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"A Mãe do Último Herdeiro" Capítulo 1 — O Herdeiro Que Ela Rejeitou

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Capítulo 1 — O Herdeiro Que Ela Rejeitou

Na manhã seguinte ao casamento imperial, Lívia Monteiro quebrou a imagem da Mãe Solar diante de toda a corte.

O rosto de porcelana da santa se partiu aos pés da nova princesa consorte. Um silêncio horrorizado atravessou a capela do Palácio do Sol Dourado.

Lívia soltou o castiçal que usara para destruir a imagem e limpou as mãos no vestido branco.

"Que coisa macabra. Eu não atravessei mundos para virar uma máquina de produzir herdeiros."

Ninguém ali, exceto eu, compreendia inteiramente o que ela queria dizer.

Naquela noite, nós duas havíamos sonhado com a mesma criança.

Um menino vestido de ouro estava sentado no Trono do Sol, balançando as perninhas acima dos degraus.

"A mulher que me trouxer ao mundo será a mãe do próximo imperador", anunciou ele. "Mas me carregar será como guardar o sol dentro do corpo. E, no parto, uma de nós poderá morrer."

Eu acordara com o coração acelerado.

Lívia acordara furiosa.

O imperador Dom Afonso IV, desesperado por um sucessor, ofereceu à nora as rendas vitalícias de dez territórios reais. A imperatriz Beatriz prometeu entregar-lhe o Grande Selo da Casa Imperial assim que ela concebesse.

Lívia recusou tudo.

Ao meio-dia, mandou trazer uma pequena taça de cristal contendo um líquido vermelho-escuro.

"Se você realmente me ama, Rafael, vai bebê-lo."

O príncipe herdeiro empalideceu.

"O que é isso?"

"Um elixir que torna um homem estéril. Para sempre."

Alguns conselheiros protestaram. A imperatriz se levantou tão depressa que derrubou a cadeira.

Rafael, porém, só olhava para a esposa.

"Você está me pedindo que encerre a linhagem imperial."

"Estou pedindo que escolha entre o trono e eu."

Ela sabia exatamente onde feri-lo.

Rafael levara três anos tentando provar que seu amor era maior do que o dever, maior do que a família e maior do que qualquer vida destruída no caminho. Já rompera o noivado comigo. Já autorizara a prisão de meu pai. Já me reduzira de filha do diretor do Observatório Real a uma criada encarregada de acender as lamparinas de sua esposa.

Beber aquela taça era apenas o próximo degrau.

Ele bebeu.

Lívia recebeu a taça vazia e a colocou em minhas mãos.

"Está vendo a diferença entre nós, Isadora? Eu sou a protagonista. Você é apenas a mulher que a história esqueceu. Ele prefere morrer sem filhos a ter um filho com você."

Baixei os olhos para esconder meu sorriso.

Meu pai havia catalogado aquele elixir anos antes. A esterilidade só se tornava definitiva doze horas após a ingestão.

Lívia não sabia disso.

Naquela noite, houve um banquete para celebrar o casamento. Rafael bebeu vinho, mas não o bastante para perder a lucidez. Quando Lívia sentiu o cheiro de álcool em seu uniforme, fez uma careta.

"Leve-o para os antigos aposentos dele", ordenou-me. "Não quero um bêbado na minha cama."

Rafael afastou minha mão quando tentei ajudá-lo a caminhar.

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"Consigo andar sozinho."

Sua voz era firme. Seus passos também.

No quarto, fechei a porta e deixei uma bacia com água sobre a mesa.

"Que dia é hoje?", perguntei.

Ele franziu a testa.

"Você virou médica?"

"Responda."

Rafael disse a data, o lugar onde estávamos e o nome completo que eu usava antes de minha família cair em desgraça.

"Isadora de Alencar", murmurou. "A mulher com quem eu deveria ter me casado."

"E sabe o que tomou esta manhã?"

"Sei."

"Sabe que ainda pode sair deste quarto?"

Ele sustentou meu olhar.

"Se eu sair, amanhã não haverá mais escolha."

Não confundi aquela frase com amor.

Rafael escolhera Lívia quando destruiu meu pai sem investigar as acusações. Escolhera novamente ao me transformar em criada no palácio onde eu deveria ter entrado como noiva. Naquela noite, eu também faria uma escolha — não por ele, mas pela única porta que o destino deixara aberta.

Fui eu quem apagou a última lamparina.

Um mês depois, o médico-chefe da corte confirmou diante do Conselho da Coroa que o elixir cumprira seu efeito.

"Sua Alteza não poderá gerar descendentes", declarou doutor Gaspar Nunes. "A condição é irreversível."

Lívia envolveu Rafael pelo pescoço e riu, aliviada.

"Agora ninguém poderá usar um bebê para nos separar."

O cheiro do vinho servido aos conselheiros atingiu meu estômago.

Levei a mão à boca, mas não consegui impedir a ânsia.

Todas as cabeças se viraram em minha direção.

O sorriso de Lívia desapareceu.

"Por que está fazendo essa cena?"

Outra onda de náusea me obrigou a me apoiar na mesa.

A imperatriz Beatriz foi a primeira a compreender.

"Gaspar, examine-a. Agora."

Lívia se colocou entre nós.

"Ela é filha de um traidor. Não merece ser tocada pelo médico imperial. Está fingindo porque tem inveja de mim."

"Se for fingimento, o exame provará", respondeu a imperatriz.

Estendi o pulso antes que alguém pudesse me mandar sair dali.

Gaspar contou minhas pulsações. Mudou de expressão. Repetiu o exame duas vezes e, na terceira, ajoelhou-se.

"Majestades... a senhorita Isadora está grávida. Aproximadamente quatro semanas."

O salão explodiu em vozes.

Rafael ficou branco.

"Impossível. Eu nunca a toquei."

Olhei diretamente para ele.

"Na noite do banquete, Vossa Alteza sabia meu nome, sabia onde estava e sabia o que havia bebido. Perguntei se desejava sair. Vossa Alteza escolheu ficar."

Ele se calou.

Lívia ergueu a mão para me bater.

Antes que seus dedos me alcançassem, o dragão de bronze de um candelabro se soltou da parede e caiu entre nós. A ponta de uma asa rasgou a barra do vestido dela.

Uma voz infantil ressoou dentro da minha cabeça.

"Mulher má. Não toque na minha mãe."

Meu corpo inteiro gelou.

A imperatriz fitou meu ventre ainda plano.

"O herdeiro a protegeu."

"Isso não prova que a criança é de Rafael!", gritou Lívia. "Ela pode ter se deitado com qualquer guarda!"

"Então usem o Cristal do Sol", exigi.

O salão silenciou novamente.

O cristal só era retirado do cofre imperial para confirmar a linhagem de um possível sucessor. Um resultado falso significaria minha execução.

"Tem certeza?", perguntou Dom Afonso.

"Quero o exame diante de todo o Conselho. E quero que cada pessoa aqui registre o resultado com seu selo."

Não permitiria que me levassem para um quarto fechado e apagassem minha existência antes do amanhecer.

O cristal foi colocado sobre a mesa. Cortei a ponta do dedo e deixei uma gota de sangue cair em seu centro.

Durante um segundo, nada aconteceu.

Então uma luz dourada irrompeu da pedra.

O desenho de um pequeno dragão solar atravessou o salão, deu três voltas ao redor de meu ventre e inclinou a cabeça diante do imperador.

Dom Afonso precisou segurar a mesa para não cair.

"Não é apenas sangue imperial", sussurrou. "É a criança da profecia."

Toquei meu abdômen.

A voz voltou, alegre como sinos sob o sol.

"Mamãe, eu cheguei."

 

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