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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 8 — O Fogo do Conselho da Coroa

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Capítulo 8 — O Fogo do Conselho da Coroa

Ao nascer do sol, o Salão da Coroa estava lotado.

Os representantes dos dez territórios ocuparam a primeira fileira. Atrás deles estavam juízes do Tribunal Imperial, médicos, oficiais do observatório e os nobres que haviam se ajoelhado diante de Lívia na capela.

Ela entrou usando o vestido preparado para a investidura. Correntes finas uniam seus pulsos, escondidas sob as mangas.

Rafael veio logo depois, sem espada e sem a faixa dourada de herdeiro.

No centro do salão, Beatriz colocou os dois fragmentos da pulseira.

Tomás apresentou a amostra de sangue retirada do metal. Gaspar confirmou que ela continha o sangue de Lívia misturado a cinzas usadas em rituais de transferência.

Baltasar foi trazido acorrentado. O presidente do Tribunal colocou diante dele a bolsa roubada de Tomás, encontrada em seus aposentos.

"Foi o senhor quem ordenou o ataque?"

"Recebi instruções da princesa consorte."

Lívia virou-se para ele.

"Mentiroso."

"Seu sistema prometeu apagar minha condenação anterior quando o herdeiro fosse transferido."

"O sistema não fala com você."

"Falou através de sua boca na capela. Disse que todos os que servissem à protagonista seriam recompensados."

Beatriz fez um gesto. Seus guardas trouxeram o segundo escrivão, desaparecido desde o ritual. Ele fora encontrado amarrado num depósito sob as cocheiras do Palácio do Príncipe.

"Os homens que me prenderam usavam o uniforme de Rafael", declarou. "Queriam saber onde eu havia escondido minhas anotações."

O capitão da guarda confirmou que a ordem de deslocar aqueles homens também carregava o selo privado do príncipe.

O escrivão sobrevivente leu seu relato da capela.

"Vi a princesa consorte cortar a mão de Isadora. Vi sangue sair do pingente de Sua Alteza. Ouvi Lívia dizer que Isadora carregaria a morte em seu lugar."

Rafael manteve os olhos fixos no chão.

Meu pai mostrou a observação astronômica original e as ordens que haviam destruído nossa família.

Um juiz ergueu a primeira página.

"Este é seu selo privado, Dom Rafael?"

"É."

"E este?"

"Também."

"O senhor verificou a origem dos documentos antes de ordenar a prisão de Bento de Alencar?"

"Lívia me garantiu que ele era perigoso."

"Perguntei o que o senhor fez, não o que sua esposa disse."

Rafael respirou fundo.

"Não verifiquei."

Um murmúrio percorreu o salão.

O representante do território de Vale Verde levantou-se com uma das cópias do fundo do herdeiro.

"Ontem recebemos ordem para transferir nossas rendas à administração de Lívia. Recusamos porque faltavam os selos de Isadora, da imperatriz e do Tribunal. A ordem foi emitida pela Casa do Príncipe."

Rafael não negou.

"Eu precisava garantir recursos para a criança."

"Os recursos já pertenciam à criança", respondi. "Você tentou retirar as únicas proteções que impediam Lívia de controlá-los."

Os representantes dos outros nove territórios colocaram suas cópias sobre a mesa. Minha precaução no primeiro dia da gravidez tornara-se uma muralha que nem o príncipe conseguira atravessar.

Lívia riu.

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"Que espetáculo. Vocês fingem se importar com justiça porque estão com medo de perder o herdeiro que eu carrego."

Ela colocou as mãos sobre a barriga.

Uma luz dourada atravessou o tecido. As janelas vibraram, e o símbolo do Sol apareceu sobre sua cabeça.

Metade dos nobres se levantou.

"A bênção dos fundadores!"

"Ela é a mãe escolhida!"

Lívia olhou para mim com triunfo.

"Podem mostrar quantos papéis quiserem. O milagre está dentro de mim."

"Não", respondi. "Meu filho está preso dentro de você. O milagre pertence a ele."

Pedi que trouxessem a bacia do Fogo do Sol.

Era feita de cobre branco e preenchida com óleo consagrado. Segundo os registros da Casa de Alcântara, apenas a mãe de um herdeiro solar poderia atravessar sua chama sem morrer.

Gaspar segurou meu braço.

"Seu corpo ainda está fraco."

"É por isso que o resultado terá valor."

Acendi o óleo.

Uma coluna dourada subiu da bacia.

"Lívia", falei. "Você diz que é mãe. Coloque a mão comigo. Dividiremos a dor."

Ela recuou.

"O bebê está no meu corpo. Não preciso provar nada."

"Quer o título de Mãe Imperial, o Grande Selo e os dez territórios. Só não quer aquilo que queimou meus ossos durante três meses."

"Não vou entrar numa fogueira por causa de uma superstição."

"Mas abriu meu corpo por causa de outra."

Estendi a mão sobre a chama.

Dois médicos ficaram de cada lado da bacia para registrar meu pulso. Um juiz examinou o óleo e o recipiente antes de acendê-los, garantindo que ninguém pudesse alegar fraude. Pedi que o mesmo exame fosse oferecido a Lívia.

Ela recusou novamente.

"A criança pode sofrer."

"A criança sofre cada vez que você envia a dor para mim", respondi. "Se teme por ele, permita que Gaspar retire o talismã de transferência escondido sob sua faixa."

O médico puxou o tecido. Um pequeno pacote de papel ensanguentado caiu no chão.

Os nobres que ainda defendiam Lívia recuaram.

O fogo subiu pelo meu braço e invadiu meu peito. A dor derrubou-me de joelhos, mas mantive a palma dentro da luz.

"Uma batida", sussurrei.

A linha dourada apareceu.

"Duas."

Ela atravessou o salão e entrou no ventre de Lívia.

"Três."

Meu filho respondeu.

O símbolo do Sol deixou a cabeça de Lívia e pairou sobre nós dois, unido pela linha.

Os nobres voltaram lentamente aos seus lugares.

"Agora", disse ao menino.

Dentro da visão compartilhada, ele mordeu a nuvem cinza.

Lívia agarrou a cabeça e gritou.

Uma onda dourada atravessou as paredes do palácio. Os sinos tocaram sem mãos humanas.

As portas do salão se abriram. Um mensageiro coberto de lama caiu de joelhos.

"Majestade, a nascente do norte voltou a correr. A água rompeu a terra durante a madrugada."

Outro homem entrou logo atrás.

"A frota de abastecimento desaparecida chegou à fronteira. Nenhum navio foi perdido. Os marinheiros dizem que acordaram hoje depois de uma névoa de três anos."

Bento apontou para Lívia.

"Não são bênçãos dadas a ela. É a fortuna roubada retornando ao império."

A nuvem cinza tornou-se visível acima da princesa consorte.

As pessoas recuaram em pânico.

"Sistema!", gritou Lívia. "Faça-os acreditar em mim!"

"Risco de falha: quarenta e três por cento", respondeu a voz metálica. "Iniciando protocolo de preservação."

A névoa abandonou por um instante a cabeça dela e atravessou o salão.

Tomás tentou fechar o Livro do Eclipse, mas o vento o derrubou. A nuvem mergulhou sobre o Grande Selo, que repousava sob guarda diante do trono.

O ouro escureceu.

Raízes negras saíram do metal e se enrolaram na linha que ligava meu coração ao bebê.

Lívia arqueou o corpo. O ventre artificial brilhou com uma luz cinzenta.

Meu filho chorou.

Corri para o selo, mas Bento segurou meu braço.

"Não toque! Agora o parasita está ligado à autoridade da coroa."

Dom Afonso puxou a espada.

"Destruam o selo."

"Se o metal for quebrado, o vínculo que ele segura também será rompido", disse meu pai. "A criança morrerá."

A voz do sistema saiu do selo, alta o bastante para toda a assembleia ouvir.

"Nova condição estabelecida: o herdeiro e o Sistema da Favorita compartilham a mesma vida. Tentem nos separar, e o último herdeiro de Santa Aurora morrerá comigo."

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