"A Esposa Que Minha Família Apagou" Capítulo 1
Miguel soltou minha mão e avançou em direção ao meio-fio.
Eu o agarrei pela gola da jaqueta antes que um ônibus passasse espalhando água suja sobre a calçada. Ele se debateu, apontando para a marquise da padaria fechada.
— Pai, olha!
— Fica longe da rua.
— É a mamãe.
A frase me fez apertar a gola com força demais. Soltei o tecido e me abaixei para ajeitar o cachecol vermelho dele.
— Sua mãe morreu quando você nasceu.
— Então por que ela está dormindo ali?
Miguel apontou de novo.
Uma mulher estava sentada sobre duas placas de papelão, com os joelhos escondidos sob um casaco cinza-esverdeado. Um copo de café vazio, uma sacola de mercado e uma mochila de lona ocupavam o espaço ao lado.
A chuva fina entrava de lado sob a marquise. Ela usava uma touca cinza puxada até as sobrancelhas e mantinha o rosto voltado para a parede.
— Não é ela — respondi.
Miguel saiu correndo.
— Miguel!
Atravessei a calçada atrás dele. A mulher levantou a cabeça ao ouvir o nome.
Oito anos desapareceram no espaço de uma respiração.
Os cabelos castanho-claros estavam compridos e embaraçados. O rosto magro tinha novas linhas, mas a pequena cicatriz junto à sobrancelha esquerda permanecia no mesmo lugar.
Os olhos eram prateados.
— Helena?
Ela recuou contra o tijolo. O copo caiu e rolou até minha bota.
— Não.
— Eu conheço você.
— Vá embora.
Miguel parou diante dela. A ponta do cachecol tocou o papelão molhado.
— Você sabe meu nome?
Helena cobriu a boca. O corpo inteiro começou a tremer.
— Miguel.
Meu filho olhou para mim, esperando que eu corrigisse a realidade. Dessa vez, nenhuma palavra veio.
— Você disse que ela morreu — falou ele.
Helena riu. O som saiu curto, quebrado e sem alegria.
— Ele disse isso?
— Disseram que você morreu na cirurgia — respondi.
Ela me encarou.
— Disseram que você morreu num acidente em Denver.
— Eu nunca sofri acidente.
— E eu nunca morri.
Miguel se colocou entre nós.
— Vocês estão falando estranho.
Eu tirei as luvas. Estendi uma mão e parei antes de chegar ao ombro dela.
— Posso?
Helena olhou para meus dedos, depois para o meu rosto.
— Não.
Baixei a mão.
— Certo.
Os lábios dela tinham um tom azulado. A roupa estava encharcada na barra, e um dos cadarços da bota tinha sido substituído por barbante.
— Você precisa sair do frio.
— Não preciso de nada dos Valença.
— Ele não é "os Valença" — disse Miguel.
Helena fechou os olhos. Uma lágrima desceu, misturando-se à chuva no rosto.
— Você tem oito anos?
— Fiz em abril.
— Dia dezessete.
Miguel assentiu devagar.
— Como sabe?
Ela pressionou a língua contra a parte interna da bochecha. Eu lembrava daquele gesto desde a faculdade.
— Eu estava lá quando você nasceu.
— Pai disse que você ficou doente.
— Fiquei.
— E depois morreu.
Helena olhou para mim.
— Foi o que seu avô quis que ele acreditasse.
Um carro buzinou atrás de nós. Marcos estacionou junto ao meio-fio e saiu com um guarda-chuva.
Aos trinta e nove anos, ele vestia o mesmo terno preto de motorista, camisa branca e gravata escura que usava havia quase uma década. O sobretudo impermeável balançou quando ele reconheceu Helena.
Ele perdeu a cor.
Eu me levantei.
— Marcos.
— Senhor Rafael.
— Você conhece esta mulher.
Ele olhou para o chão.
Helena puxou a mochila contra o peito.
— Não entro naquele carro.
— Ele trabalha para mim — respondi.
— Antes, trabalhava para seu pai.
Marcos fechou o guarda-chuva. A água escorreu do tecido até o sapato.
— Eu posso explicar.
— Você sabia que ela estava viva?
— Não durante todo o tempo.
A resposta abriu um buraco sob meus pés.
— Durante quanto tempo?
— Senhor, aqui não.
— Aqui foi onde meu filho encontrou a mãe que enterramos.
Miguel segurou a manga de Helena. Ela olhou para a mão pequena como se fosse algo frágil demais para existir.
— Você queria me ver? — perguntou ele.
Helena respirou pela boca.
— Todos os dias.
— Então por que não foi lá em casa?
— Fui.
Olhei para Marcos. Ele continuou encarando a calçada.
— Quando?
— Quando Miguel tinha um ano e três meses — disse Helena. — Eu vi vocês pelo portão.
Uma lembrança voltou: véspera de Natal, o sítio do meu pai, uma mulher confusa do lado de fora, segundo Marcos.
— Era você.
— Seu pai saiu e disse que me internaria de novo se eu chegasse perto.
Miguel apertou a manga dela.
— De novo?
Helena tentou se levantar. A mão escorregou no tijolo, e o joelho bateu no papelão.
Eu avancei um passo.
— Não me toca.
Parei.
— O que você quer que eu faça?
Ela levou alguns segundos para responder.
— Tire seu filho do frio.
— Você também está no frio.
— Eu já estou acostumada.
Miguel soltou a manga e tirou o próprio cachecol. Enrolou o vermelho em volta do pescoço dela com movimentos desajeitados.
Helena ficou imóvel.
— Agora você não está — disse ele.
Ela segurou as pontas do tecido e chorou em silêncio.
Marcos abriu a porta traseira do carro.
— Podemos ir ao Hospital Central — sugeriu.
Helena recuou.
— Não ao Hospital Valença.
— Não é o mesmo — respondi.
— Augusto preside o conselho de ambos.
— Então vamos ao Hospital das Araucárias. Nenhum vínculo com minha família.
Ela me observou, procurando a armadilha.
— Você não vai telefonar para seu pai?
— Não.
— Nem para Vicente Vale?
O nome do advogado da família me fez encarar Marcos outra vez.
— Por que ela mencionaria Vicente?
Helena perdeu o equilíbrio. Desta vez, não conseguiu levantar o braço para me impedir.
Eu a segurei antes que a cabeça atingisse a parede. O corpo pesava menos que Miguel.
— Mãe! — gritou ele.
Os olhos dela se abriram por um segundo.
— Araucárias — sussurrou.
— Eu prometo.
Helena desmaiou com o cachecol vermelho de nosso filho preso entre os dedos.
Naquela primeira noite, ninguém dormiu. Miguel ficou no sofá da sala de espera com a cabeça sobre minha perna, enquanto Helena recusava a medicação oferecida até que a médica mostrasse cada embalagem fechada.
— Posso ler a bula? — perguntou.
A médica entregou tudo sem demonstrar impaciência. Helena examinou nomes, doses e lacres; só então aceitou um analgésico.
Percebi que confiança, para ela, não era sentimento. Era uma sequência de provas pequenas.
Quando Miguel acordou, quis saber se a mãe iria desaparecer enquanto ele estivesse dormindo. Helena pediu uma folha e escreveu o próprio nome, o número do quarto e a promessa de que avisaria antes de sair.
— E se você esquecer? — ele perguntou.
— Você pode ficar com meu gorro.
Miguel segurou o gorro cinza durante toda a madrugada. Às vezes aproximava o tecido do rosto, tentando reconhecer um cheiro que nunca tivera chance de memorizar.
Eu fiquei do outro lado do corredor, telefonando para advogados, hospitais e pessoas que haviam comparecido a um funeral sem corpo. A cada ligação, a mesma pergunta voltava: como eu, que conferia cláusulas de cem páginas, aceitara uma certidão entregue por meu pai sem exigir ver Helena?
A resposta era vergonhosa.
Augusto resolvera crises desde minha infância. Quando minha mãe adoecia, ele escolhia o médico; quando eu fracassava, ele comprava silêncio; quando eu amava alguém que o contrariava, ele chamava aquilo de ameaça.
Eu confundira eficiência com cuidado.
Perto do amanhecer, Helena me chamou ao quarto. Miguel dormia abraçado ao gorro.
— Não conte a ele detalhes do instituto — pediu. — Ainda não.
— Você decide o ritmo.
Ela me observou como se procurasse a armadilha escondida na frase.
— Também não quero ir para sua casa.
— Tudo bem.
— Nem para a casa de sua mãe.
— Tudo bem.
— Você sempre concorda quando está com culpa?
— Estou tentando aprender a concordar quando a decisão não é minha.
Helena virou o rosto para a janela. O céu começava a clarear sobre Curitiba, cinza e sem promessa.
— Então aprenda rápido — disse. — Seu pai já sabe que estou viva.
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