"Escondi Minha Filha do Bilionário Até Aquele Acidente" Capítulo 2
O letreiro CIRURGIA EM ANDAMENTO acendeu acima das portas.
Mateus levou Sofia para uma sala de espera próxima, sem afastá-la do caminho usado pela equipe médica. A menina recusou a poltrona e sentou no sofá com a caixa no colo.
Uma enfermeira lavou suas mãos, limpou um corte no joelho e trouxe roupas secas. Sofia escolheu vestir a camiseta amarela por cima da camisa rosa; não permitiu que jogassem a meia cinza fora.
— Minha mãe costura — explicou. — Ela fecha o buraco.
Mateus pediu que guardassem a meia num saco. O segurança voltou com tênis, comida e um carregador de celular.
Sofia examinou o sanduíche.
— Tem que pagar antes?
— Já está pago.
— Com quanto?
— Com dinheiro.
— Mais que Luna?
— Luna não tem preço.
Ela aceitou a resposta e comeu devagar, separando metade para a mãe. Mateus não explicou que Ana não poderia comer depois da cirurgia; pediu uma embalagem limpa e escreveu o nome dela.
Clara entrou às quatro e vinte. Aos quarenta e dois anos, usava terno preto, camisa marfim e cabelos lisos na altura dos ombros.
Trazia um tablet e uma pasta fina.
— Tenho dados públicos e os documentos enviados pelo serviço social — disse. — Nada confirma parentesco ainda.
Mateus olhou para Sofia, adormecida contra a lateral do sofá.
— Fala baixo.
Clara abriu o cadastro. Ana tinha trinta e seis anos, trabalhava como costureira autônoma e três tardes por semana numa livraria do Brás.
Morava numa quitinete alugada com a filha. O nome do pai não constava na certidão de nascimento.
Sofia nascera em quatorze de novembro, cinco anos antes.
Mateus apoiou o tablet na mesa.
— A Estação da Luz foi em fevereiro daquele ano.
Clara esperou.
— Vocês conversaram naquele dia?
— O último trem dela foi cancelado. Passamos a noite numa pensão perto da estação.
— E depois?
Mateus abriu a mão vazia.
— Quando acordei, havia um bilhete. Ela dizia que tinha sido um erro e pedia que eu não a procurasse.
— Procurou?
— Por oito meses. Meu pai me entregou uma declaração assinada por Ana, afirmando que se casaria e não queria contato.
Clara ampliou a certidão.
— A data combina. Os olhos e a covinha combinam. Isso ainda é hipótese.
— Eu sei.
— Quando Ana puder decidir, oferecemos exame. Sofia não deve descobrir por uma pesquisa.
Mateus assentiu. A correção incomodava, e por isso mesmo era necessária.
Clara mostrou extratos de processos. Ana acumulava dívidas médicas, aluguel atrasado e uma cobrança de ambulância antiga.
— Por que ela não pediu ajuda?
— Talvez tenha pedido e a mensagem não tenha chegado.
Mateus levantou os olhos.
Clara abriu uma pasta digital com registros arquivados da portaria corporativa. Nos cinco anos anteriores, três correspondências em nome de Ana Meireles haviam sido recebidas na sede e encaminhadas ao escritório particular de Ricardo Saldanha.
Nenhuma chegara a Mateus.
— Quero os protocolos originais.
— Já solicitei preservação.
Sofia se mexeu sob o cobertor.
— Mamãe?
Mateus mostrou o relógio e explicou que os ponteiros dariam uma volta antes da próxima notícia. Sofia exigiu que ele desenhasse o círculo num papel.
Ele traçou um relógio ruim. Ela corrigiu os números e coloriu a porta do centro cirúrgico de vermelho.
— Quando chegar aqui, ela sai?
— O médico vem falar com a gente. Pode demorar mais.
— Você fala "pode" muito.
— Porque ainda não sei.
Sofia guardou o desenho. Depois perguntou onde ele morava, se tinha filhos e quem fazia sua comida.
— Moro numa casa. Não tenho filhos registrados. Dona Celina cozinha quando estou lá.
— Você não sabe cozinhar?
— Sei pedir.
— Isso não é cozinhar.
Clara recebeu uma mensagem e se afastou. O arquivo terceirizado localizara outra correspondência, mas a caixa estava sob ordem de descarte assinada naquela manhã pelo antigo secretário de Ricardo.
— Suspenderam a destruição por vinte minutos — disse. — Precisamos de medida judicial.
Mateus chamou o jurídico no viva-voz e forneceu o protocolo. Em doze minutos, uma juíza plantonista determinou preservação dos documentos ligados a Ana.
— Seu pai saberá que estamos procurando — Clara avisou.
— Ele já sabe que bloqueamos as contas.
Sofia ergueu o desenho.
— Seu pai também está no hospital?
— Ainda não.
— Ele é bonzinho?
Mateus demorou.
— Ele fez coisas ruins. Se aparecer, fica perto de mim ou da enfermeira.
— Minha mãe fala que adulto ruim parece adulto normal.
Clara anotou a frase no relatório de segurança.
O relógio desenhado completou a volta. Bento ainda não voltara, e Sofia colocou a metade do sanduíche sobre a mesa, guardada para Ana.
Mateus sentou ao lado dela.
— Ainda está na cirurgia.
— Faz muito tempo.
— Faz.
Ela contou as bonecas. A de cabelo dourado, a de vestido azul, Luna e um bebê de plástico sem um braço.
— Essa chama Valente — disse. — Mamãe consertou três vezes.
— E por que Valente?
— Porque continua brincando.
Sofia empurrou Luna para ele.
— Segura enquanto eu durmo?
Mateus recebeu a boneca com as duas mãos. A costura do vestido tinha pontos minúsculos, iguais aos que Ana fazia nos bolsos de suas camisas na universidade.
— Seguro.
Ela apoiou a cabeça no braço dele e adormeceu outra vez.
Clara baixou a voz.
— Seu pai participa de um jantar da Fundação Saldanha hoje. Vai descobrir o bloqueio quando tentar movimentar a conta.
— Suspenda todas as distribuições discricionárias.
— Preciso da justificativa para o conselho.
— Auditoria por risco de fraude documental.
— Temos indício suficiente nas correspondências desviadas. Vou protocolar.
Mateus observou o pé pequeno dentro do tênis novo. Um pedaço da meia cinza aparecia acima do cadarço.
— Eu estava discutindo portos enquanto ela contava moedas.
Clara fechou a pasta.
— Você não sabia que existia.
— Meu pai sabia que Ana tentava chegar até mim.
— Descobriremos o que cada carta dizia.
A porta se abriu antes que Clara guardasse o tablet. Bento entrou ainda com touca, máscara solta no pescoço e manchas novas no pijama.
Mateus levantou sem acordar Sofia.
— Terminou?
— Reparamos a primeira hemorragia. A pressão caiu de novo e encontramos sangramento próximo ao fígado.
Mateus apertou Luna.
— O que precisa?
— Sangue, tempo e uma especialista vascular. A doutora Helena Prado está em Campinas.
Clara já discava.
— Helicóptero em dez minutos.
Bento apontou para Mateus.
— Ela pode não resistir, mesmo com tudo. Não diga à criança que dinheiro garante a mãe.
Mateus olhou para Sofia dormindo.
— O senhor garante que não vai parar por falta de recurso.
— Isso eu garanto.
Bento voltou às portas.
Clara conseguiu uma fotografia da carta prestes a ser destruída. Era outro envelope com a letra de Ana, datado de quando Sofia tinha três meses.
O conteúdo permanecia lacrado, mas o protocolo trazia a ordem "encaminhar ao doutor Ricardo". Mateus pediu à juíza que incluísse o arquivo inteiro na preservação.
— Se houver outras, vamos encontrar — disse Clara.
Sofia acordou e pediu o relógio desenhado. Acrescentou um sol no alto da folha, embora o hospital já estivesse escuro.
— É para mamãe saber que amanhã existe.
Mateus guardou o desenho ao lado de Luna e prometeu entregá-lo quando Ana abrisse os olhos.
O letreiro permaneceu aceso, e Mateus segurou a boneca que Ana fizera para uma filha que talvez fosse dele.
Na parede oposta, o relógio real avançou vinte minutos. Sofia abriu os olhos, conferiu o desenho e perguntou se a especialista já tinha chegado.
Clara mostrou a luz do helicóptero pela janela. A menina fez um risco verde sobre a porta vermelha e escreveu AJUDA.
Mateus pediu uma cópia do desenho.
— Este vai para mamãe. Você ganha outro depois.
Ele aceitou a fila de espera.
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