"O Bilionário no Boxe do Canto" Capítulo 2
Carlos puxou a bandeja. João segurou do outro lado, e o prato deslizou alguns centímetros entre os dois.
O molho da vagem derramou sobre o guardanapo. Henrique recolheu as mãos para não ser atingido.
— Solte — ordenou Carlos.
— Deixe ele terminar.
— Você está fazendo uma cena diante de clientes pagantes.
Damião empurrou a cadeira para trás.
— A cena começou quando você tentou arrancar comida de um velho.
Carlos virou-se. O caminhoneiro tinha cinquenta e poucos anos, braços grossos e uma voz que parecia ter atravessado muitos postos de estrada.
— O senhor não conhece a política da empresa.
— Conheço fome.
Alguns clientes murmuraram concordando. Carlos soltou a bandeja, mas ficou tão perto de João que os nós dos dedos roçaram o avental.
— Isto é um negócio. Cada filé tem custo, cada boxe tem giro e cada funcionário tem função.
João apontou para o prato.
— Desconte de mim.
— Com qual dinheiro?
Ele sabia. Carlos aprovara os adiantamentos de João nas semanas em que Marta perdera dias de serviço por causa do pulso.
— Com as gorjetas de hoje.
— Você tem dezoito reais na caixinha.
— O prato custa menos.
— Não é você quem define o custo.
Henrique tentou se levantar.
— Eu vou embora.
João colocou a palma aberta na direção dele.
— Por favor, fique sentado.
— Chega — disse Carlos. — Você não dá ordens aqui.
— Eu pedi para ele comer.
— E eu mandei você trabalhar.
O homem que filmava no boxe vizinho ergueu mais o celular. Uma cliente pediu que ele parasse, mas ninguém desviou os olhos.
Carlos abriu os braços para o salão.
— Vocês acham bonito. Amanhã aparecem dez pessoas pedindo jantar de graça. Depois vinte. Quem paga os salários quando a conta não fecha?
Neide surgiu na janela da cozinha com a espátula ainda na mão.
— Era a refeição dele, Carlos.
— Volte para a chapa.
— Eu preparei.
— E a empresa comprou.
João respirou pelo nariz. O cheiro do próprio jantar continuava ao alcance, misturado ao café derramado e à roupa molhada de Henrique.
— Ele quase caiu — disse João. — O senhor viu.
Carlos ajeitou o punho da camisa.
— Vi um homem ocupar o último boxe sem fazer pedido.
Damião bateu a mão na mesa.
— Eu pago a conta dele.
— Não depois da infração.
— Que infração? Ter estômago?
Uma risada nervosa percorreu duas mesas e morreu quando Carlos encarou o salão.
João tirou a carteira do bolso. Havia uma nota de dez, duas de cinco e moedas.
— Aqui.
Carlos não pegou.
— Guarde. Vai precisar.
João olhou para ele.
— Por quê?
— Tire o avental.
O pedido entrou no salão como o barulho de um copo quebrado.
— Carlos...
— Você está demitido.
João ficou imóvel. Na cabeça, os números se alinharam sozinhos: aluguel em nove dias, gasolina para a clínica, remédio da mãe, matrícula do próximo semestre.
Ele levou as mãos ao nó nas costas.
— Não faça isso com ele — pediu Henrique. — A decisão foi minha. Eu aceitei.
— O senhor não tem qualquer participação nesta conversa.
— Tenho um prato diante de mim e o emprego dele sobre a mesa.
Carlos apontou para a saída.
— Quando terminar, vá embora.
João desamarrou o avental. Dobrou o tecido duas vezes, alisando uma mancha de farinha que não sairia naquela noite.
Rosa, outra garçonete, cobriu a boca atrás do balcão. Neide fechou a janela da cozinha com tanta força que o metal bateu.
João colocou o avental ao lado da bandeja.
— Meu acerto sai quando?
— Amanhã. Se eu tiver tempo.
— A lei dá prazo.
Carlos se aproximou.
— Quer discutir lei comigo agora?
— Quero saber quando recebo.
— Saia antes que eu desconte o prejuízo que está causando.
Henrique empurrou o prato para longe. A vergonha voltara ao rosto dele.
João reposicionou a bandeja.
— Termine de comer.
Carlos soltou uma risada seca.
— Você ainda não entendeu nada.
João pegou a mochila sob o balcão. A alça estava presa com fita isolante, e o envelope da fisioterapia apareceu pela abertura do zíper.
— Entendi que vou para casa sem trabalho.
— Por uma escolha sua.
— Sim.
Carlos esperou um pedido de desculpas. João colocou a mochila no ombro.
— Eu faria de novo.
Damião começou a bater palmas uma vez, mas Henrique levantou a mão. O velho não queria aplauso sobre a própria fome.
— Sente aqui um minuto, João — pediu.
— Preciso ir.
— Sua família espera?
João tocou o bolso onde estava a chave do carro.
— Minha mãe e minha irmã.
— Dependem do seu salário?
Carlos bufou.
— Vai fazer uma entrevista social agora?
Henrique encarou o gerente. A voz saiu baixa e limpa.
— Qual era o nome do fundador?
— O quê?
— Este lugar se chama Miller. Quem o abriu?
— Isso não tem relevância.
— Tem para mim.
João respondeu:
— Thomas Miller.
Henrique passou o polegar pela borda da mesa. Havia ali uma pequena marca que lembrava uma meia-lua.
— Ele ainda está vivo?
— Morreu faz muitos anos.
O velho fechou os olhos por um instante.
Carlos apontou novamente para a porta.
— Os dois podem sair.
Damião se levantou por completo.
— Se expulsar o velho antes de ele comer, eu também saio sem terminar. Pago o que consumi e nunca mais volto.
Outros dois clientes ergueram as mãos. Rosa observava Carlos, esperando que a ameaça coletiva alcançasse algum lugar que a compaixão não alcançara.
Ele apertou o maxilar.
— Cinco minutos.
Carlos voltou ao caixa. Pegou o tablet de ponto e começou a tocar a tela com rapidez.
João reconheceu a página de escalas. Viu o próprio nome desaparecer do sábado, depois do domingo.
Henrique puxou o prato outra vez. Comeu a última parte do frango em pequenas garfadas.
— Você conheceu Thomas? — perguntou João.
— Uma vez.
— Parece pouco para lembrar depois de tantos anos.
— Algumas pessoas precisam de anos para mudar nossa vida. Outras precisam de uma refeição.
Henrique terminou o purê e bebeu a água. O tremor diminuíra, mas sua pele permanecia pálida.
— Posso chamar uma ambulância — ofereceu Rosa.
— Não será necessário.
Ele abriu a jaqueta. João esperava um documento ou um frasco de remédio.
Henrique retirou um telefone fino, de tela grande, novo demais para combinar com as botas rachadas.
Carlos parou de mexer no tablet.
O velho desbloqueou o aparelho por reconhecimento facial e fez uma chamada. Do outro lado, alguém atendeu antes do segundo toque.
— Helena — disse ele. — Estou na Lanchonete Miller, na Rodovia 47.
Ouviu a resposta sem tirar os olhos de Carlos.
— Sim, é esta noite. Traga a equipe jurídica e os documentos da aquisição.
João deixou a mochila escorregar do ombro.
Henrique olhou para o prato vazio.
— Ele me deu o próprio jantar.
Houve outra pausa.
— Traga meus advogados.
Helena respondeu alguma coisa que João não ouviu. Henrique desligou e colocou o aparelho ao lado do saleiro.
— O senhor chamou advogado por causa de um jantar? — perguntou Rosa.
— Chamei porque esta noite já estava marcada.
Carlos caminhou até o telefone, como se pudesse identificar a chamada olhando a tela apagada.
— Marcada por quem?
Henrique puxou a jaqueta sobre os ombros.
— Pelas pessoas que pagam suas contas desde que a lanchonete deixou de pagar as próprias.
O gerente voltou ao caixa. Tentou ligar para o proprietário, depois para outro número; nas duas vezes, a chamada caiu na caixa postal.
João recolheu a mochila do chão. O envelope da clínica escapou pela abertura e caiu perto da bota de Henrique.
O velho abaixou-se para pegar. João chegou primeiro.
— É pessoal.
— Eu não ia abrir.
João empurrou o papel de volta para a mochila. A cobrança impressa continuou visível por um instante.
— Sua irmã? — perguntou Henrique.
— Como sabe?
— Você disse fisioterapia quando calculou o que perderia. Falou tão baixo que achou que ninguém ouviu.
João passou a alça pelo ombro.
— Não quero que isso entre na decisão.
— Qual decisão?
— A que fez o senhor chamar três advogados.
Henrique inclinou a cabeça, aprovando a cautela. Do lado de fora, um clarão atravessou o estacionamento, seguido pelo ronco grave de um motor.
Carlos foi até a janela.
Faróis negros e brancos se multiplicaram na água. O primeiro carro virou devagar, seguido por mais dois.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4