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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 2 — O Fogo do Sol

正文开头

Capítulo 2 — O Fogo do Sol

Antes do anoitecer, deixei de ser a criada que acendia as lamparinas de Lívia.

Dom Afonso concedeu-me o título de dama da Casa Imperial e colocou as rendas de dez territórios reais em um fundo destinado à criança. A caixa com os contratos e selos de administração foi depositada diante de mim.

Antes que o tesoureiro a levasse para o arquivo de Rafael, mantive a mão sobre a tampa.

"Quero três cópias dos contratos. Uma ficará com a imperatriz, outra com o Tribunal Imperial e a terceira comigo. Nenhuma renda poderá ser transferida sem os três selos."

O conselheiro encarregado das finanças olhou para Rafael, esperando que ele me corrigisse.

"A criança ainda nem nasceu", disse o príncipe.

"Justamente por isso seus bens precisam sobreviver às decisões dos adultos", respondi.

Dom Afonso demorou alguns segundos, mas assentiu.

"Façam como ela pediu."

O tesoureiro precisou selar as três vias diante de todo o Conselho. Eu não tinha a ilusão de que um título me tornava intocável. Papel, testemunhas e custódia separada valeriam mais do que qualquer promessa feita naquele palácio.

Lívia encarou o ouro com os lábios apertados.

"Esses territórios foram prometidos a mim."

"Foram prometidos à mulher que desse um herdeiro ao império", respondeu o imperador. "Você destruiu a imagem da Mãe Solar e convenceu meu filho a extinguir a própria linhagem. Não receberá recompensa por isso."

"Eu não quero suas recompensas feudais."

Apesar da resposta, os olhos dela continuaram presos à caixa.

Rafael passou um braço pelos ombros da esposa.

"Lívia agiu por amor. Isadora se aproveitou da última noite antes de o elixir fazer efeito. A criança pode viver, mas uma mulher com as intenções dela não deve educar o futuro soberano."

Ele falava como se não tivesse respondido às minhas perguntas. Como se não tivesse fechado a porta por dentro.

"Quando a criança nascer", continuou, "será registrada como filho de minha esposa."

Algo pequeno se mexeu dentro de mim, embora fosse cedo demais para qualquer movimento físico.

"Ela não quis me carregar e agora quer ficar comigo? O papai perdeu o juízo junto com os herdeiros?"

Tive de morder a parte interna da bochecha para não rir.

Lívia aproximou-se e pousou a mão sobre meu ventre.

"Você prestou um serviço à coroa, Isadora. Depois do parto, receberá alguns réis imperiais e poderá viver longe da capital. Seu filho terá tudo comigo."

Cobri os dedos dela com os meus.

"Se deseja tanto ser a mãe dele, aceita dividir comigo o Fogo do Sol?"

Ela arrancou a mão como se já tivesse sido queimada.

"O bebê está dentro de você. A dor é sua."

A imperatriz Beatriz se levantou.

"Quer o título, as propriedades e a criança, mas não aceita uma única parte do preço. Isso não é maternidade. É pilhagem."

Rafael tentou protestar, porém a mãe o silenciou com um olhar.

正文1

Beatriz ordenou que eu fosse instalada na Ala das Palmeiras, em aposentos protegidos por vinte guardas de sua confiança. Duas damas me acompanhariam em todos os momentos, e qualquer alimento deveria ser provado diante delas.

Pela primeira vez em três anos, uma porta do palácio se fechou para me proteger, não para me prender.

Naquela mesma noite, o fogo começou.

Eu estava sentada diante da penteadeira quando uma onda de calor atravessou meu abdômen. Não vinha da pele. Parecia ter nascido no centro de meus ossos.

Caí de joelhos.

Minhas damas correram para chamar Gaspar. Quando ele chegou, eu já não conseguia soltar um grito. Meus órgãos ardiam como se mãos invisíveis os segurassem sobre brasas.

O médico colocou um frasco azul perto de meus lábios.

"Isso a fará dormir."

"Pode atingir a criança?"

Ele hesitou.

"Não conhecemos a natureza desse herdeiro. Existe risco."

Empurrei o frasco.

"Então não."

"Isadora, você pode entrar em choque."

"Encontre outra maneira."

Concentrei-me na respiração. Quatro tempos para inspirar, quatro para segurar, quatro para soltar — um exercício que meu pai me ensinara quando eu era criança e tinha medo das tempestades sobre o observatório.

"Você consegue me ouvir?", perguntei mentalmente. "Acompanhe meu coração."

No começo, recebi apenas medo.

Não eram palavras, mas a sensação de uma criança perdida dentro de um aposento em chamas.

Continuei respirando.

"Eu escolhi você. Não vou abandoná-lo porque dói."

A voz surgiu fraca.

"Eu estou machucando a mamãe?"

"Não. O fogo está nos machucando. É diferente."

"Posso ir embora."

"Não vai. Nós vamos aprender a atravessá-lo juntos."

Pressionei a palma contra o ventre e marquei o ritmo com os dedos.

Uma batida. Duas. Três.

Pouco a pouco, uma segunda pulsação pareceu responder à minha.

O calor não desapareceu, mas deixou de me rasgar por dentro. Uma corrente morna espalhou-se por meus braços, reparando o que o fogo consumia.

Gaspar recuou, atônito.

"A criança está devolvendo energia à mãe."

A imperatriz chegou ainda vestida com o robe de dormir.

"Isso é possível?"

"Nunca houve registro. O Fogo do Sol sempre devorou a força da gestante. Desta vez... eles estão dividindo a carga."

Do lado de fora, alguém gritou.

As janelas se abriram para o jardim interno. No centro do pátio erguia-se um ipê que não florescia havia vinte anos. Os jardineiros já haviam pedido permissão para cortá-lo.

Naquela madrugada de inverno, seus galhos secos estavam cobertos de flores douradas.

Guardas, criados e damas se ajoelharam sob a chuva de pétalas.

Gaspar fez o sinal do sol sobre o peito.

"O herdeiro escolheu sua mãe."

Lívia chegou pouco depois, ainda usando a camisola sob uma capa de veludo. Seu olhar passou pelas flores, pelos cortesãos ajoelhados e pelas mãos da imperatriz envolvendo as minhas.

Ela se aproximou da cama.

"Não se iluda. Carregar uma criança não transforma ninguém em importante."

"Então por que veio correndo?"

Seu maxilar endureceu.

"Vim verificar se o herdeiro estava vivo."

"Ele está. E sabe quem sou."

A voz do menino vibrou dentro de mim, mais forte que antes.

"Eu sei. Você é minha mamãe. A outra é a mulher que quebrou a santa."

Uma pétala dourada entrou pela janela e pousou sobre minha mão.

Lívia não ouvira as palavras, mas viu a luz nascer entre meus dedos.

Pela primeira vez desde que chegara àquele mundo, a mulher que se dizia protagonista pareceu sentir medo de perder o papel principal.

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