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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 4 — O Coração Que Me Roubaram

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Capítulo 4 — O Coração Que Me Roubaram

As palavras escritas por Tomás ainda estavam úmidas quando os sinos anunciaram o amanhecer.

"Não é transferência. É morte."

O médico-chefe Gaspar Nunes insistiu que eu não poderia ficar na enfermaria. Tomás perdera muito sangue, e a bênção na Capela dos Fundadores começaria em menos de duas horas.

"Cancele a cerimônia", pedi à imperatriz.

Beatriz apertou o maxilar.

"Eu já tentei. Afonso acredita que um atentado contra Tomás torna ainda mais urgente colocar a criança sob a proteção dos fundadores."

"Então Lívia preparou mais do que um ritual. Preparou uma explicação para qualquer pessoa que tente impedi-lo."

Abri a mão de Tomás e retirei com cuidado a gota seca escondida sob sua unha. Coloquei-a em um pequeno frasco e o entreguei a Beatriz.

"Guarde isto fora do palácio. Se algo acontecer comigo, mande o Tribunal Imperial comparar o sangue com o interior da pulseira."

"Não vou deixá-la entrar naquela capela."

"Se eu desaparecer, Lívia tentará novamente quando ninguém estiver olhando. Hoje estarão presentes o imperador, os conselheiros e toda a Casa de Alcântara. Quero testemunhas."

Beatriz me observou por alguns segundos.

"O que precisa que eu faça?"

"Coloque dois escrivães do tribunal junto ao altar. Mande seus guardas recolherem tudo o que tocar meu sangue: tecido, metal, pedra. E, se as portas se fecharem, não confie em Rafael para abri-las."

Não era um plano para vencer.

Era um plano para garantir que, se eu perdesse, Lívia não pudesse apagar o modo como fizera isso.

Uma chuva fria caía sobre a capital quando a carruagem imperial parou diante da Ala das Palmeiras. Lívia veio me buscar usando um vestido cerimonial vermelho e uma coroa de pequenos sóis.

"Não tenha medo", disse, oferecendo o braço. "Depois da bênção, seu filho estará protegido."

Sua mão tremia de ansiedade.

Rafael nos esperava ao lado da carruagem. Ele me entregou um aquecedor de mãos de prata.

"Hoje estarão presentes todos os chefes da família imperial. Não nos envergonhe."

Era a primeira coisa parecida com cuidado que ele me oferecia desde que minha gravidez fora descoberta.

"Lívia passou a noite organizando a cerimônia", acrescentou. "Mostre gratidão."

A criança se agitou dentro de mim.

"Ele só enxerga o que ela manda, mamãe."

Ao subir na carruagem, toquei por acaso o pingente dourado preso ao uniforme de Rafael. Um cheiro forte de ferro invadiu meu nariz.

O menino soltou um gemido.

"Tem sangue do papai aí dentro."

Recolhi a mão.

O rito precisava do sangue de quem carregava a criança, de quem desejava tomá-la e do homem que ligava as duas mulheres à sucessão. Lívia não convencera Rafael a usar um símbolo de amor.

Convencera-o a carregar a terceira chave.

A Capela dos Fundadores era uma construção circular, coroada por vitrais dourados. Dezoito colunas sustentavam estátuas dos antigos soberanos.

Sob o tapete do altar, percebi linhas escuras formando um sol invertido.

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Fios vermelhos haviam sido enrolados nas bases das colunas.

Procurei os escrivães. Estavam onde eu pedira, com papel, tinta e o selo do Tribunal Imperial. Beatriz mantinha quatro guardas atrás deles.

Lívia apertou meu braço.

"Ajoelhe-se."

"Diante de qual santo?"

Ela sorriu sem mostrar os dentes.

"Diante do lugar que sempre deveria ter sido meu."

A lâmina de prata apareceu em sua mão.

Ela cortou minha palma antes que os guardas alcançassem o altar. Meu sangue caiu sobre o centro do sol invertido.

Lívia abriu a própria mão e pressionou-a contra uma das colunas.

O pingente de Rafael se partiu.

Sangue escorreu de seu interior e atingiu o olho esculpido de um dragão no chão.

As três marcas se acenderam ao mesmo tempo.

A pulseira fechou-se ao redor de meu pulso como uma mandíbula.

Caí de joelhos.

Uma força invisível agarrou meu ventre por dentro.

"Mamãe!"

O grito do menino atravessou minha cabeça.

"Estão me puxando!"

Segurei a pulseira e pressionei o ponto em que Tomás cortara o fio de drenagem. Ele me ensinara a inverter o fluxo quando o ritual fosse ativado. Girei o metal até sentir o mecanismo ceder.

Por um instante, a luz dourada voltou para mim.

Então uma voz sem corpo falou através dos lábios de Lívia.

"Contramedida prevista."

O fecho mudou de posição sozinho. Uma nova agulha atravessou minha pele.

Lívia riu ao ver meu espanto.

"Você achou que eu não saberia sobre Tomás? O sistema me avisou que você tentaria transformar a pulseira em uma armadilha."

Beatriz correu para o altar.

"Parem a cerimônia!"

Chamas vermelhas subiram das dezoito colunas, formando uma parede ao redor de nós. As portas da capela bateram e se fecharam.

Os guardas tentaram quebrá-las por fora.

Os escrivães continuaram escrevendo.

Lívia inclinou-se sobre mim.

"Você carregou a dor durante três meses. Agora eu recebo a criança pronta e você fica com a morte do parto."

"Isso não fará de você mãe."

"Mãe é quem tiver o herdeiro dentro do corpo quando a coroa olhar."

O Fogo do Sol explodiu em minhas veias.

Uma fita dourada saiu de meu ventre e atravessou o círculo. Lívia arqueou as costas. Seu abdômen, antes plano, começou a crescer sob o vestido vermelho.

Rafael deu um passo para trás.

"Lívia... o que você fez?"

Ela tocou a barriga que se avolumava.

"Eu mudei de ideia. Vou dar a você o herdeiro que sempre quis."

Os olhos dele se encheram de lágrimas.

"Eu sabia que me amava."

Beatriz golpeou a parede de fogo com uma barra de ferro.

"Rafael, ela está arrancando a criança de Isadora! Quebre o círculo!"

Ele olhou para mim.

Eu estava curvada sobre o altar, com sangue escorrendo pelo braço e a barriga diminuindo diante de todos.

Depois olhou para Lívia.

O ventre dela já parecia o de uma mulher no sexto mês, embora a criança tivesse apenas três.

Rafael levou menos de um segundo para escolher.

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Colocou-se entre a esposa e a imperatriz.

"Se o herdeiro entrou no corpo de Lívia, foi porque os fundadores a aceitaram. Ela é minha esposa legítima."

"Você viu a lâmina", respondi, quase sem voz. "Viu o sangue. Ouviu o que ela confessou."

"Não vou permitir que prejudiquem minha mulher enquanto ela carrega meu filho."

Meu filho.

Quando o menino estava dentro de mim, Rafael o tratara como uma vergonha que precisava ser registrada no nome de Lívia. Bastou a barriga certa crescer para que ele descobrisse o instinto paterno.

As estátuas dos fundadores se iluminaram. Os nobres interpretaram a luz como aprovação e começaram a se ajoelhar.

"A mãe escolhida pelo Sol!"

"Viva a futura imperatriz!"

Afonso permaneceu de pé, dividido entre o sangue no altar e o herdeiro que acreditava ver protegido dentro da nora.

Somente Beatriz continuou gritando meu nome.

A pulseira se partiu.

Fragmentos de ouro caíram sobre o tapete. Um dos guardas da imperatriz conseguiu empurrar uma haste pela fresta da porta e arrastou dois pedaços para fora do círculo.

Eu vi.

Lívia também.

Mas ela estava ocupada demais admirando o próprio ventre.

Minha barriga ficou plana.

O Fogo do Sol continuou queimando dentro de mim, embora já não houvesse criança alguma para aquecer.

"Filho?"

Não ouvi resposta.

"Consegue me ouvir?"

O silêncio foi pior do que a dor.

Lívia se aproximou apoiada no braço de Rafael. Olhou para mim no chão e sorriu.

"Você não foi completamente inútil, Isadora. Toda história precisa de uma mulher que sofra para a protagonista chegar ao trono."

Uma última onda de força me atravessou. Cuspi sangue sobre o sol invertido.

Do ventre de Lívia veio um rugido tão poderoso que os vitrais estremeceram.

Os nobres curvaram a cabeça até o chão.

E, diante de toda a corte, começaram a chamá-la de mãe do último herdeiro.

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