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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 10 — Meu Filho Voltou

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Capítulo 10 — Meu Filho Voltou

Eu estava novamente diante do Trono do Sol.

O menino dourado não balançava mais as pernas. Estava ajoelhado ao meu lado, segurando meu rosto com as duas mãos.

"Mamãe, acorde."

"Acho que não consigo."

Ao redor do trono, sombras se reuniam. Eram as quarenta e seis mulheres que o sistema usara antes de Lívia, ou talvez apenas memórias roubadas delas.

"Todas receberam uma promessa", disse o menino. "Uma coroa, um amor perfeito, uma história onde ninguém pudesse dizer não."

"E o que aconteceu?"

"Quando o príncipe quebrava tudo, o monstro levava a luz e procurava outra mulher."

Compreendi então que destruir a névoa não libertaria apenas Santa Aurora. Encerraria uma cadeia de reinos e mulheres transformados em alimento para a mesma mentira.

"Então eu dou minha luz para você."

Atrás dele, a coroa brilhava com toda a fortuna devolvida a Santa Aurora.

"Se fizer isso, pode perder o trono."

"Eu não quero um império sem minha mãe."

O menino retirou a pequena coroa da cabeça e a pressionou contra meu peito.

No Salão da Coroa, meu corpo se arqueou.

Gaspar encontrou uma pulsação.

Uma.

Depois outra.

Duas.

Abri os olhos na terceira.

"Agora", consegui dizer.

Tomás fechou o primeiro círculo ao meu redor. Bento completou o segundo com o sangue preservado da pulseira. O terceiro círculo, destinado ao sistema, permanecia vazio.

A névoa tentou recuar para Lívia.

Segurei a linha dourada com as duas mãos.

"Você entrou por mim. Não vai sair por ela."

O sistema lançou raízes negras contra o chão, buscando Rafael, o homem coroado que o alimentara por três anos.

Beatriz empurrou o príncipe para trás da barreira de guardas.

"Ele não tocará mais nada neste império."

Meu filho avançou pela linha.

O ventre de Lívia diminuiu. O meu cresceu, não até os seis meses falsos, mas até a curva verdadeira de uma gestação de três meses.

Entre nós, a névoa formou um rosto sem olhos.

"Isadora de Alencar", disse a voz metálica. "Aceite o acordo. Preserve a criança e receba a coroa."

"Qual é o preço?"

"Obediência do príncipe. Morte da hospedeira anterior. Submissão do Conselho."

"Então fique com sua coroa."

A névoa virou-se para Rafael.

"Hospedeiro secundário disponível. Restauração de título, esquecimento público e devoção absoluta podem ser concedidos."

O príncipe deu um passo involuntário.

Dom Afonso o encarou.

Por um momento, vi a velha fraqueza em seu rosto: o desejo de que uma força exterior apagasse as consequências. Então os guardas cruzaram as lanças diante dele.

"Não quero", murmurou Rafael.

Não era redenção. Era apenas a primeira escolha correta depois que já não podia salvar o próprio trono.

O sistema tentou Beatriz, oferecendo a vida do neto sem risco para mim. Tentou Bento, prometendo devolver os três anos de prisão. Nenhum dos dois respondeu.

Apertei a linha.

O menino mordeu a primeira raiz.

Luz dourada explodiu sobre o mapa do império pintado no teto. A segunda raiz se partiu, e o som distante de água atravessou o salão.

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"Agora, filho."

Ele abriu a boca sobre o centro da névoa.

O sistema gritou com as vozes de dezenas de mulheres.

Por um segundo, vi rostos de outras hospedeiras, em outros reinos, todas convencidas de que eram protagonistas únicas. Depois as imagens se desfizeram.

A névoa tentou entrar em meu coração.

O terceiro círculo se fechou.

Bento e Tomás não haviam vindo me salvar de uma decisão tomada por eles. Cumpriam a última parte do plano que eu escolhera: usar minha linha como isca e o sangue da pulseira como porta de prisão.

Meu filho devorou o último fragmento cinza.

O Grande Selo recuperou a cor dourada.

Uma onda de luz saiu do palácio e se espalhou pelas montanhas, rios e portos de Santa Aurora. Sinos tocaram da capital à fronteira.

Lívia caiu de costas.

Seu ventre estava completamente plano.

O meu carregava novamente o peso, o calor e a vida de meu filho.

Gaspar aproximou o Cristal do Sol. A pedra projetou o mesmo pequeno dragão que confirmara minha gravidez, mas desta vez ele circulou apenas meu corpo. Depois, o médico comparou minha pulsação com a da criança.

"Transferência completa", declarou. "Não há vida fetal no corpo de Lívia."

O registro foi assinado imediatamente pelos três médicos e pelos juízes presentes. Eu aprendera que milagres sem documentos podiam ser roubados pela primeira pessoa que controlasse a narrativa.

"Mamãe, voltei."

Coloquei as duas mãos sobre a barriga.

"Desta vez, ninguém vai tirar você de mim."

Dom Afonso permaneceu diante do trono destruído, segurando o depoimento de Rafael.

"Convoquem o Tribunal Imperial", ordenou. "A sessão continuará até que cada acusação seja registrada."

Rafael caiu de joelhos.

"Pai, o sistema acabou. Ainda posso reparar o que fiz."

"O sistema não moveu sua mão", respondeu o imperador. "Não fechou seus olhos na capela. Não levou o selo ao coração de Isadora."

Ele retirou do filho o broche da Casa de Alcântara.

"Dom Rafael está afastado da sucessão a partir deste instante. Até a sentença definitiva, ficará sob custódia na Fortaleza de São Jerônimo."

Rafael olhou para mim.

"Isadora, diga a ele que sou o pai da criança."

"Biologia não apaga escolhas."

Os guardas o levaram.

Lívia tentou se erguer.

"Não podem me julgar pelas leis deste lugar. Eu não pertenço a este mundo."

O presidente do Tribunal respondeu:

"Mas seus crimes e suas vítimas pertencem."

Ela foi acusada formalmente de tentativa de homicídio, ataque ao herdeiro imperial, falsificação de provas, conspiração contra o Estado e uso de ritual proibido. Baltasar recebeu correntes de ferro solar e foi levado para uma cela separada.

O Tribunal congelou os bens pessoais de Lívia e abriu uma auditoria para devolver ao tesouro tudo o que o sistema transformara em recompensas. As ordens assinadas por Rafael foram anuladas. Os dez territórios permaneceram sob a cláusula de três selos até meu filho nascer.

Dom Afonso não pronunciou uma sentença final naquela manhã. Em vez disso, entregou o próprio filho à custódia judicial e assinou a convocação de um julgamento público.

"A coroa não voltará a substituir processo por medo", declarou, olhando para Bento. "Foi assim que este desastre começou."

Beatriz se ajoelhou ao meu lado.

"Terminou."

Gaspar interrompeu antes que eu pudesse responder.

"Não. O corpo da criança voltou ao estágio verdadeiro, mas Isadora recebeu toda a dívida do ritual. O Fogo do Sol continuará crescendo até o parto."

Meu pai empalideceu.

"Quão grave será?"

"Mais grave do que antes. No nascimento, o fogo pode exigir a vida de um dos dois."

Senti uma pequena mão imaginária tocar a minha por dentro.

"Nós já sabemos atravessar fogo", disse o menino.

Olhei para o Grande Selo recuperado, para o trono vazio e para os documentos que haviam derrubado um príncipe.

A batalha pelo meu filho terminara.

Agora eu teria de sobreviver para criá-lo.

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