"Ele Salvou Uma Criança Mais Perdeu o Emprego" Capítulo 1
Às quatro e dezoito da tarde, um retalho rosa desapareceu sob a chapa de metal da escada rolante.
Caio Menezes viu o tecido esticar antes de ouvir o grito.
O Shopping Lago Azul estava tomado pelo movimento de sábado. Famílias atravessavam o átrio com sacolas, adolescentes ocupavam as mesas da praça de alimentação e crianças corriam entre vitrines enquanto os pais tentavam alcançá-las. Acima de tudo, as escadas rolantes mantinham seu ronco contínuo.
Subiam. Desciam. Transportavam gente sem pausa.
Caio havia passado os últimos minutos ajoelhado perto de um banco, limpando refrigerante derramado. Usava o uniforme azul-marinho da manutenção, colete refletivo, luvas amarelas e um rádio preso ao cinto. O balde ficara atrás da placa de piso molhado. O esfregão estava em sua mão direita.
A menina ocupava um degrau no meio da descida. Tinha cabelos castanhos até os ombros, casaco branco e saia rosa. Uma mulher com três sacolas permanecia dois degraus acima, olhando o celular. A mãe da criança não aparecia por perto.
A barra da saia roçou a lateral metálica. A engrenagem puxou mais um centímetro.
Caio largou o esfregão.
— Ei! Fica parada!
A menina olhou para baixo. Tentou puxar o tecido com as duas mãos. O movimento apertou a saia em torno das pernas e torceu seu corpo para a direita.
— Moço! Minha saia!
O grito atravessou o átrio.
Caio contornou o carrinho. Um homem saiu da frente tarde demais; os ombros dos dois bateram, e o copo que o cliente carregava caiu no piso recém-limpo. Caio continuou. A escada aproximava a menina da placa dentada no desembarque.
Alguém chamou a segurança. Uma senhora acima da criança tentou agarrá-la pelo braço. O tecido repuxou com mais força, fazendo a menina perder o equilíbrio.
Caio alcançou o botão vermelho e bateu com a palma.
A máquina sacudiu. Passageiros se projetaram para a frente, uma sacola rolou por três degraus e bateu no corrimão. O ruído mecânico morreu com um gemido de metal.
A barra rosa continuava presa.
Caio subiu dois degraus e se ajoelhou. Colocou o joelho esquerdo entre a menina e a placa de desembarque, criando uma barreira com o próprio corpo.
— Como você chama?
— S-Sofia.
— Olha pra mim, Sofia. Não puxa mais.
Ela chorava com a boca aberta, sem conseguir recuperar o ar. Caio segurou o tecido acima da parte presa. A luva direita se enroscou numa rebarba; ele a arrancou com os dentes e enfiou os dedos nus sob a borda da chapa.
— Vai doer? — Sofia perguntou.
— Em você, não.
Ele empurrou a saia para baixo por um segundo, aliviando a tração, depois puxou de lado. A chapa raspou seus dedos. Um fio de sangue surgiu perto da unha. O tecido resistiu, soltou um estalo e saiu.
Sofia caiu sobre ele.
Caio a segurou pela cintura, desceu ao piso e a manteve junto ao peito. A menina agarrou o colete refletivo com as duas mãos. O corpo inteiro tremia.
— Acabou. Você tá segura.
— O que aconteceu aqui?
A voz veio do corredor lateral.
Carlos Bento avançava entre os curiosos. Aos cinquenta anos, administrava o Lago Azul como uma planilha que precisava fechar todas as noites. Vestia terno preto, sapatos brilhantes e uma gravata cinza que raramente saía do lugar. Seus olhos passaram pela multidão, pelo painel desligado e pelo fluxo parado no piso superior.
Pararam em Caio.
— Você desligou essa escada?
Caio apontou para a saia amassada.
— Ela ficou presa.
Carlos olhou para o equipamento.
— Você parou o shopping inteiro!
O choro de Sofia diminuiu. Ela escondeu o rosto na lateral do uniforme de Caio.
— É uma criança, seu Carlos.
— Eu tô vendo. E você faz ideia do transtorno que criou? Tem fila se formando nos dois andares.
— A roupa dela estava entrando na máquina.
Carlos lançou um olhar para os celulares erguidos ao redor. A desordem pública parecia ofendê-lo mais a cada nova câmera.
— Emergência é responsabilidade da segurança.
— A segurança não estava aqui.
— Você chama pelo rádio.
— Não dava tempo.
Jonas, um segurança alto de uniforme preto, apareceu pelo lado da joalheria. Levou quase um minuto desde o primeiro grito. Ao ver Sofia agarrada ao funcionário, reduziu o passo.
Carlos estendeu a mão para a menina.
— Pode deixar que o segurança cuida dela.
Sofia apertou Caio com mais força.
— Não.
Caio se agachou até ficar na altura dela.
— Ele vai procurar sua mãe, tá bom? Eu fico aqui.
Carlos tocou o ombro de Caio e o puxou para cima.
— Você não fica em lugar nenhum. Tá demitido. Pegue suas coisas.
O átrio perdeu o som por um instante. Até Jonas abaixou o rádio.
Caio olhou para a mão do gerente em seu ombro. O sangue escorria por seu dedo e deixava uma linha curta no punho azul do uniforme.
— O senhor está me mandando embora por apertar o botão de emergência?
— Estou mandando você embora por abandonar sua área, interferir num equipamento sem autorização e causar pânico.
— Ela já estava em pânico.
— Chega.
Uma mulher na primeira fila levantou o celular mais alto. Carlos a encarou, depois apontou para o corredor de serviço.
— Agora, Caio.
Caio baixou os olhos para Sofia. Ela observava os dois, juntando pedaços de uma conversa grande demais para sete anos.
— Ele vai embora por minha culpa? — perguntou.
Caio se ajoelhou outra vez.
— Você não fez nada errado.
— Eu usei a saia.
— Roupa prende. Máquina quebra. Adulto resolve. A culpa não é sua.
Carlos soltou um suspiro impaciente.
Caio se levantou. Ficou de frente para o gerente, sem esconder a mão ferida.
— Eu faria de novo.
Alguns celulares captaram a frase. Caio não sabia que aquelas quatro palavras atravessariam o país antes do jantar. Naquele momento, pensou no aluguel que venceria em dez dias e no remédio da mãe que precisava buscar na segunda-feira. Pensou no armário do vestiário, onde guardava uma marmita, um moletom e uma fotografia antiga do pai.
O som de duas sacolas batendo no chão interrompeu o silêncio.
Uma mulher de terno bege correu pelo corredor aberto entre os curiosos. O cabelo castanho balançava sobre os ombros, e um dos sapatos quase escapou quando ela desviou do esfregão caído.
— Sofia!
A menina soltou Caio e correu.
— Mãe!
Helena Azevedo caiu de joelhos e abraçou a filha. Passou as mãos por seus braços, nuca e pernas, procurando sangue, inchaço, qualquer sinal escondido pela roupa. Sofia enterrou o rosto em seu pescoço.
— Onde dói? Olha pra mim. Onde você se machucou?
— Não machucou. Ele me tirou.
Helena seguiu o dedo da filha.
Caio permanecia ao lado da escada parada, com o colete sujo e os dedos cortados. Carlos ocupava o caminho para o corredor de serviço.
Helena se levantou sem soltar a mão de Sofia.
— Foi você que a salvou?
— Apertei o botão e soltei a roupa. Ela precisa ser examinada.
— Obrigada.
A palavra saiu baixa. Helena pressionou os lábios, respirou pelo nariz e tornou a olhar para a filha.
Sofia puxou a manga do blazer da mãe.
— Ele foi mandado embora.
Helena virou o rosto devagar.
— Como é?
Carlos ajeitou a gravata.
— Senhora, houve uma quebra grave de procedimento.
— Você o demitiu depois que ele tirou minha filha daquela máquina?
Carlos abriu a boca. Sofia respondeu antes.
— Foi. Ele falou pra pegar as coisas.
Helena manteve os olhos no gerente. A mão direita entrou na bolsa bege. Seus dedos tocaram a borda lisa de um cartão dourado.
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