"Ele Salvou Uma Criança Mais Perdeu o Emprego" Capítulo 2
O cartão permaneceu dentro da bolsa por mais dois segundos.
Helena queria ouvir Carlos sem lhe oferecer uma pista. Manteve Sofia junto ao corpo e fez a pergunta outra vez.
— Você demitiu este funcionário?
— A senhora chegou no meio de uma ocorrência complexa — Carlos disse. — O equipamento foi interrompido sem autorização. Houve quedas, reclamações e risco para dezenas de pessoas.
Jonas olhou para os passageiros ainda parados nos degraus. Ninguém parecia ferido. Um homem recolhia laranjas que haviam escapado de uma sacola.
Helena se agachou diante da filha.
— Sofia, você consegue mexer os dedos dos pés?
A menina mexeu os dois pés dentro dos tênis.
— E o joelho?
Sofia dobrou as pernas. Havia uma marca vermelha na cintura, onde a saia apertara, e um rasgo de quinze centímetros na barra.
Helena tirou o casaco branco da filha, envolveu-a com o próprio blazer e a colocou sentada num banco. Ajoelhou-se de novo para ficar na mesma altura.
— Me conta desde o começo. Sem pressa.
Carlos consultou o relógio.
— Podemos levar isso para a administração.
Helena levantou um dedo sem olhar para ele.
Sofia contou que havia soltado a mão da mãe diante de uma vitrine. Queria ver uma boneca no piso inferior e entrou na escada atrás de uma mulher que pensou ser conhecida. Quando percebeu o engano, o tecido já repuxava.
— Eu puxei e ficou mais apertado. Aí ele correu.
— Quem?
Sofia apontou para Caio.
— Ele. Apertou o vermelho. Doeu na mão dele.
Helena viu os cortes. Tirou um lenço limpo da bolsa e estendeu ao funcionário.
— Pressione aqui.
Caio obedeceu.
— A ambulância está vindo? — ela perguntou.
Jonas ergueu o rádio.
— O posto médico foi acionado. A equipe deve chegar em um minuto.
— Quanto tempo vocês levaram para chegar quando a menina gritou?
O segurança hesitou.
— Eu estava no acesso leste. Cinquenta e oito segundos, mais ou menos.
— A escada percorreria quantos metros nesse tempo?
Jonas baixou os olhos.
— O suficiente.
Carlos cruzou os braços.
— Essas estimativas não mudam o protocolo.
Helena se ergueu.
— Qual item proíbe um funcionário de usar o botão de emergência diante de risco imediato?
— O pessoal da manutenção deve comunicar a central.
— Foi isso que perguntei?
Carlos passou a língua pelos lábios. Ao redor, lojistas haviam saído para os corredores. A mulher das sacolas gravava tudo.
— Senhora, entendo que esteja abalada. Sua filha teve um susto. Eu tenho um shopping para administrar.
Sofia estendeu a mão para Caio.
— Você vai embora agora?
Caio olhou para Carlos antes de responder.
— Acho que vou.
— Por minha causa?
— Já falei. Você não fez nada errado.
Helena apertou o ombro da filha.
— Ele não vai embora por sua causa.
Carlos perdeu a paciência.
— A decisão já foi tomada.
Helena retirou o celular. Na abertura da bolsa, o cartão dourado ficou parcialmente exposto. Jonas reconheceu o brasão gravado e endireitou a coluna.
Caio viu a reação do segurança. Carlos continuou falando.
— Se a senhora desejar registrar um elogio ao atendimento, nossa central de experiência do cliente pode receber. Isso não interfere numa decisão trabalhista.
Helena selecionou um contato e levou o aparelho ao ouvido.
— Tomás? Estou no átrio central do Lago Azul. Sofia quase foi puxada por uma escada rolante. Ela está viva porque um funcionário apertou o botão de emergência. O gerente acabou de demiti-lo na minha frente.
Pela primeira vez, Carlos piscou rápido.
— Quem é Tomás? — murmurou um cliente.
Helena ouviu por alguns segundos.
— Quero você, Lívia e Miguel aqui. Agora. Traga o manual de resposta a acidentes.
Ela desligou.
Carlos ensaiou um sorriso.
— A senhora está chamando advogados?
— Estou chamando as pessoas que respondem por este shopping.
— Eu respondo por este shopping.
Helena puxou o cartão da bolsa e o segurou à altura do peito. O dourado refletiu a luz do teto. Sob o nome HELENA AZEVEDO, as palavras menores diziam VICE-PRESIDÊNCIA DO CONSELHO — SEGURANÇA E PADRÕES COMUNITÁRIOS.
Jonas levou a mão ao rádio.
— Senhora Azevedo.
Carlos leu o cartão uma vez. Depois outra.
— Isso pode ser falsificado.
Jonas ficou imóvel. Caio afastou o lenço ensanguentado dos dedos.
Helena guardou o celular e manteve o cartão visível.
— O Grupo Azevedo administra vinte e três centros comerciais, quatro outlets e seis complexos de uso misto. Este imóvel pertence ao fundo que eu represento. Minha diretoria responde por segurança e relacionamento com o público.
O rosto de Carlos empalideceu.
— Dona Helena, se eu soubesse que a menina era sua filha...
— Termine.
— Eu teria cuidado pessoalmente da situação.
Helena olhou para Caio.
— Você sabia quem ela era?
— Ela disse que chamava Sofia.
— Sabia meu sobrenome?
— Não.
— Mesmo assim correu.
Caio apertou o lenço sobre a mão.
— Qualquer um correria.
Jonas desviou o olhar. Carlos também.
A equipe médica chegou com uma cadeira de rodas. Sofia recusou sentar, mas Helena pediu que aceitasse o exame. Uma enfermeira verificou pulso, tornozelos e cintura. Não encontrou lesão aparente; recomendou avaliação pediátrica e observação nas horas seguintes.
Enquanto a enfermeira conversava com Sofia, Helena se aproximou de Caio.
— Há quanto tempo você trabalha aqui?
— Dois anos e onze meses.
— Já recebeu advertência por segurança?
Carlos respondeu:
— Existem ocorrências disciplinares.
— Perguntei a ele.
Caio passou o peso de um pé para o outro.
— Tenho três advertências.
— Por quê?
— Saí da área para ajudar um senhor com uma cadeira de rodas quebrada. Levei uma criança perdida até a segurança. E fiquei com uma mulher que desmaiou perto do estacionamento até o socorro chegar.
Helena encarou Carlos.
— Ele foi advertido nas três vezes?
— Abandono de posto cria outros riscos.
— Alguém ficou sem atendimento por causa dele?
— Não é possível administrar por exceções.
— Acidentes são exceções. É para elas que se prepara uma equipe.
O elevador panorâmico tocou ao abrir as portas. Três pessoas saíram em passo acelerado: Tomás Gralha, presidente executivo do grupo; Lívia Furtado, diretora regional; e Miguel Rocha, diretor de segurança.
Carlos deu um passo para trás.
Helena recolheu o cartão e segurou a mão da filha.
Antes de os executivos chegarem ao grupo, a enfermeira pediu que Helena acompanhasse Sofia até o posto médico. A menina recusou dar um passo sem saber onde Caio ficaria. Helena pediu a Jonas que permanecesse com ele e garantisse que ninguém recolhesse seu crachá.
Carlos protestou que o crachá pertencia à empresa. Jonas respondeu que preservaria a situação até uma ordem formal. Foi a primeira vez que um subordinado de Carlos recusou uma instrução diante dele sem baixar a cabeça.
No posto, Sofia conseguiu contar à enfermeira que o aperto começara na lateral direita e subira até a cintura. A profissional fotografou a marca com autorização de Helena, guardou a saia num saco de evidências improvisado e anotou o horário exato da parada. Helena fez questão de que o tecido não fosse descartado.
— É só uma roupa — Sofia disse.
— Hoje é uma prova — Helena respondeu.
Quando voltaram ao átrio, Carlos falava ao telefone, tentando antecipar sua versão a alguém da administração. Ao ver Helena, encerrou a chamada sem se despedir. Ela anotou o detalhe e pediu a Lívia, assim que se aproximou, que preservasse também os registros telefônicos daquele intervalo.
— Acho que ninguém lhe contou quem eu sou.
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