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"A Herdeira Que Voltou do Inferno" Capítulo 1 — Os Olhos Que Arrancaram de Mim

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Capítulo 1 — Os Olhos Que Arrancaram de Mim

O ferro em brasa parou a poucos centímetros do meu rosto.

Eu não conseguia vê-lo, mas sentia o calor mordendo minha pele. O cheiro de metal queimado se misturava ao de sangue, desinfetante e pedra úmida.

Meus pulsos estavam presos por correntes fixadas às paredes da Caldeira, um laboratório clandestino construído sob uma mina abandonada na Serra do Espinhaço.

Poucas horas antes, Bruno Tavares havia arrancado meus olhos.

Depois destruíra meu Núcleo Etéreo com uma injeção preparada nos laboratórios do Grupo Aurora.

Agora queria marcar meu rosto antes de jogar meu corpo no incinerador.

"Por que ficou tão calada, Isadora?" Bruno perguntou, divertido. "A grande herdeira dos Ferraz não tem mais nenhuma ordem para dar?"

Minha garganta estava cheia de sangue. Mesmo assim, consegui sorrir.

"Você ainda fala demais para um homem que sempre perdeu para mim."

O ferro se afastou.

Eu conhecia Bruno havia quinze anos. Conhecia também a respiração curta que ele soltava quando se sentia humilhado.

"Você continua arrogante." Ele agarrou meu cabelo. "Seu pai desapareceu. Seu instituto pertence ao Marcelo. O país inteiro acredita que você matou seis voluntários em experiências ilegais. Até Rafael testemunhou contra você."

Rafael Nogueira, meu noivo durante cinco anos, fora o primeiro a confirmar diante do conselho que eu havia adulterado os relatórios clínicos.

Bianca Salles chorara diante das câmeras, dizendo que tentara me impedir.

Marcelo Avelar, presidente interino do Grupo Aurora, prometera justiça às famílias.

Os três sabiam que os documentos eram falsos.

"Você devia ter aceitado a culpa sem fazer escândalo", Bruno continuou. "Marcelo pediu que sua morte parecesse um acidente. Mas Bianca acha que você ainda é bonita demais para ser enterrada intacta."

Então fora ideia dela.

Guardei a informação junto com todas as outras dívidas.

"Aproxime o ferro", murmurei. "Se tiver coragem."

Bruno me acertou no rosto.

Minha cabeça bateu na parede. A dor atravessou meu crânio e explodiu atrás das órbitas vazias.

Foi naquele instante que uma voz falou dentro da minha mente.

"Protocolo Corvo Zero localizado. Compatibilidade sanguínea confirmada."

Pensei que estivesse delirando.

"Amara Vilar deixou uma mensagem para você, Isadora Ferraz: sobreviva primeiro. Descubra a verdade depois."

Minha mãe estava morta havia dezessete anos.

Ninguém pronunciava o nome dela dentro do Grupo Aurora.

"Iniciando reparo emergencial da visão. Reconstrução parcial do Núcleo Etéreo."

O frio entrou em minhas veias como água de degelo.

Em seguida veio a dor.

Meu corpo se arqueou contra as correntes. Tecido, nervos e vasos se refizeram dentro das órbitas. Uma pressão brutal atravessou minha testa, como se duas lâminas estivessem abrindo caminho de dentro para fora.

Eu gritei.

Bruno riu.

"Agora está com medo? Tarde demais."

"Alvo identificado", disse a voz. "Bruno Tavares. Participação confirmada em tortura, cárcere privado e destruição de provas. Sugestão: neutralização definitiva."

Abri os olhos.

Primeiro vi apenas vermelho.

Depois, as lâmpadas industriais, os azulejos manchados, a porta de aço e o rosto de Bruno perderam a névoa.

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Ele recuou.

"Seus olhos..."

"Bonitos?"

Puxei as correntes até o metal cortar meus pulsos.

"Então olhe bem para eles antes de morrer."

Bruno largou o ferro e procurou a arma presa ao cinto.

Eu não tinha força para enfrentá-lo. Meu Núcleo fora restaurado apenas o suficiente para me manter consciente.

Mas eu conhecia aquela sala.

Tinha ajudado a projetar o sistema de contenção química anos antes, quando ainda acreditava que o Grupo Aurora usaria a tecnologia para tratar vítimas de exposição etérea.

Com a ponta do pé, pressionei a válvula de emergência sob a maca.

Um vapor quase invisível saiu das grades de ventilação.

Bruno apontou a pistola.

"Não se mexa."

"Você sentiu um gosto de amêndoa?"

Ele hesitou.

Foi o bastante.

A pistola caiu de sua mão. Seus joelhos cederam e ele tentou alcançar a máscara de proteção presa à parede.

"O que você fez?"

"Usei o neutralizante experimental que vocês guardavam para mim. Em alguém saudável, ele paralisa os músculos em quarenta segundos."

Peguei o ferro em brasa.

Bruno tentou rastejar, mas suas mãos já não obedeciam.

"Isadora, espere. Eu só cumpri ordens. Posso contar tudo. Foi Marcelo quem alterou os arquivos. Bianca entregou sua agenda a ele. Rafael abriu a porta do laboratório."

"Eu sei."

Pressionei a extremidade incandescente contra o leitor biométrico. O plástico derreteu, o circuito entrou em curto e as travas das correntes se abriram.

Caí de joelhos, mas não soltei o ferro.

Bruno me observava como se finalmente tivesse entendido que a mulher acorrentada ali já não existia.

"Por favor."

"Eu pedi que parasse quando arrancou o primeiro olho."

Arrastei-me até ele.

"Você disse que ninguém ouviria meus gritos."

Peguei sua pistola, destravei-a e apontei para seu peito.

"Agora eu ouvi o seu."

O disparo ecoou pela Caldeira.

As luzes de emergência ficaram vermelhas. O Corvo Zero abriu diante da minha visão uma planta do complexo e marcou uma rota de saída.

Também mostrou o arquivo que Bruno tentara apagar: uma ordem assinada digitalmente por Marcelo autorizando minha transferência, seguida de uma mensagem de Bianca.

Não queimem o rosto até eu confirmar que os olhos foram retirados.

Enviei uma cópia para três servidores externos.

Depois vesti o casaco de Bruno, peguei seu cartão de acesso e deixei a Caldeira antes que o alarme alcançasse a central de Belo Horizonte.

Eu poderia ter desaparecido.

Poderia atravessar a fronteira, mudar de nome e passar o resto da vida tentando esquecer.

Em vez disso, peguei o primeiro voo para São Paulo.

Bianca morava em uma cobertura nos Jardins paga pelo instituto que pertencera à minha família. Entrei usando o cartão de manutenção de Bruno e interrompi o sistema de segurança por noventa segundos.

Ela estava diante do espelho, escolhendo os brincos que usaria em uma entrevista sobre minha suposta fuga.

Quando viu meu reflexo, deixou a joia cair.

"Isadora?"

Fechei a porta.

"Você parece decepcionada."

Bianca tentou alcançar o celular. Uma agulha atravessou a manga de seu vestido e se cravou no braço.

Ela cambaleou.

"O que você me deu?"

"Tempo para conversarmos."

Segurei-a antes que caísse e liguei para Marcelo usando o telefone dela.

Ele atendeu no segundo toque.

"Bianca?"

"Não."

O silêncio do outro lado foi delicioso.

"Isadora", ele disse por fim.

"Venha buscar sua protegida. Traga o departamento jurídico e uma retratação assinada. Se tentar mandar seguranças, Bianca perde muito mais do que a reputação."

Marcelo respirou fundo.

"Você ainda acredita que pode negociar comigo?"

"Eu já matei o homem que você deixou na Caldeira. Não me obrigue a ficar entediada."

Ele ficou alguns segundos em silêncio.

Quando voltou a falar, sua voz estava calma demais.

"Antes de fazer qualquer coisa, Isadora, ligue para o seu irmão."

Meu sorriso desapareceu.

"O que você fez com Dante?"

"Eu, nada. Mas os homens que o cercaram na pedreira receberam uma ordem simples."

Marcelo fez uma pausa.

"Antes do amanhecer, o último Ferraz que ainda confia em você estará morto."

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