"Escondi Minha Filha do Bilionário Até Aquele Acidente" Capítulo 1
As rodas da maca bateram na emenda do piso e fizeram o corpo de Ana Meireles saltar sob o lençol.
— Mamãe!
Sofia correu atrás da equipe até a meia cinza escapar de um dos pés. Caiu de joelhos, levantou sem procurar a meia e alcançou as portas vermelhas do centro cirúrgico no instante em que elas se fecharam.
O corredor do Hospital Santa Aurora engoliu o choro da menina entre alarmes, anúncios e passos apressados.
Dr. Bento Klein saiu da sala de trauma com sangue seco no punho do jaleco. Tinha cinquenta e oito anos, cabelos grisalhos curtos e o pijama cirúrgico azul marcado pela primeira avaliação.
— Sofia, sua mãe já está com a equipe — disse, abaixando-se. — Preciso que espere comigo.
Ela olhou para a porta, depois para uma caixa de papelão encostada na parede. Correu até o objeto e voltou carregando-o com os dois braços.
Uma boneca de plástico caiu pela abertura. Sofia a recolheu e empurrou a caixa para o médico.
— Leva tudo, doutor. Só não deixa minha mãe morrer.
Bento segurou o fundo antes que as xícaras rachadas tombassem. Havia duas bonecas, uma escova rosa, um colar de letras e Luna, boneca de pano costurada com tecido de flores azuis.
— Você não precisa pagar o hospital com brinquedos.
— É tudo que eu tenho.
— Eu sei. Continua sendo seu.
Sofia apontou para o centro cirúrgico.
— O carro fez barulho e bateu nela no ponto de ônibus. Saiu muito sangue. O homem da ambulância falou que demora custa caro.
— Ele falava de tempo.
— Tempo também custa?
Bento respirou pela boca e devolveu a boneca que caíra.
— Como sua mãe se chama?
— Ana Meireles.
Trinta metros adiante, uma pasta executiva caiu no chão.
Mateus Saldanha parou entre a administradora do hospital e dois conselheiros. Viera assinar a liberação de quarenta milhões de reais para uma nova ala, reunião prevista para durar meia hora.
Aos trinta e oito anos, controlava portos, ferrovias e centros de distribuição em três países. Vestia terno grafite sob medida, camisa branca e gravata preta; fios prateados começavam a aparecer nas têmporas do cabelo castanho-escuro.
— Senhor Saldanha? — perguntou a administradora.
Mateus não respondeu.
Ana Meireles.
O nome atravessou doze anos, cartas devolvidas e uma plataforma na Estação da Luz. Ele abandonou a pasta e caminhou até o médico.
Bento levantou ao vê-lo.
— Senhor Saldanha, a reunião...
— Repita o nome da paciente.
O médico ajustou a caixa nos braços.
— Ana Meireles, trinta e seis anos. Trauma por atropelamento.
Mateus perdeu a cor. Ajoelhou no piso diante de Sofia, ignorando o vinco da calça e os olhares que se formavam.
— Qual é o seu nome, pequena?
— Sofia. Sofia Meireles.
Ela tinha os olhos de Ana: castanho-dourados, atentos mesmo sob lágrimas. Quando apertou a boca, uma covinha apareceu no lado esquerdo, igual à de Mateus nas fotografias de infância.
Ele estendeu a mão e parou antes de tocar o cabelo sujo de chuva.
— Quantos anos você tem?
Sofia abriu os cinco dedos.
— Fiz em novembro.
Mateus olhou para Luna. O tecido floral vinha das cortinas da cozinha onde Ana crescera; Rosa, mãe dela e governanta da casa Saldanha, costurava sobras em bonecas.
— Quem fez essa boneca?
— Minha mãe. Disse que minha vó Rosa ensinou.
Mateus fechou os olhos por um segundo. Quando os abriu, Bento já entregava a caixa de volta à menina.
— A cirurgia começou — disse o médico. — Há hemorragia abdominal e suspeita de fratura pélvica. A equipe de trauma está completa.
Mateus levantou.
— Chame o chefe da cirurgia e todos os especialistas necessários. Se alguém precisar vir de outra cidade, meu helicóptero está disponível.
Bento sustentou o olhar.
— Posso aceitar transporte e equipamento. A decisão médica continua comigo.
— Combinado. Dê a ela tudo que for clinicamente indicado e mande cada conta para mim.
A administradora tentou explicar que o protocolo já garantia atendimento. Mateus fez um aceno curto.
— Então proteja o protocolo. Nenhuma cobrança chega à família.
Sofia puxou a barra do paletó.
— Você é médico?
Mateus voltou a se ajoelhar.
— Não.
— É rico?
— Tenho dinheiro.
— Dinheiro compra remédio?
— Compra.
— Então compra tudo para ela.
— Vou comprar o que faltar. O doutor Bento vai decidir o que ajuda.
Sofia abraçou a caixa.
— Posso ficar com Luna?
— Com todas.
Uma enfermeira trouxe um cobertor. Mateus pediu licença antes de colocá-lo nos ombros da menina e ligou para Clara Vasconcelos.
— Cancele minha agenda. Preciso de uma pesquisa sobre Ana Meireles, com respeito à privacidade e apenas dados legais. Localize também o prontuário de autorização; há uma criança sozinha.
— Qual é a relação? — Clara perguntou.
Mateus olhou para Sofia.
— Ainda não sei.
Clara perguntou se deveria acionar o setor de comunicação. Mateus olhou os celulares erguidos por duas pessoas perto dos elevadores.
— Nenhuma imagem da menina. Peça ao hospital que preserve a privacidade, não que invente uma versão.
A administradora voltou com uma assistente social. Patrícia Ramos explicou que precisava identificar um responsável temporário por Sofia até Ana sair da cirurgia.
— Sou amigo da mãe — Mateus disse.
Sofia balançou a cabeça.
— Ele não sabia onde ela estava.
Mateus aceitou a correção.
— Conheci Ana há muitos anos. Encontrei Sofia hoje.
Patrícia sentou no chão, perto da caixa.
— Há alguém da família para quem possamos ligar?
Sofia procurou no bolso e tirou um papel amassado. O número era da livraria; o gerente informou que Ana não tinha parentes próximos e que Rosa morrera antes de Sofia nascer.
— Posso ficar com ele — a menina disse. — Ele deixou eu guardar Luna.
Patrícia registrou a preferência, verificou a identidade de Mateus e manteve uma enfermeira responsável no setor. O dinheiro dele não substituiu o procedimento.
— Obrigado — Mateus falou.
— Por quê?
— Por não presumir que meu nome resolve.
Patrícia fechou a prancheta.
— Aqui ele só preenche um campo.
Sofia abriu a caixa para mostrar cada brinquedo. A boneca dourada chamava Estrela; a de vestido azul, Marina. O bebê sem braço tinha o nome de Valente, e Luna dormia numa toalha dobrada.
— Mamãe vende roupa que faz — explicou. — Às vezes conserta vestido de noiva e chora quando acha que eu não vejo.
Mateus pegou o colar de letras. As contas formavam S-O-F-I-A, mas o S estava invertido.
— Ela fez isto?
— Eu fiz na escola. Mamãe colocou o fecho.
Ele devolveu o colar ao lugar exato. Cada objeto contava anos que tinham acontecido sem ele.
Bento recebeu uma mensagem no pager e correu para as portas. Uma enfermeira abriu apenas o suficiente para ele passar.
O monitor interno emitiu um alarme rápido antes de a porta fechar.
Sofia largou a caixa no chão e agarrou a mão de Mateus.
— Ela vai morrer?
Ele apertou os dedos pequenos sem prometer um resultado que ninguém controlava.
— Ela não vai enfrentar isso sozinha.
— E você vai embora?
Mateus mostrou o telefone com a agenda cancelada. Sofia não sabia ler os compromissos, então ele virou a tela e desligou o aparelho.
— Vou ficar até o doutor trazer notícia. Depois você e sua mãe decidem se posso continuar perto.
— Mamãe decide bem.
— Já sei disso.
Ela encostou a caixa na perna dele. O papelão molhado deixou uma marca no tecido caro, e Mateus não afastou a calça.
Mateus sentou no piso ao lado da caixa.
— Sou o homem que devia ter chegado muito antes.
Sofia encostou o ombro no dele.
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