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"A Herdeira Que Voltou do Inferno" Capítulo 5 — A Noite em Que as Máscaras Caíram

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Capítulo 5 — A Noite em Que as Máscaras Caíram

Durante seis dias, deixei o Brasil acreditar que eu havia fugido.

Uma câmera registrou uma mulher com meu casaco embarcando em um jatinho para o Paraguai. Outra filmagem, igualmente falsa, mostrou Dante atravessando a fronteira de carro.

Marcelo acreditou porque precisava acreditar.

Comigo aparentemente longe, marcou a cerimônia de reconhecimento de Bianca durante o maior jantar beneficente do Grupo Aurora, no salão de um hotel de luxo em São Paulo.

Empresários, políticos, médicos, influenciadores e jornalistas receberam convites. A transmissão seria nacional.

Era exatamente o palco de que eu precisava.

Caio passou os seis dias rastreando pagamentos feitos pela Fundação Aurora. Encontrou quatro milhões e oitocentos mil reais desviados para empresas abertas em nome de parentes de Bianca.

Dante recuperou mensagens apagadas entre ela e Marcelo.

Não havia apenas um caso amoroso.

Havia instruções sobre os relatórios dos seis voluntários, o acesso à Caldeira e a ordem para retirar meus olhos antes de minha morte.

"Temos material suficiente para destruí-los", Dante disse.

"Ainda falta uma coisa."

Olhei para Celeste.

Ela estava mais forte, mas o Selo continuava preso à sua memória. Expor sua imagem inteira faria Marcelo mobilizar as Quatro Casas antes que pudéssemos protegê-la.

"Apenas minha voz", decidiu. "Por enquanto."

Na noite do evento, entrei no hotel pela cozinha usando um crachá de fornecedora. Dante assumiu a central de transmissão. Caio ficou no salão, sentado entre os representantes legais dos Montenegro, para impedir que Marcelo encerrasse o evento sem testemunhas.

Bianca subiu ao palco sob aplausos.

Usava um vestido branco e uma joia que pertencera a Celeste. Marcelo a colocou em seu pescoço diante das câmeras.

"Hoje", anunciou, "o Grupo Aurora recebe de volta a mulher que sacrificou a própria vida por esta instituição."

Bianca levou a mão ao peito.

"Não quero privilégios. Só quero continuar protegendo as pessoas, como fiz em minha vida anterior."

Eu quase admirei sua coragem.

Era preciso muita confiança para mentir diante de um país inteiro sobre uma mulher que ainda estava viva.

Marcelo ergueu uma taça.

"A Celeste, que voltou para nós."

As luzes se apagaram.

O telão atrás deles acendeu.

Primeiro surgiu uma planilha com as transferências da fundação. Depois vieram os contratos das empresas de fachada e as assinaturas digitais.

O salão ficou em silêncio.

Bianca olhou para Marcelo.

"O que está acontecendo?"

A gravação seguinte respondeu.

A voz dela encheu o salão.

"Depois que retirarem os olhos, queimem o corpo. Sem corpo, sem perícia."

Alguns convidados se levantaram.

Marcelo correu para o microfone.

"Isso é uma montagem! Desliguem o sistema!"

Dante bloqueou os controles.

Outra mensagem foi reproduzida. Marcelo prometia a Bianca o comando do Instituto Ferraz assim que minha morte fosse confirmada.

Depois veio um vídeo dos dois entrando juntos em uma suíte da própria fundação na noite em que eu fora presa.

Não precisei inventar um escândalo.

A verdade já era obscena o bastante.

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Rafael estava perto do palco. Vi o momento em que ele compreendeu que Bianca o usara para abrir a porta da Caldeira enquanto dormia com Marcelo e negociava meu patrimônio.

Ele subiu os degraus e agarrou o braço dela.

"Você sabia o que fariam com Isadora?"

Bianca tentou chorar.

"Rafael, eu estava com medo. Marcelo me obrigou."

"Sua voz não parece assustada."

"Eu posso explicar."

"Explique os quatro milhões e oitocentos mil."

Ela não respondeu.

Foi então que entrei no salão.

As pessoas abriram caminho. Os celulares se voltaram para mim antes mesmo das câmeras profissionais.

Marcelo ficou imóvel.

"Você deveria estar fora do país."

"E você deveria estar na prisão. Todos estamos decepcionados."

Subi ao palco.

Bianca recuou, apertando o lenço que escondia as manchas em seu pescoço.

"Ela me envenenou!" gritou. "Essa mulher tentou me matar!"

"Ainda não."

O salão reagiu com uma onda de murmúrios.

Marcelo fez sinal para a segurança, mas Caio se levantou e mostrou aos agentes uma notificação protocolada naquela tarde.

"Qualquer apreensão dos equipamentos antes da perícia será tratada como destruição de prova", declarou.

Marcelo me lançou um olhar de puro ódio.

"Você acha que uma coleção de arquivos roubados pode derrubar esta instituição?"

"Não. Acho que vocês podem. Eu apenas acendi as luzes."

Então a voz de Celeste saiu dos alto-falantes.

"Bianca, você disse que se lembra do meu primeiro laboratório."

Bianca perdeu toda a cor.

"Quem é você?"

"Diga qual reagente causou a cicatriz em minha mão esquerda. Diga o nome que dei ao projeto antes de Marcelo mudar os arquivos. Diga qualquer coisa que só eu saberia."

Bianca abriu e fechou a boca.

Nenhuma palavra saiu.

"Você não é minha continuação", Celeste prosseguiu. "É apenas a máscara que Marcelo escolheu depois de acreditar que tinha me silenciado."

O salão explodiu.

Marcelo ordenou que cortassem a energia do hotel. As luzes de emergência acenderam em vermelho, mas a transmissão continuou pelos equipamentos de Dante.

Rafael se aproximou de mim.

"Isadora, eu não sabia."

"Você nunca sabe. Essa é a desculpa que usa para tudo."

"Eu errei. Mas ainda podemos resolver isso juntos."

Olhei para o homem que entregara minha liberdade sem fazer uma única pergunta.

"Não existe mais nós."

Marcelo apontou para o broche dourado preso ao meu vestido.

"Você continua usando o símbolo da Aurora. Pode fingir independência, mas tudo o que é vem desta instituição."

Arranquei o broche.

Era a insígnia que meu pai colocara em minha roupa quando me nomeara sucessora do Instituto Ferraz.

Durante anos, eu acreditara que aquele metal representava minha família.

Agora sabia que representava uma gaiola.

Deixei o broche cair e o esmaguei sob o salto.

"A Aurora não me criou", respondi. "Ela apenas falhou em me matar."

O primeiro disparo atingiu o telão.

Marcelo havia trazido homens que não pertenciam à segurança regular. Eles entraram pelas laterais, armados, enquanto os convidados corriam para as saídas.

Dante apareceu atrás do palco.

"A rota principal foi bloqueada."

"Então usamos a segunda."

Descemos pelo elevador de serviço até um túnel antigo sob o hotel. O edifício fora construído sobre uma estação de drenagem que se conectava à rede etérea do Grupo Aurora.

Caio ficou para trás a fim de retirar Celeste da casa segura antes que Marcelo localizasse a transmissão.

Rafael nos alcançou na plataforma subterrânea.

"Isadora, pare! Há um mandado interno contra vocês."

"Mandado interno não é mandado judicial."

"Se entrar nesse canal, a corrente vai matá-la."

Olhei para a água escura correndo sob nossos pés.

"É nisso que Marcelo precisa acreditar."

Segurei a mão de Dante e saltei.

A corrente nos arrastou para dentro do túnel no instante em que os disparos atingiram a parede.

O Corvo Zero desativou nossos sinais vitais e lançou duas leituras falsas na rede do Grupo Aurora.

Na sala de controle, a linha de Dante desapareceu primeiro.

A minha se apagou logo depois.

Marcelo observou os dois sinais mortos por alguns segundos.

Então se virou para Rafael.

"Fechem todas as saídas."

"Os monitores indicam que morreram."

"Sem cadáver", Marcelo respondeu, "Isadora Ferraz continua sendo uma ameaça."

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