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"A Herdeira Que Voltou do Inferno" Capítulo 4 — A Mulher Que Acordou Depois de Dez Anos

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Capítulo 4 — A Mulher Que Acordou Depois de Dez Anos

O ponto marcado pelo Corvo Zero ficava cento e vinte metros abaixo do escritório do meu pai.

Marcelo estava procurando Celeste.

Eu precisava encontrá-la primeiro.

Copiei a gravação para um dispositivo externo, recoloquei o retrato de minha mãe na parede e saí do escritório sem alterar a fechadura. Se Marcelo descobrisse que eu conhecia o esconderijo, enviaria todos os homens do Grupo Aurora para a mina.

Encontrei Dante e Caio na sala de monitoramento.

"Celeste está viva", anunciei.

Dante interrompeu a gravação das câmeras. Caio não pareceu surpreso, apenas mais atento.

"Onde?"

Mostrei o mapa.

"Em uma câmara criogênica que não aparece na planta oficial. O acesso principal exige três autorizações, incluindo a de Marcelo."

"Então não usaremos o acesso principal", Dante respondeu.

Meu irmão abriu uma planta antiga da mineração. Um túnel de drenagem, fechado após um desabamento, passava a menos de quatro metros da câmara.

Caio examinou a distância.

"Se os sensores estiverem ligados, Marcelo saberá que entramos antes de chegarmos à porta."

"Não se desligarmos toda a ala", falei.

O plano era simples o bastante para dar errado de vinte maneiras.

Dante provocaria uma falha no sistema de refrigeração do arquivo central. Caio usaria seu acesso de consultor jurídico para obrigar a equipe técnica a preservar os servidores e evacuar o subsolo. Enquanto todos corressem para proteger os documentos, eu entraria pelo túnel de drenagem.

"Você mal consegue ficar em pé", Dante protestou.

"Consigo rastejar. É o que o túnel exige."

Quarenta minutos depois, os alarmes começaram.

Luzes amarelas piscaram nos corredores. Técnicos, seguranças e diretores desceram para o arquivo central enquanto uma mensagem automática anunciava risco de perda de dados.

Eu entrei por uma porta de manutenção atrás do antigo laboratório botânico.

O túnel cheirava a ferrugem e água parada. Passei de joelhos por cabos antigos, raízes e pedras soltas até encontrar uma parede de concreto mais recente que o resto da estrutura.

O Corvo Zero projetou o contorno de uma porta escondida.

"Trava etérea reconhecida. Compatibilidade ocular necessária."

Aproximei o rosto do leitor.

Uma dor aguda atravessou meus olhos recém-formados. O aparelho examinou minhas retinas, hesitou e acendeu em verde.

A parede se abriu.

O ar do outro lado era tão frio que minha respiração virou névoa.

A câmara continha uma única cápsula vertical. Tubos entravam no corpo da mulher suspensa dentro de um líquido azul. Os cabelos escuros flutuavam ao redor de seu rosto, e uma marca prateada brilhava sob a pele de sua testa.

Celeste Moura.

O painel indicava atividade cerebral mínima e um ciclo de desligamento programado para aquela mesma madrugada.

Marcelo não estava apenas procurando por ela.

Já a encontrara e decidira apagar o último vestígio.

"Corvo, abra a cápsula."

"A retirada imediata causará colapso cardíaco. Recurso disponível: restaurador neural de uso único. Custo elevado."

"Quanto?"

O número apareceu diante dos meus olhos.

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Quase todos os créditos de ruptura que eu recuperara desde a pedreira.

"Compre."

"Confirmação necessária."

"Ela guardou o Selo por dez anos. Não vou deixá-la morrer para economizar."

Uma ampola prateada surgiu em minha mão. Conectei-a ao tubo de emergência e alterei o ciclo da máquina.

O líquido começou a baixar.

Celeste caiu para a frente quando a cápsula se abriu. Segurei-a antes que atingisse o chão.

Seu coração parou.

Pressionei a ampola contra sua artéria e liberei o restaurador. Durante segundos longos demais, nada aconteceu.

Então Celeste inspirou com violência.

Seus olhos se abriram e uma lâmina de luz prateada surgiu em sua mão.

A ponta parou contra minha garganta.

"Quem é você?"

"A mulher que acabou de pagar uma fortuna para ressuscitá-la."

Ela me observou, confusa, até reconhecer meu rosto.

"Isadora?"

"Dezessete anos mais velha do que na última vez que me viu."

Celeste olhou ao redor. Quando percebeu os tubos e a data no painel, perdeu a cor.

"Quanto tempo?"

"Dez anos."

Ela fechou os olhos.

Não chorou. O silêncio dela era pior.

Passos ecoaram do outro lado da parede. Dante avisou pelo comunicador que os técnicos já haviam controlado a falsa falha.

Tínhamos menos de quatro minutos.

"Meu pai colocou o Selo Ferraz dentro de você", falei. "Preciso saber por quê."

Celeste tocou a própria testa.

"Augusto descobriu que Marcelo entregava mulheres selecionadas às Quatro Casas. Amara tentou impedir o programa antes dele. Foi por isso que a mataram."

Meu peito endureceu.

"Marcelo matou minha mãe?"

"Ele abriu o caminho para quem matou. Anos depois, quando Augusto reuniu provas, fizeram o mesmo com ele."

"Meu pai está morto?"

"Eu não vi o corpo. Vi Marcelo levá-lo para a Mina das Mil Lâminas."

Celeste tentou se levantar e quase caiu.

Passei o braço dela sobre meus ombros.

"Podemos retirar o Selo agora?"

"Não." Ela apontou para a marca prateada. "O Selo foi preso à minha memória. Se for arrancado enquanto meu cérebro estiver instável, nós dois serão destruídos."

Não gostei da resposta, mas não discutiria com uma mulher que mal voltara a respirar.

Dante abriu a passagem por fora no momento em que os guardas entraram na ala principal. Caio os reteve exibindo uma ordem judicial de preservação de dados que preparara para outra investigação.

Saímos pelo túnel e levamos Celeste para uma casa segura nos arredores de Ouro Preto.

Na manhã seguinte, todos os canais transmitiram uma coletiva do Grupo Aurora.

Marcelo apareceu diante do símbolo dourado da instituição. Bianca estava ao seu lado, pálida, com o pescoço coberto por um lenço de seda.

"Nos últimos dias", ele declarou, "Bianca Salles começou a recuperar lembranças que não pertencem a esta vida."

O telão mostrou fotografias antigas de Celeste.

"Após exames realizados por especialistas, concluímos que Bianca carrega a continuidade etérea de Celeste Moura, nossa maior pesquisadora."

Bianca chorou diante das câmeras.

"Eu sonhava com corredores que nunca visitei, fórmulas que nunca estudei e com Marcelo me chamando pelo nome dela. Agora compreendo que voltei para concluir minha missão."

Até Caio pareceu enojado.

O plano era evidente. Com minha volta, Marcelo precisava de alguém com legitimidade suficiente para disputar o Selo. Como não sabia que Celeste estava viva, transformara Bianca em sua substituta.

Dante pegou o controle remoto.

"Vou interromper essa palhaçada."

"Ainda não."

Segurei o braço dele.

"Quanto maior a mentira, mais pessoas verão quando ela cair."

Celeste estava sentada junto à janela, enrolada em um cobertor. Assistiu Bianca contar uma falsa lembrança de seu primeiro laboratório e depois ouviu Marcelo chamá-la de milagre.

Por um instante, pensei que ela fosse quebrar o copo em sua mão.

Em vez disso, colocou-o sobre a mesa com cuidado.

"Deixe que ele repita", disse ela.

Sua voz ainda estava fraca, mas seus olhos já não estavam.

"Deixe Marcelo transformar essa mentira na coisa mais importante da vida dele."

Celeste olhou para mim.

"Quando eu aparecer, não vou desmenti-lo. Vou enterrá-lo dentro dela."

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