标题上

"O Bilionário Cancelou o Voo e Descobriu o Homem Morto Há 8 Anos" Capítulo 1

正文开头

Às sete e dezoito da manhã, Gustavo Almeida tinha um jatinho esperando no Campo de Marte e uma aquisição de um bilhão e novecentos milhões de reais prestes a desmoronar sem sua assinatura.

Às sete e dezenove, Isabela segurou a manga do sobretudo dele.

— Pai… não vai.

A pasta executiva bateu no mármore do hall. Do lado de fora, o motorista buzinou uma vez.

Gustavo olhou para a filha. Isabela já vestia o uniforme azul-marinho da escola, mas a gravata fina estava torta e o rabo de cavalo loiro se desfazia sobre uma orelha.

— São duas noites, Bela. Volto antes da prova de ciências.

Ela baixou os olhos para os sapatos pretos.

— A vovó fala que promessa não vale quando adulto tem coisa importante.

Gustavo deixou o celular sobre o aparador. O conselho ligaria de novo.

— Teresa disse isso?

Isabela olhou para o corredor que levava à casa de hóspedes. O movimento durou um segundo, porém bastou.

Ele se agachou diante dela.

— Ela fez alguma coisa que assustou você?

A menina negou depressa.

— Não fica bravo com a vovó.

— Conta primeiro.

Os dedos de Isabela começaram a se esfregar. Ela fazia aquilo antes de uma injeção ou quando escondia um copo quebrado.

— Quando você viaja, ela me leva num lugar secreto.

Gustavo apoiou uma mão no piso para manter o equilíbrio.

— Que lugar?

— Não sei. Tenho que deitar atrás do banco até a gente ficar longe.

A buzina soou outra vez. Gustavo levantou o indicador na direção da janela, e o motorista parou.

— Quantas vezes?

Isabela mostrou três dedos, hesitou e abriu a outra mão.

— Cinco?

Ela assentiu.

— Alguém encostou em você?

— A vovó segura minha mão.

— Mais alguém?

— Não.

O ar voltou aos pulmões dele, curto demais para aliviar.

— O que acontece quando vocês chegam?

Os olhos azuis se encheram.

— Tem um homem. Ele anda com pau de velho e tem um risco aqui.

Isabela passou o dedo da têmpora esquerda até a bochecha.

— Ele fala com você?

— Pouquinho. Me dá estrela de papel.

— Sabe o nome dele?

— A vovó chama de Marcos. Ele me chama de Estrelinha.

Gustavo conhecia aquele apelido. Renata o usava quando lia para a filha antes de dormir.

— O que mais ele diz?

— Que eu pareço com a mamãe.

— Ele conhece sua mãe?

Isabela puxou a manga dele outra vez.

— A vovó disse que, se eu contar, a mamãe pode ficar doente de tristeza.

Gustavo pegou o telefone e ligou para o piloto.

— Informe falha mecânica. O voo está cancelado.

— Senhor Almeida, podemos deslocar outra aeronave em quarenta minutos.

— Não desloque.

Desligou e escreveu ao conselho: "Adiem a assinatura. Emergência familiar."

O diretor financeiro respondeu antes de a tela apagar: "O vendedor fecha com a concorrência ao meio-dia."

正文1

Gustavo guardou o aparelho.

— Você fica comigo agora.

— A mamãe vai saber?

Renata saíra às seis para atender na clínica de reabilitação infantil. Gustavo quase ligou para ela.

O nome "Estrelinha" o impediu. Se Teresa estivesse manipulando a menina com alguma lembrança do irmão morto de Renata, ele precisava entender o tamanho da ferida antes de abri-la.

— Vamos contar juntos — disse. — Depois que eu souber onde a vovó leva você.

Isabela limpou o rosto com a manga.

— Ela vai saber que contei.

— Adulto nenhum pode pedir que uma criança guarde um segredo que dá medo.

Gustavo chamou o motorista.

— Saia com o carro e vá ao aeroporto. Entre pelo portão executivo e espere uma hora.

— Sem o senhor?

— Se alguém perguntar, eu embarquei.

O homem olhou para Isabela, depois pegou a pasta caída.

— Entendi.

Gustavo levou a filha ao escritório e telefonou para a escola. Disse apenas que ela faltaria por assunto familiar.

Às oito e dez, a governanta bateu à porta.

— Dona Teresa perguntou se a Isabela já saiu.

— Diga que o motorista da escola está atrasado. E que eu fui para o aeroporto.

A mulher franziu a testa, mas obedeceu.

Isabela sentou no tapete entre estantes de contratos. Tirou do bolso uma estrela azul dobrada.

— Foi ele que fez?

— A primeira. Depois ele ensinou a vovó.

Gustavo abriu uma ponta. Isabela tomou o papel da mão dele.

— Não pode. Ele fica nervoso quando abre.

— Por quê?

— Não sei.

Ele devolveu a estrela.

Às nove e vinte e sete, Teresa saiu da casa de hóspedes. Tinha sessenta e quatro anos, cabelo loiro-grisalho curto e um sobretudo bege fechado até o pescoço.

Carregava a bolsa grande que usava em viagens. Olhou para a garagem e seguiu até a cozinha.

Gustavo observava do andar superior. Isabela permanecia ao lado dele, escondida atrás da cortina.

— Ela vai procurar você.

— Eu falei que ia esperar na sala de música — sussurrou a menina.

Teresa reapareceu cinco minutos depois segurando a mão da neta. Isabela havia descido pela escada de serviço conforme combinado com o pai.

A criança olhou ao redor antes de atravessar o jardim.

Gustavo apertou a mandíbula.

Teresa abriu a porta traseira da SUV preta. Isabela entrou e se deitou no piso entre os bancos.

Exatamente como contara.

Gustavo esperou trinta segundos. Pegou as chaves de um utilitário antigo, sem rastreador da empresa, e saiu pela garagem lateral.

A SUV cruzou Alphaville e seguiu pela Castelo Branco. Teresa dirigia abaixo do limite, sem mudanças bruscas.

De tempos em tempos, Gustavo via uma cabeça loira surgir e desaparecer no retrovisor do carro da frente.

O conselho ligou de novo. Ele desligou o aparelho.

Na Marginal, Teresa tomou a pista local e seguiu para a Mooca. Prédios envidraçados deram lugar a galpões, oficinas e sobrados de tijolo escurecido.

Ela parou diante de um edifício de dois andares sem placa. As janelas altas tinham películas leitosas; uma câmera vigiava a porta metálica.

Gustavo estacionou do outro lado da rua, atrás de uma van.

Teresa saiu e abriu a porta para Isabela. A menina ajeitou a saia do uniforme e segurou a mão da avó.

A porta metálica se abriu antes que tocassem a campainha.

Um homem alto apareceu apoiado numa bengala. O corpo magro curvava para a direita, e o cabelo escuro carregava fios grisalhos junto às têmporas.

A cicatriz descia pelo lado esquerdo do rosto.

Gustavo reconheceu os olhos.

Vira aquele rosto num álbum de casamento, numa fotografia de praia e no retrato que Renata guardava dentro da gaveta. O mesmo homem sorria ao lado dela aos vinte anos, antes de uma curva no litoral e de um carro incendiado.

Henrique Braga morrera oito anos antes.

Gustavo ajudara a carregar o caixão.

O homem da porta se ajoelhou com dificuldade e tirou uma estrela de papel do bolso. Isabela recebeu o presente com as duas mãos.

— Estrelinha — disse ele.

Teresa começou a chorar.

Henrique tocou o cabelo da menina, depois recolheu a mão antes de encostar.

— Renata…

Isabela recuou.

— Eu não sou a mamãe.

Gustavo abriu a porta do carro.

— Isabela!

A menina girou e correu.

Ele atravessou a rua sem olhar para os veículos, agachou e a recebeu contra o peito.

— Desculpa, pai.

— Você não fez nada errado.

Teresa deu um passo.

— Gustavo, escute antes de ligar para Renata.

Ele se levantou mantendo a filha atrás do corpo.

— Diga o nome dele.

O homem da bengala observava os três, a estrela ainda entre os dedos.

Teresa fechou os olhos.

— Henrique.

下一张上
下一章下

você pode gostar

Compartilhar Link

Copie o link abaixo para compartilhar com seus amigos:

页面底部