há 8 Anos" Capítulo 2
O nome saiu da boca de Teresa, e Isabela apertou a mão do pai.
— O tio da mamãe? — perguntou.
Gustavo não tirou os olhos da sogra.
— Henrique morreu.
— Eu sei o que todos enterramos — respondeu Teresa.
Uma mulher de jaleco branco surgiu na porta. Tinha quarenta e oito anos, cabelos pretos cacheados presos num coque baixo e óculos de armação fina.
— Senhor Marcos, entre. Sua mão está tremendo.
Gustavo apontou para Henrique.
— A senhora o chamou de Marcos.
A médica olhou para Teresa. A pausa respondeu primeiro.
— Aqui ele está registrado como Marcos Vieira.
— O nome dele é Henrique Braga.
Henrique levou a mão à têmpora. A bengala deslizou, bateu no piso e Isabela tentou correr para pegá-la.
Gustavo segurou a filha.
— Fica comigo.
A médica amparou Henrique pelo cotovelo.
— Sou Lúcia Ferraz, neurologista. Se continuarem esta conversa na rua, ele pode entrar em crise.
— Minha filha foi trazida aqui escondida cinco vezes.
— Eu me opus à presença dela sem consentimento dos pais.
Teresa abriu a boca.
— Lúcia…
— Eu registrei minha oposição — completou a médica.
Gustavo pegou o celular.
Teresa segurou o pulso dele.
— Não ligue para Renata ainda.
— Solte.
— Ela passou oito anos acreditando que o irmão queimou dentro de um carro. Se ouvir isso por telefone, sozinha na clínica…
— A senhora teve seis meses para encontrar um jeito digno.
Isabela cobriu os ouvidos.
Gustavo baixou a voz.
— Vamos entrar. Bela fica ao meu lado. Ninguém fecha porta alguma.
O interior do prédio lembrava uma clínica montada dentro de um antigo escritório. Havia barras de apoio nos corredores, duas salas de fisioterapia e uma cozinha pequena.
Nenhuma placa indicava o nome da instituição.
Lúcia conduziu Henrique a uma poltrona. Mediu a pressão, pediu que ele acompanhasse uma luz e aguardou o tremor diminuir.
Isabela colocou a estrela sobre a mesa.
— Eu estraguei ele?
Lúcia se abaixou.
— Você não estragou ninguém. O cérebro dele se cansa quando muita coisa acontece junta.
— A vovó disse que eu ajudava.
— Sua presença trouxe lembranças. Só que ajudar precisa ser uma escolha, e você não recebeu a verdade para escolher.
Teresa sentou perto da parede.
Gustavo pediu prontuários, contrato de internação e documentos financeiros. Lúcia respondeu que mostraria os registros médicos a Henrique e ao representante legal dele.
— Quem é o representante?
— Um administrador indicado pelo Fundo Braga.
— Minha esposa conhece esse fundo?
Teresa olhou para as mãos.
— Não.
— Quem paga este lugar?
— O fundo — repetiu Lúcia.
— Quem assinou o contrato?
— Otávio Braga.
O pai de Renata morrera sete meses antes. O infarto atingira o patriarca no escritório, e Teresa encontrara a caixa-forte ao organizar os documentos.
Gustavo se virou para ela.
— Comece do início.
Teresa contou que Henrique sofrera um acidente numa estrada do litoral norte. O carro pegara fogo depois de bater na proteção de uma ponte.
Um pescador o retirou antes das chamas. Sem documentos e com o rosto ferido, ele chegou a um hospital municipal como desconhecido.
— Otávio recebeu a ligação dois dias depois — disse. — O policial encontrou o cartão de uma empresa no bolso do casaco.
— E contou a todos que o filho morreu.
— O carro tinha sangue, e ele apresentou uma amostra odontológica para identificação.
— De quem era o corpo no caixão?
— Não havia corpo inteiro. O laudo dizia restos incompatíveis com exibição.
Gustavo lembrava do caixão lacrado e do modo como Otávio afastara Renata quando ela quis tocá-lo.
— O que aconteceu com Henrique?
— Coma por quatro meses. Fraturas, traumatismo craniano e perda de memória. Otávio o transferiu com outro nome para uma instituição no Paraná.
— E a senhora?
— Acreditei no funeral.
— Até seis meses atrás.
Teresa assentiu.
Depois da morte do marido, abrira a caixa-forte. Encontrara pagamentos médicos mensais para Marcos Vieira, relatórios neurológicos e fotografias recentes.
— Por que não contou a Renata?
— Henrique não a reconhecia. Repetia palavras, gritava quando via muita gente e às vezes passava dias sem falar.
— Isso não responde.
— Eu quis ter certeza.
— Usando minha filha.
Teresa enxugou o rosto.
— Ele reagiu a uma foto de Renata criança. Isabela é igual a ela naquela idade.
— Na primeira visita, ele disse "Estrelinha". Era como Otávio chamava Renata.
— E a senhora trouxe a menina outras quatro vezes.
— Os médicos viram progresso.
Lúcia corrigiu:
— Eu vi associação afetiva. Nunca prescrevi visitas secretas de uma criança.
Henrique abriu os olhos.
— Segredo… ruim.
Isabela se aproximou um passo.
— Foi o que o papai falou.
Gustavo pediu à filha que aguardasse com Lúcia na cozinha. A médica deixou a porta aberta, e Isabela permaneceu visível.
— O que Henrique descobriu antes do acidente? — ele perguntou.
Teresa empalideceu.
— Contas do fundo familiar.
— Que contas?
— Otávio desviava dinheiro havia anos. Henrique encontrou transferências para empresas que não existiam.
— Valores?
— Mais de oitenta milhões.
Henrique bateu dois dedos no braço da poltrona.
— Oitenta… seis.
— Oitenta e seis milhões? — Gustavo perguntou.
Ele assentiu.
— Otávio provocou o acidente?
Teresa levantou a cabeça.
— Não encontrei prova disso. O relatório dizia falha no freio. Henrique tinha bebido naquela noite, e todos aceitaram a explicação.
— Seu marido descobriu que ele sobrevivera.
— Sim.
— E decidiu escondê-lo.
Teresa encarou a porta da cozinha.
— Escreveu numa carta que o choque destruiria Renata, que Henrique precisava de tratamento e que a exposição acabaria com a família.
— Continuar morto era útil.
— Foi a palavra dele.
Henrique puxou a estrela para perto. Abriu uma dobra e apontou para o centro vazio.
— Papéis.
— Onde estão? — Gustavo perguntou.
— Eu ia… Renata.
A respiração dele acelerou. Lúcia voltou, ajoelhou diante da poltrona e pediu que Henrique nomeasse objetos na sala.
— Mesa — disse ele. — Luz.
— Estrela. Bela.
Isabela sorriu ao ouvir o apelido.
Gustavo telefonou para Caio Mendes, advogado que conduzira investigações internas em duas empresas do grupo.
— Preciso de você na Mooca. Traga um perito digital e não use o e-mail corporativo.
— Qual é o problema?
Gustavo olhou para o cunhado morto.
— Um homem sem identidade, um fundo roubado e um funeral vazio.
Caio ficou em silêncio.
— Mando a localização.
Lúcia levou Gustavo até um arquivo. Mostrou o prontuário desde a transferência recente para São Paulo.
Henrique melhorara depois de reduzir quatro medicamentos. O instituto anterior o mantivera sedado e renovava a identidade falsa por ordem de um administrador.
— Otávio visitava? — perguntou Gustavo.
— Há registros antigos. Depois enviava um médico particular.
— Quero cópias.
— Henrique precisa autorizar.
Voltaram à sala. Gustavo explicou devagar que os documentos poderiam recuperar o nome dele e mostrar quem o escondera.
— Você quer que eu veja?
Henrique segurou a caneta com dificuldade. Em vez de assinar, desenhou uma estrela e escreveu duas letras: "HB".
Lúcia confirmou a capacidade de consentimento para aquele ato e registrou em vídeo.
Nos arquivos digitalizados, Caio encontraria horas depois uma avaliação feita três semanas após o acidente. Henrique reconhecia o próprio nome, a irmã e o pai.
Também havia uma gravação de voz.
Lúcia apertou o botão.
A voz de Henrique, fraca e mais clara, encheu a sala.
— Se eu sair daqui, entrego os papéis para Renata. Ela precisa saber o que nosso pai fez.
Outra voz respondeu ao fundo.
Era Otávio.
— Você não vai a lugar nenhum.
Ouviu-se uma porta fechar. Depois, o som de um telefone.
Uma terceira gravação começou automaticamente: ruído de estrada, respiração rápida e a voz de Henrique dizendo que estava sendo seguido.
— É o carro do meu pai — falou no áudio. — Ele está atrás de mim desde a saída do escritório.
Gustavo olhou para Teresa.
Ela perdeu a cor.
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