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"A Herdeira Que Voltou do Inferno" Capítulo 6 — A Herdeira Que Voltou das Cinzas

正文开头

Capítulo 6 — A Herdeira Que Voltou das Cinzas

A corrente não nos matou.

Quase.

Fui arremessada contra pedras, arrastada por túneis estreitos e mantida debaixo d'água tempo suficiente para esquecer como respirar. Quando o canal finalmente nos lançou para fora, caí sobre uma margem de lama sob um céu sem estrelas.

Dante emergiu segundos depois, tossindo.

"Da próxima vez", disse ele, "escolha uma fuga que não envolva afogamento."

"Da próxima vez, você escolhe."

O Corvo Zero não reconhecia nossa localização. Não havia sinal de celular, estrada ou linha elétrica no mapa.

À nossa frente, uma placa enferrujada anunciava: VALE DA CINZA.

O vilarejo não constava em nenhum registro oficial.

As casas eram antigas, construídas em pedra e madeira escurecida. Embora ainda fosse noite, todos os moradores estavam diante das portas.

Eram idosos.

Homens e mulheres tão curvados que pareciam ter sido deixados ali por séculos. Não vi uma única criança ou adulto jovem.

Uma senhora sem dentes sorriu para nós.

"Chegaram a tempo da lua vermelha."

Dante levou a mão à arma, mas ela havia se perdido no canal.

"Onde estamos?" perguntei.

"Em casa", respondeu a velha. "Todo jovem que entra no vale encontra uma casa."

Um homem nos conduziu até uma pousada. Sobre a mesa havia travessas de carne cobertas por um molho escuro e adocicado.

"Comam", insistiu o dono. "Precisam estar fortes quando o Protetor chamar."

O Corvo Zero analisou uma amostra.

"Tecido humano. Presença de energia etérea preservada."

Afastei o prato.

Na cozinha, encontramos pulseiras, alianças e documentos pertencentes a viajantes desaparecidos ao longo de quarenta anos.

Também encontramos um freezer cheio de restos humanos.

Os moradores cercaram a pousada antes que pudéssemos sair.

"Nós demos nossos filhos ao Protetor", disse a velha. "Depois oferecemos os forasteiros. Em troca, ele não nos deixa morrer."

Olhei para seus rostos apodrecidos pela idade.

"Isso não é viver."

"É melhor do que o túmulo."

O sino tocou à meia-noite.

A lua ganhou uma cor vermelha, e os corpos dos moradores começaram a se deformar. Ossos se alongaram, bocas se abriram além do possível e dedos viraram garras.

Dante e eu corremos para a antiga capela no centro do vale.

Caio já estava lá.

Ele conseguira retirar Celeste e seguir nosso sinal antes de o Corvo Zero apagá-lo. Uma passagem etérea o levara ao mesmo vale, acompanhado por Celeste e três aliados dos Montenegro.

"Você tem um talento especial para encontrar lugares agradáveis", ele disse ao me ver.

"E você tem um talento irritante para me seguir."

O alívio em seus olhos durou apenas um instante.

As criaturas cercaram a capela.

Celeste identificou símbolos das Quatro Casas gravados sob o altar. O Vale da Cinza fora um dos primeiros centros de seleção de linhagens. O chamado Protetor não passava de uma entidade criada com restos das mulheres sacrificadas.

O chão se abriu.

Todos nós caímos em uma câmara subterrânea coberta por ossos.

正文1

No centro havia uma estátua feminina de dois rostos: um sorria com doçura; o outro mostrava os dentes.

Acima dela, um livro negro se abriu sozinho.

Nossos nomes surgiram em letras vermelhas.

"Regra do Vale", anunciou uma voz sem corpo. "Somente um sairá vivo. Matem os demais ou todos serão consumidos."

Um dos aliados de Caio tentou fugir. Uma linha de luz o atingiu, derrubando-o inconsciente.

O sistema queria que nos voltássemos uns contra os outros.

Caio ficou à minha direita. Dante, à esquerda. Celeste se colocou atrás de nós.

Nenhum levantou a arma contra o outro.

"Há sempre uma saída", Caio disse.

"Há", respondi. "Mas não é pela porta."

As letras do livro queimaram com mais força.

Visões invadiram minha mente.

Vi a Caldeira. Bruno segurava o ferro em brasa. Rafael me chamava de criminosa. Bianca sorria com meus olhos em uma bandeja. Marcelo dizia que Dante morrera porque eu chegara tarde.

A entidade queria transformar minha dor em fome.

Queria que eu matasse as únicas pessoas que ainda estavam ao meu lado.

"Você sobrevive quando para de confiar", sussurrou a voz. "Mate primeiro."

Eu ri.

"Você não sabe nada sobre sobrevivência."

Abri os olhos e enxerguei as linhas vermelhas que ligavam o livro à estátua, a estátua aos moradores e os moradores a milhares de ossos sob o vale.

O livro não controlava a regra.

A estátua controlava o livro.

"Dante, abra espaço. Caio, proteja Celeste."

Corri em direção à estátua.

As criaturas caíram sobre nós. Dante tomou uma barra de ferro do chão e abriu caminho. Caio ergueu um escudo etéreo ao redor de Celeste enquanto os aliados carregavam o homem ferido.

Eu alcancei o altar.

A entidade lançou contra mim todas as lembranças da Caldeira. Senti novamente as lâminas entrando em meus olhos. Meus joelhos quase cederam.

"Você nasceu para ser usada", a voz insistiu. "Sua mãe também nasceu."

Alguma coisa se rompeu dentro de mim.

Não foi meu Núcleo.

Foi o selo que mantinha meu sangue adormecido.

Uma flor negra surgiu em minha testa. Meus cabelos perderam a cor nas pontas, e a energia que explodiu de meu corpo fez as criaturas recuarem.

Atrás de mim, a sombra de uma dália gigantesca se abriu, metade viva, metade queimada.

O Corvo Zero falou com uma voz que, pela primeira vez, pareceu emocionada.

"Linhagem de Amara Vilar confirmada. Herdeira da Dália Negra desperta."

Estendi a mão.

Uma lâmina formada por luz escura apareceu em minha palma.

Golpeei a estátua entre os dois rostos.

A pedra rachou.

O grito que atravessou o vale não era de uma única mulher, mas de centenas. As linhas vermelhas se partiram. O livro pegou fogo, e as criaturas caíram no chão como marionetes sem fios.

Do interior da estátua saiu uma nuvem de pequenas luzes.

Eram as mulheres, crianças e viajantes que o vale consumira.

Eu poderia usar aquela energia para restaurar completamente meu Núcleo.

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Em vez disso, abri a passagem acima da câmara.

"Vão embora", falei.

As luzes subiram como uma tempestade ao contrário.

Quando a última desapareceu, a lua vermelha perdeu a cor.

Saímos ao amanhecer.

Uma formação de helicópteros negros apareceu sobre as montanhas. Homens e mulheres vestidos de vinho desceram primeiro. Depois veio uma mulher de cabelos escuros, olhos iguais aos de minha mãe e uma dália negra presa ao paletó.

Ela parou diante de mim.

"Meu nome é Verônica Vilar", disse. "Amara era minha irmã."

Dante se colocou ao meu lado.

"Prove."

Verônica cortou a palma. Fiz o mesmo.

Quando nossas gotas de sangue se tocaram, duas dálias negras surgiram no ar e se entrelaçaram.

Os homens atrás dela se ajoelharam.

"Encontramos você", Verônica murmurou. Seus olhos ficaram úmidos. "Depois de todos esses anos, finalmente encontramos você."

Meu primeiro impulso foi perguntar o que ela queria em troca.

Então Verônica tocou meu rosto com o cuidado de quem temia que eu desaparecesse.

"Venha para casa, Isadora."

Pela primeira vez desde a Caldeira, não precisei responder com uma ameaça.

Três dias depois, o Grupo Aurora reuniu conselheiros, investidores e jornalistas para reconhecer Bianca como sucessora espiritual de Celeste.

Marcelo acreditava que eu estava morta. Havia organizado uma cerimônia em minha memória e colocado minha fotografia no saguão.

No instante em que ele chamou Bianca ao palco, o som dos helicópteros cobriu sua voz.

As janelas do edifício tremeram.

O primeiro helicóptero pousou no terraço. Depois o segundo. Depois mais seis.

As portas do salão se abriram.

Verônica entrou à frente da Casa da Dália Negra. Caio e Celeste permaneceram protegidos fora do alcance das câmeras. Dante caminhou à minha esquerda.

Eu usava branco, com uma única dália negra bordada sobre o coração.

Marcelo deixou o microfone escapar da mão.

Bianca recuou até bater no púlpito.

"Não", ela sussurrou. "Você morreu."

Atravessei o corredor entre centenas de convidados e parei diante do palco onde pretendiam entregar meu lugar a uma impostora.

"O funeral que vocês prepararam para mim foi muito bonito", falei.

Olhei diretamente para Marcelo.

"Agora chegou a sua vez."

 

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