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"A Herdeira Que Voltou do Inferno" Capítulo 3 — O Homem Que Apostou a Vida em Mim

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Capítulo 3 — O Homem Que Apostou a Vida em Mim

Li o contrato duas vezes.

Caio permanecia imóvel diante de mim, com a mão ensanguentada e uma calma irritante no rosto.

"Você incluiu sua vida como garantia", eu disse.

"Você não aceitaria menos."

"Ainda não aceitei."

Dante tomou o documento de minhas mãos.

Ele conhecia direito empresarial melhor do que muita gente imaginava e levou menos de um minuto para encontrar a cláusula mais perigosa.

"O juramento só permanece válido enquanto Isadora não trair você primeiro."

"Não pretendo transformá-la em prisioneira da minha lealdade", Caio respondeu. "Aliança exige reciprocidade."

"E o que você ganha?" perguntei.

"A chance de destruir as Quatro Casas Fundadoras antes que elas transformem você na próxima fonte de sangue."

O vento atravessou a pedreira.

Por trás de Caio, os últimos insetos etéreos desapareciam nas rachaduras.

"Minha mãe morreu em um acidente", falei.

"Foi o que disseram."

Ele retirou do celular uma fotografia antiga. Minha mãe aparecia saindo de um hotel em Ouro Preto. Atrás dela caminhavam Marcelo, meu pai e quatro pessoas cujos rostos haviam sido cobertos com tinta preta.

A data era de dois dias antes da morte de Amara.

"Sua mãe descobriu que o Grupo Aurora selecionava mulheres com determinadas linhagens para um programa secreto", Caio explicou. "Ela tentou retirar os nomes do banco de dados. Depois morreu. Seu pai começou a investigar e desapareceu. Agora fizeram de você uma criminosa e arrancaram seus olhos."

"Por que os olhos?" Dante perguntou.

"Porque a visão etérea dos Ferraz reconhece o Selo. Sem ela, Isadora nunca poderia provar que é a herdeira legítima."

Marcelo não quisera apenas me torturar.

Quisera me tornar incapaz de recuperar o que era meu.

"Você sabe onde está o Selo Ferraz?"

"Ainda não. Mas sei onde seu pai esteve pela última vez."

Caio mostrou a planta subterrânea da sede histórica do Grupo Aurora, nos arredores de Ouro Preto.

"O acesso passa pelo arquivo privado de Marcelo. Se quiser entrar, precisa voltar antes que ele descubra que sua recuperação não é temporária."

Voltar imediatamente parecia loucura.

Por isso mesmo, era a única escolha que Marcelo não esperaria.

Assinei o contrato com meu sangue.

"Uma traição", avisei, "e não será o juramento que matará você."

Caio sustentou meu olhar.

"Se eu a trair, você terá esse direito."

Partimos para Ouro Preto antes do amanhecer.

Caio providenciou atendimento clandestino para Dante e roupas limpas para mim. Recusei sedativos. Precisava que todos vissem as marcas nos meus pulsos e a cicatriz recente ao redor dos olhos.

Quando entramos no salão principal do Grupo Aurora, a reunião emergencial já havia começado.

Marcelo estava sentado na cabeceira de uma mesa de madeira escura. Rafael permanecia à direita. Bianca usava óculos enormes para esconder as linhas negras que começavam a alcançar seu pescoço.

Conselheiros, advogados e diretores se calaram quando as portas se abriram.

Eu atravessei o salão com Dante de um lado e Caio do outro.

正文1

"Isso é uma provocação", Marcelo disse.

"Não. Uma provocação seria eu trazer o corpo de Bruno e deixá-lo sobre sua mesa."

Bianca perdeu a cor.

Coloquei o documento assinado pelo jurídico diante dos conselheiros.

"A ordem interna contra mim está suspensa. Portanto, continuo sendo diretora do Instituto Ferraz e beneficiária do fundo deixado por Augusto Ferraz."

Um dos advogados ajustou os óculos.

"Em tese, sim. Até a conclusão da investigação."

"Então devolvam meus acessos, meus laboratórios e os valores retidos nos últimos três anos."

Marcelo riu sem humor.

"Você aparece depois de fugir de custódia, acompanhada por um Montenegro, e espera receber um patrimônio avaliado em quase cento e oitenta milhões de reais?"

"Esse valor pertence ao instituto. Não a você."

Abri no telão a ordem encontrada no arquivo de Bruno.

O nome de Marcelo surgiu diante de todos.

"Se negar, envio isso agora para fora do Grupo. Se devolver o que roubou, concedo vinte e quatro horas para explicar por que seu certificado digital autorizou minha tortura."

O salão explodiu em perguntas.

Marcelo tentou manter a expressão neutra, mas uma veia pulsou em sua têmpora.

"O certificado foi clonado."

"Ótimo. Você terá prazer em pedir uma perícia independente."

Ele não podia concordar. Também não podia recusar diante dos conselheiros.

Após quarenta minutos de discussão, o departamento jurídico restaurou meu cargo provisório e bloqueou qualquer transferência de ativos do Instituto Ferraz sem minha assinatura.

Não era tudo que me deviam.

Mas era a primeira vez que Marcelo devolvia alguma coisa com as próprias mãos.

"A reunião terminou", ele declarou.

"A sua, talvez."

Coloquei sobre a mesa uma lista com os medicamentos, patentes, equipamentos e dividendos retirados do instituto desde o desaparecimento de meu pai.

"Quero uma auditoria de cada item. E quero Dante reintegrado ao conselho de segurança."

Rafael se levantou.

"Ele atacou agentes do Grupo."

"Agentes enviados sem autorização jurídica para executá-lo. Você quer mesmo registrar essa acusação?"

Ele se calou.

Bianca segurou o braço de Marcelo.

"Ela está ameaçando todos nós."

Olhei para as manchas escuras subindo por sua garganta.

"Não use seus poderes, Bianca. Seria uma pena se as marcas chegassem ao rosto diante das câmeras."

Ela soltou Marcelo imediatamente.

Saí do salão com meus acessos restaurados.

Naquela noite, enquanto Dante assumia o controle da segurança interna e Caio distraía os advogados de Marcelo, entrei sozinha no antigo escritório de meu pai.

O lugar estava intacto demais.

Livros alinhados, fotografias limpas, nenhuma poeira sobre a mesa. Alguém revistava o ambiente regularmente.

O Corvo Zero identificou uma interferência atrás do retrato de Amara.

Retirei a moldura e encontrei um compartimento biométrico. O leitor recusou minha impressão digital, mas se abriu quando aproximei os olhos.

Dentro havia apenas um cartão de memória.

A gravação mostrava meu pai ferido em uma câmara subterrânea. Sangue cobria sua camisa. Em sua mão brilhava o Selo Ferraz, uma peça negra do tamanho de uma moeda.

Passos se aproximavam do outro lado da porta.

Augusto olhou para alguém fora do enquadramento.

"Não posso deixar Marcelo encontrar isto. Você é a única em quem ainda confio."

Uma mulher de vestido azul entrou na imagem.

Meu pai pressionou o Selo contra a testa dela. A peça se desfez em luz e desapareceu sob sua pele.

O vídeo terminou.

Eu conhecia aquele rosto.

Todo o Brasil conhecia.

Celeste Moura fora a pesquisadora mais admirada do Grupo Aurora. Dez anos antes, Marcelo organizara um funeral televisionado e dissera que ela morrera protegendo centenas de pessoas durante um vazamento químico.

O Corvo Zero comparou a gravação com os arquivos médicos sigilosos da empresa.

"Celeste Moura não morreu no acidente", informou.

Um mapa apareceu diante de meus olhos, marcando uma câmara de criogenia sob a antiga mina.

"Ela continua viva. E Marcelo está procurando por ela."

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