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"Escondi Minha Filha do Bilionário Até Aquele Acidente" Capítulo 3

正文开头

O helicóptero pousou no teto do Santa Aurora vinte e dois minutos depois.

A doutora Helena atravessou o corredor já prendendo os cabelos sob a touca. Bento resumiu o quadro enquanto os dois entravam na sala.

Mateus ficou do lado de fora.

Ele podia mover pessoas, cancelar reuniões e liberar máquinas. A faixa vermelha no piso marcava onde sua autoridade terminava.

Sofia acordou quando o helicóptero partiu.

— Minha mãe foi nele?

— A médica veio nele.

— Ela é melhor que o doutor Bento?

— Sabe fazer uma parte diferente.

Sofia abriu a caixa e montou uma mesa de chá no carpete. Colocou as duas xícaras rachadas, Luna numa ponta e Valente na outra.

— Você senta aqui.

Mateus retirou o paletó e sentou no chão.

— O que estamos bebendo?

— Sopa de morango.

Ele levou a xícara vazia à boca.

— Está quente.

— Você tem que soprar.

Sofia demonstrou. Mateus soprou e tomou um gole imaginário, fazendo a menina corrigir a posição do dedo.

— Rico não sabe tomar chá?

— Este rico não.

Ela riu pela primeira vez. A covinha apareceu no lado esquerdo.

Clara observava da porta com um envelope transparente.

— Encontramos uma das cartas — disse.

Mateus guardou a xícara.

— Leia.

— Aqui?

Ele olhou Sofia.

— Depois.

Às sete e quarenta, o banco de sangue pediu autorização para transporte de um lote raro. Às oito e cinco, a administradora trouxe o termo de internação na UTI. Mateus assinou como responsável financeiro, sem preencher vínculo familiar.

Sofia ficou ao lado de seu nome.

— Pode escrever pai aí.

A caneta parou.

— Sua mãe precisa conversar com a gente primeiro.

— Meu pai foi embora antes de eu nascer.

— Quem disse?

— Mamãe falou que ele não sabia voltar.

Mateus fechou a tampa da caneta.

— Talvez ele tenha recebido o mapa errado.

— Então compra um certo.

Clara desviou o rosto. A administradora recolheu os papéis em silêncio.

Pouco depois das nove, Bento apareceu. Retirou a touca e encostou na parede antes de falar.

— O sangramento está controlado. Ela perdeu muito sangue e continuará em estado crítico, mas saiu da cirurgia.

Sofia levantou tão depressa que derrubou a mesa de chá.

— Posso ver?

— Um minuto, pela porta. Depois a equipe precisa trabalhar.

Mateus recolheu as xícaras e guardou cada objeto na caixa. Sofia insistiu em levar Luna.

Na UTI, Ana estava cercada de tubos e monitores. O rosto tinha escoriações; o cabelo castanho-claro desaparecia sob curativos.

Sofia encostou a boneca na grade.

— Eu trouxe todo mundo, mamãe. Até o homem que não sabe chá.

Bento permitiu que ela tocasse os dedos da mãe. Mateus ficou na porta até a menina chamá-lo.

— Ela está gelada.

Ele se aproximou e colocou o cobertor sobre a mão de Ana.

— A máquina controla a temperatura. O doutor está olhando.

正文1

— Você olha também.

Mateus puxou a poltrona e sentou. Sofia subiu em seu colo com Luna presa ao peito.

Uma hora depois, adormeceu.

Clara entrou e entregou a carta recuperada. O envelope fora aberto e carimbado pela antiga secretaria particular de Ricardo.

Mateus leu a letra de Ana.

"Eu devia ter ido embora sem falar, mas não consigo. A noite na Luz não foi erro. Se você ainda quiser conversar, estarei na livraria terça-feira às seis."

No verso, outra mão escrevera: respondida — assunto encerrado.

Mateus nunca vira aquela página.

— Quantas? — perguntou.

— Há registro de três. Uma foi destruída conforme baixa interna. A terceira está num arquivo terceirizado.

— Preserve tudo. Chame o jurídico para congelar qualquer acesso de Ricardo.

Clara assentiu.

Mateus aproximou a carta da cama.

— Eu teria ido — sussurrou. — Ana, eu teria atravessado a cidade.

Os dedos dela não se moveram.

Ele apoiou a mão sobre a dela, sem apertar.

— Encontrei você. Demorei, mas encontrei.

Sofia dormia contra seu peito. Mateus fechou os olhos por alguns minutos, ainda sentado.

À meia-noite e vinte, um som regular começou no corredor.

Antes disso, Sofia acordou assustada com o alarme de outro quarto. Mateus acendeu a luz pequena e mostrou que o monitor de Ana continuava no mesmo ritmo.

— Barulho não é sempre dela — explicou.

— Se for, você me acorda?

— Acordo.

Ela pediu uma história. Mateus não lembrava nenhuma infantil completa, então contou sobre navios que entravam no Porto de Santos à noite.

— O capitão é rico?

— Alguns navios pertencem à empresa.

— Então você manda no mar?

— O mar não aceita chefe.

Sofia gostou disso. Exigiu que Luna fosse a capitã e que o navio levasse remédios sem cobrar de crianças.

Mateus adaptou a história. Quando terminou, ela dormia com a mão fechada no tecido floral.

Bento voltou para avaliar Ana e encontrou Mateus lendo a carta outra vez.

— Ela vai acordar quando?

— Podemos reduzir a sedação pela manhã, se pressão e exames permitirem.

— Sofia perguntou se falta de dinheiro mata.

Bento retirou os óculos.

— Falta de acesso atrasa diagnóstico, transporte e remédio. Seu cheque ajuda esta paciente; sua ala pode ajudar muitas, se o conselho não transformar tudo em sala de homenagem.

Mateus pegou o projeto da doação. As primeiras páginas reservavam um átrio com o nome Saldanha em mármore.

— Troque o átrio por atendimento social e leitos de estabilização.

— A administradora vai reclamar.

— Ela pode reclamar comigo amanhã.

Clara anotou a mudança.

Uma enfermeira ofereceu levar Sofia a um quarto infantil. Mateus perguntou à menina quando ela abriu os olhos.

— Fico aqui. Mamãe não gosta de acordar sozinha.

Eles aproximaram a cama auxiliar. Mateus ficou entre as duas, com a carta no bolso e Luna sobre o braço da poltrona.

Madeira contra piso. Passo. Madeira contra piso.

正文2

Clara levantou e abriu a porta dois centímetros.

Ricardo Saldanha avançava entre dois seguranças, batendo a bengala de pomo dourado no chão.

Mateus fechou o paletó sobre Valente e entregou a Clara o telefone desbloqueado. Pediu que registrasse a hora de cada aproximação.

— Está preparado? — ela perguntou.

— Não.

— Ótimo. Preparação demais vira discurso.

Sofia levantou a mão da cama auxiliar.

— Fala baixo para mamãe dormir.

Mateus prometeu. Saiu sem permitir que Ricardo atravessasse a linha azul diante da UTI.

O pai tentou abraçá-lo para as câmeras do corredor. Mateus manteve os braços ao lado do corpo e pediu que os seguranças se afastassem.

Clara recebeu ligação do banco confirmando que Ricardo tentara transferir recursos para outra fundação. O bloqueio chegara minutos antes.

Mateus pediu que o relatório fosse entregue ao conselho, sem comentar diante de Sofia.

— Depois você me explica? — ela perguntou.

— Com palavras que você entenda.

Sofia assentiu e entregou outra vez a boneca sem braço. Mateus guardou-a perto do coração antes de enfrentar o corredor.

Clara acionou o bloqueio da porta sem produzir alarme. A equipe cobriu o vidro inferior com uma cortina para que Ricardo não visse Sofia dormindo.

Mateus consultou Bento antes de sair.

— A discussão pode afetar Ana?

— Qualquer barulho pode. Mantenha-o fora e não transforme a UTI em sala de conselho.

— Se ela piorar, interrompa.

— Eu interrompo qualquer um, inclusive você.

Mateus concordou. Pediu a Clara que gravasse apenas o corredor e preservasse a imagem da paciente.

Sofia abriu os olhos quando a bengala bateu mais perto.

— É o adulto ruim?

— É meu pai. Clara fica com você.

Ela entregou Valente a ele.

— Leva. Falta um braço, mas ajuda.

Mateus colocou a boneca no bolso. O objeto formou um volume estranho sobre o peito quando ele abriu a porta.

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