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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 9 — A Última Vez Que Paguei Por Ele

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Capítulo 9 — A Última Vez Que Paguei Por Ele

Ninguém se moveu.

O Grande Selo pulsava como um coração negro diante do trono. A cada pulsação, meu filho chorava dentro de Lívia.

Dom Afonso abaixou a espada.

"Encontre outra solução, Bento."

Meu pai abriu o Livro do Eclipse sobre o chão. Tomás virou páginas até encontrar o desenho de três círculos unidos por uma linha.

"Existe uma forma", disse Bento. "O parasita entrou no vínculo pelo poder da coroa. Pode ser retirado pelo vínculo anterior, aquele que nasceu entre mãe e filho."

"O que devo fazer?"

Ele não respondeu.

Tomás virou o livro para que os juízes também pudessem ler.

"O ritual exige três etapas", explicou. "A mãe chama a dívida. O vínculo retira o parasita da autoridade da coroa. Depois um círculo feito com o sangue usado no primeiro crime prende aquilo que sair."

"Temos sangue suficiente?", perguntou Beatriz.

"A amostra da pulseira basta para fechar o círculo uma vez", respondeu ele. "Se falharmos, não haverá segunda tentativa."

Gaspar preparou uma mesa com instrumentos e ordenou que duas parteiras permanecessem ao lado de Lívia. O herdeiro poderia mudar de corpo em segundos; qualquer movimento errado rasgaria o vínculo.

"Amarrem o braço direito dela", pedi.

Lívia me insultou, mas os guardas obedeceram. Ninguém percebeu a agulha escondida em seus cabelos.

Tomei o livro de suas mãos e li a inscrição.

A mãe original precisaria chamar de volta toda a dívida do ritual: o Fogo do Sol que Lívia recusara, a morte deixada no primeiro corpo e a parte da névoa presa ao herdeiro.

"Se eu puxar tudo, o sistema deixa o selo", falei.

"E pode queimar seu coração antes que a criança retorne", respondeu Bento.

"Pode ou vai?"

"Não sei."

Dom Afonso ordenou que os médicos procurassem outra saída.

"Não temos tempo", disse Gaspar. "A pulsação da criança está caindo."

Peguei a lâmina de prata usada para recolher as provas.

Rafael segurou meu pulso.

"Não. Sou o pai. Tenho o direito de impedir que arrisque nosso filho."

"Perdeu o direito de falar em proteção quando levou o selo ao meu coração."

"Eu posso reparar tudo. Quando ele voltar, caso-me com você. Reconheço a criança e devolvo seu lugar na corte."

Puxei o braço.

"Não quero o lugar que você me tirou. Quero que responda pelo que fez."

Voltei-me para os juízes.

"Antes de iniciar o ritual, exijo o depoimento completo de Rafael. Se eu morrer, ele não usará minha morte para dizer que também foi vítima."

O presidente do Tribunal colocou o livro de juramentos diante do príncipe.

Rafael olhou para Lívia.

Ela estava ajoelhada, abraçada ao ventre, repetindo ordens para um sistema que já não lhe respondia.

"Fale", ordenou Dom Afonso.

Rafael pousou a mão sobre o livro.

"Eu assinei a ordem que encerrou meu noivado com Isadora sem ouvi-la. Assinei a busca ao observatório porque Lívia afirmou que Bento era nosso inimigo. Recebi relatos de que as provas eram contraditórias e mandei arquivá-los."

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Sua voz começou a falhar.

"Bebi o elixir sabendo que poderia extinguir a linhagem. Na capela, vi Lívia usar sangue para tirar a criança de Isadora e decidi protegê-la. Esta noite, levei o Grande Selo ao ritual. Baltasar disse que Isadora morreria. Eu continuei."

O juiz perguntou:

"Por quê?"

Rafael fechou os olhos.

"Porque, todas as vezes, achei que perder o amor de Lívia seria pior do que aquilo que aconteceria com qualquer outra pessoa."

"Inclusive seu filho?", perguntou o juiz.

Rafael olhou para o ventre roubado.

"Eu me convenci de que a criança só estaria segura se Lívia estivesse satisfeita."

"E Isadora?"

"Achei que ela suportaria. Ela sempre suportou."

A frase atingiu-me com mais clareza do que qualquer pedido de perdão. Rafael não me odiara. Apenas transformara minha capacidade de sobreviver numa autorização para continuar me ferindo.

"Registre exatamente isso", pedi ao escrivão.

O escrivão registrou cada palavra.

Não senti vitória.

Só o fim de uma mentira que durara três anos.

Cortei minha palma.

Gaspar amarrou uma fita de pulso ao meu braço. Meu pai tentou esconder o medo, mas suas mãos tremiam sobre o Livro do Eclipse.

"Se seu coração parar, o círculo precisa continuar aberto até a criança atravessar", falei. "Não interrompa para me salvar."

"Não peça isso a um pai."

"Estou pedindo ao homem que passou três anos na prisão porque tentou salvar o império. Termine o que começamos."

Bento encostou a testa na minha.

"Volte para seu filho. Depois volte para mim."

Pressionei-a contra o centro do peito e chamei meu filho pelo ritmo que criáramos juntos.

"Uma batida. Duas. Três. Volte para mim."

A linha dourada se abriu como uma estrada.

O Fogo do Sol saiu do ventre de Lívia e entrou em meu corpo.

Meus joelhos atingiram o chão.

A dor da pulseira veio depois. Em seguida, a ferida da capela, o sangue perdido, as noites queimando sozinha e a morte que ela reservara para o parto.

Aceitei cada uma.

"Mamãe, pare", chorou a criança. "Está doendo você."

"Continue vindo."

O selo negro começou a rachar. A névoa foi puxada para fora do ouro, agarrada à linha que entrava em meu peito.

"Hospedeira original inadequada", anunciou o sistema. "Risco de destruição."

"Eu não sou sua hospedeira", respondi. "Sou a armadilha."

Tomás desenhou ao meu redor o primeiro círculo do livro. Bento iniciou o segundo, mantendo-o aberto para receber o restante da névoa quando ela saísse completamente.

O ventre de Lívia diminuiu alguns centímetros.

O meu começou a recuperar a curva perdida.

Ela percebeu.

"Sistema, impeça!"

"Transferência para nova fonte em andamento."

"Nova fonte? Eu sou a protagonista!"

"Você é a hospedeira número quarenta e sete. Função: induzir o herdeiro ao rompimento dos deveres de sucessão."

Lívia ficou imóvel.

"Você disse que este mundo existia para mim."

"Afirmação motivacional necessária."

O horror em seu rosto durou apenas um instante. Depois se transformou em ódio.

Ela arrancou uma agulha do cabelo e correu em minha direção.

"Se eu não puder ser a mãe, você também não será!"

Beatriz tentou alcançá-la. Um guarda segurou seu braço, mas a ponta da agulha ainda rasgou meu ombro.

Meu sangue caiu fora do círculo.

A linha dourada se dividiu.

Metade da luz permaneceu em Lívia. A outra metade entrou em mim.

Gaspar gritou para que ninguém tocasse em nossos corpos.

"O herdeiro está entre as duas! Se interromperem agora, ele morrerá!"

O sistema aproveitou a abertura. Toda a névoa abandonou o Grande Selo e mergulhou na linha partida.

O fogo atravessou meu coração.

Ouvi meu filho chamar por mim.

Depois, não ouvi mais nada.

Gaspar pressionou os dedos contra meu pescoço.

Seu rosto perdeu a cor.

"Sem pulso."

Meu corpo caiu dentro do círculo, enquanto o último herdeiro permanecia preso pela metade entre duas mães — e ninguém podia me tocar sem matá-lo também.

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