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"O Bilionário no Boxe do Canto" Capítulo 1

正文开头

A chuva transformava o estacionamento da Lanchonete Miller num espelho preto quando o velho atravessou a porta e quase caiu.

João largou a cafeteira sobre o balcão. Duas xícaras tombaram, e o café quente correu por baixo da máquina enquanto ele atravessava o salão.

— Senhor, segura em mim.

O homem agarrou a borda de um boxe vermelho. Tinha uns setenta e cinco anos, cabelos grisalhos grudados na testa, barba curta e irregular, uma jaqueta marrom encharcada, jeans desbotado e botas tão gastas que a água saía pelas costuras.

— Estou bem — murmurou.

Os joelhos dobraram outra vez.

João passou o braço pela cintura dele e o acomodou no único boxe vazio, perto da janela. O salão estava lotado, mas aquele lugar acabara de ser liberado por um casal que correra até o carro sob um guarda-chuva pequeno demais.

— Como o senhor se chama?

— Henrique.

— Certo, seu Henrique. Vou trazer água.

João voltou com um copo cheio e um sachê de açúcar. Henrique envolveu o vidro com as duas mãos, tentando esconder o tremor.

— O senhor comeu hoje?

Henrique olhou para a chuva.

No boxe ao lado, uma mulher puxou a bolsa para mais perto do corpo. O marido manteve os olhos no hambúrguer.

— Não quero incomodar — disse Henrique.

— Isso não responde.

O velho ergueu o rosto. Os olhos cinzentos ainda tinham uma nitidez que não combinava com o corpo curvado.

— Você sempre fala assim com os clientes?

— Só com os que estão quase desmaiando.

Henrique levou o copo aos lábios. Bebeu pouco, como se o estômago precisasse ser avisado antes de receber qualquer coisa.

Do outro lado do salão, Carlos Bessa observava.

Aos cinquenta anos, o gerente mantinha os cabelos grisalhos penteados com gel, a camisa branca sem uma dobra e o avental preto alinhado com a fivela do cinto. O nome gravado na placa metálica brilhava mais que os talheres.

Ele apontou dois dedos para João e depois para a fila junto à porta.

Volte ao trabalho.

João conhecia aquele gesto. Conhecia também o envelope amassado dentro da mochila, com a cobrança da fisioterapia de Luiza, e o bilhete da mãe avisando que o botijão terminaria antes do fim da semana.

— Fique sentado — disse a Henrique. — Eu já volto.

Passou pelas mesas recolhendo pratos, entregou guardanapos ao boxe seis e pediu desculpa à família perto da jukebox. O estômago contraiu quando o relógio marcou sete e quarenta e cinco.

Sua refeição estava pronta na sala dos funcionários.

Frango grelhado, purê de batata, vagem com alho e um pão francês embrulhado num guardanapo. João não almoçara; os trinta reais tinham ido para gasolina, e ele precisava levar Luiza à clínica na manhã seguinte.

Neide, a cozinheira, apoiou a espátula no ombro.

— Come agora, menino. Daqui a pouco entra a excursão.

João olhou pela janela da cozinha. Henrique continuava segurando a água, com a cabeça baixa.

正文1

— Tem como fazer outra depois?

— Se o Carlos contar os filés, eu nunca te vi.

— Ele conta.

Neide seguiu o olhar dele.

— Ah, João.

Ele pegou a bandeja.

— Minha mãe vai dizer a mesma coisa.

— Sua mãe criou um teimoso.

— Criou dois. A Luiza é pior.

João saiu antes de mudar de ideia. O cheiro do frango parecia mais forte no caminho até o boxe.

Henrique recuou quando a bandeja pousou diante dele.

— Eu pedi água.

— A água chegou com acompanhamento.

— Não tenho dinheiro.

João colocou os talheres sobre o guardanapo.

— É o meu jantar.

— Então leve de volta.

— O senhor está tremendo.

— E você está com fome.

João abriu um sorriso curto.

— Tenho prática.

Henrique encarou o prato. O vapor subia do purê e embaçava a parte inferior da janela.

— Não posso aceitar a comida de um rapaz que precisa dela.

— Já aceitou.

— Como?

— Eu trouxe até aqui. Se voltar comigo, o gerente joga fora por ter ido ao salão.

Era mentira. Carlos descontaria o valor e obrigaria João a comer em pé na cozinha, mas a mentira deu ao velho uma saída sem humilhação.

Henrique tocou o cabo do garfo.

— Obrigado, filho.

— João.

— Obrigado, João.

A primeira garfada entrou devagar. Depois da segunda, as mãos tremiam menos.

João ficou ao lado do boxe, fingindo conferir o saleiro. Queria ter certeza de que Henrique não engasgaria nem desmaiaria.

— Você é parente do dono? — perguntou o velho.

— Não existe mais um Miller dono daqui.

— Mas seu sobrenome...

— Minha mãe diz que todo Miller da região é primo até alguém pedir dinheiro.

Henrique quase sorriu.

— Quem fundou este lugar?

— Thomas Miller. Morreu antes de eu nascer.

O garfo parou no ar.

— Você sabe alguma coisa sobre ele?

— Só as histórias. Alimentava caminhoneiro sem cobrar quando a estrada alagava. Meu avô dizia que ele perdia dinheiro em cada temporal.

— Seu avô estava errado.

João se virou para perguntar por quê.

Carlos vinha pelo corredor entre os boxes.

Os clientes perceberam antes que ele chegasse. O volume das conversas caiu aos poucos, substituído pelo chiado da chapa e pela chuva contra o vidro.

Carlos parou diante da mesa. Primeiro examinou a bandeja; depois, o avental de João.

— Essa é a refeição de funcionário.

— É a minha — respondeu João.

— Por que está na mesa de um cliente?

Henrique baixou o garfo.

— O rapaz só tentou me ajudar.

Carlos nem virou o rosto.

— Estou falando com meu funcionário.

João aproximou o prato de Henrique.

— Ele precisava comer.

— E você precisava obedecer.

Uma tela de celular se acendeu no boxe ao lado. Damião, caminhoneiro que jantava ali três vezes por semana, limpou a boca com o guardanapo e virou o corpo para acompanhar a discussão.

正文2

Carlos tocou a borda da bandeja.

— Vou retirar isto.

Henrique soltou o garfo.

João pousou a mão sobre o prato antes que o gerente pudesse puxá-lo.

— Ele ainda não terminou.

O salão inteiro ficou quieto.

Carlos levantou os olhos.

— Tire a mão.

João não tirou.

Um pedido ficou pronto na janela da cozinha, mas ninguém se moveu para buscá-lo. A campainha tocou duas vezes, aguda demais naquele silêncio.

Henrique tentou cortar outro pedaço do frango. A faca raspou no prato porque sua mão ainda não recuperara a força.

João virou o cabo para o lado direito e cortou a carne em três pedaços menores. Fez isso sem pedir licença e sem olhar para Carlos.

— Eu consigo — disse Henrique.

— Eu sei.

— Então por que cortou?

— Porque vai esfriar enquanto vocês discutem.

Damião soltou um som curto pelo nariz. A mulher que segurava a bolsa afrouxou os dedos e chamou Rosa.

— Coloque um café na minha conta para ele.

Outro cliente ofereceu pagar uma sopa. Em menos de um minuto, cinco pessoas tentaram cobrir uma refeição que João já havia dado.

Carlos ergueu a voz.

— Ninguém vai transformar meu salão numa vaquinha.

Henrique pousou os talheres.

— Curioso. O problema deixou de ser o custo assim que outras pessoas aceitaram pagar.

Carlos abriu a boca e fechou. João viu uma veia pulsar junto à têmpora do gerente.

A porta se abriu, trazendo uma rajada de chuva. Uma família entrou e recuou ao encontrar todos os rostos voltados para o boxe.

Rosa conduziu-os ao balcão. O trabalho tentou recomeçar, mas cada ruído parecia aguardar a próxima palavra de Carlos.

João sabia que a escala do mês seguinte ainda não estava publicada. Carlos podia cortar suas noites, negar a folga da clínica e fazê-lo pedir demissão sem assinar uma única punição.

Mesmo assim, manteve a palma sobre a bandeja.

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