"O Chefe da Máfia Me Contratou Para Ser Sua Esposa" Capítulo 4 — Meu Filho Não Ri
Na manhã seguinte ao pesadelo, Gabriel desceu para o café como se nada tivesse acontecido.
A cadeira continuava atrás da porta.
Isabela não tocou nela.
Também não mencionou a noite anterior.
Gabriel parecia esperar que ela perguntasse alguma coisa.
Ela não perguntou.
Sentou-se à mesa, passou manteiga numa fatia de pão e tomou café.
Depois de alguns minutos, Gabriel perdeu a paciência.
— Você não vai falar nada?
Isabela levantou os olhos.
— Bom dia.
— Não é isso.
— Então seja mais específico.
Gabriel mexeu no pão.
— Sobre ontem.
— Você pediu para eu não mexer na cadeira.
— E?
— E eu não vou mexer.
Ele a observou com desconfiança.
— Só isso?
— Só.
Gabriel ficou em silêncio.
Era estranho.
As pessoas daquela casa pareciam sempre querer respostas dele.
Por que fez isso?
Por que quebrou aquilo?
Por que gritou?
Por que não dormiu?
Isabela, ao contrário, parecia capaz de enxergar uma porta fechada sem tentar arrombá-la.
— Você é esquisita — disse ele.
— Obrigada.
— Não foi elogio.
— Continuo agradecendo.
Gabriel revirou os olhos.
Teresa entrou na sala.
— O motorista está esperando.
Gabriel pegou a mochila.
Isabela apontou para o prato.
— Seu pão.
— Não quero mais.
— Você deu duas mordidas.
— Já comi.
— Isso explica por que você é tão grande.
Gabriel olhou para o próprio corpo.
Depois percebeu a provocação.
— Eu tenho oito anos!
— Exatamente.
Ele pegou o pão e deu outra mordida enquanto caminhava.
— Só estou levando porque não quero desperdiçar.
— Claro.
Gabriel saiu.
Isabela sorriu.
Quando se virou, percebeu Teresa olhando para ela.
— O quê?
— Nada.
— Nesta casa todo mundo responde “nada” quando quer dizer alguma coisa.
Teresa soltou uma risada curta.
— Você está aprendendo rápido.
Isabela levantou a xícara.
— Onze babás me deixaram bastante material de estudo.
Teresa perdeu um pouco do sorriso.
— Gabriel não era assim antes.
Isabela parou.
Era a primeira vez que Teresa oferecia espontaneamente alguma informação.
— Antes de quê?
A governanta percebeu tarde demais.
Pegou a bandeja.
— Tenho coisas para fazer.
— Teresa.
— Não.
— Eu nem perguntei.
— Ia perguntar.
Isabela sorriu.
— Você também está aprendendo rápido.
Teresa saiu.
Mas a frase ficou.
Gabriel não era assim antes.
Naquela tarde, ele voltou da escola irritado.
Jogou a mochila no sofá.
Isabela olhou.
— A mochila tem culpa?
— Não começa.
— Nem comecei.
— Então não começa.
Gabriel subiu dois degraus.
Isabela viu uma folha amassada saindo do bolso lateral da mochila.
— Tem dever?
— Não.
— Tem certeza?
— Tenho.
— Ótimo.
Ela pegou a mochila.
Gabriel voltou imediatamente.
— Me dá!
— Calma.
Isabela puxou a folha.
Era um aviso da escola.
Gabriel tentou pegar.
Ela levantou o braço.
— O que aconteceu?
— Nada.
— Outra vez “nada”.
— Me devolve!
Isabela leu.
Gabriel havia se recusado a participar de uma atividade em grupo e discutido com um colega.
— Você chamou um menino de idiota?
— Ele é idiota.
— Isso não costuma funcionar como defesa.
— Você não conhece ele.
— Verdade.
Ela devolveu o papel.
— Quer me contar?
— Não.
— Tudo bem.
Gabriel pareceu irritado justamente porque ela não insistiu.
Pegou a mochila.
— Ele falou que eu não tenho mãe.
Isabela ficou quieta.
Gabriel percebeu que havia falado mais do que queria.
— Eu não ligo.
— Certo.
— Não ligo mesmo.
— Eu ouvi.
— Ele que começou.
— Eu acredito.
Gabriel franziu a testa.
— Você acredita?
— Sim.
— Nem sabe o que aconteceu.
— Sei que você não costuma explicar quando está realmente chateado.
Ele ficou imóvel.
Isabela percebeu que havia ido longe demais.
Então apontou para o aviso.
— Mas chamar alguém de idiota ainda foi uma péssima ideia.
Gabriel bufou.
— Sabia.
— Uma coisa não apaga a outra.
Ele subiu.
Dessa vez, não bateu a porta.
No fim da tarde, Isabela o encontrou na cozinha.
Gabriel estava em pé diante da geladeira aberta.
— O que procura?
— Nada.
— Vai comer “nada” também?
— Quero brigadeiro.
— Não tem.
— Então faz.
Isabela encostou na bancada.
— Você sabe pedir?
Gabriel fechou a geladeira.
— Faz brigadeiro.
— Isso não parece pedido.
— Por favor.
— Melhorou.
Gabriel abriu um armário.
— A Teresa sabe fazer.
— Então pede para Teresa.
— Eu quero que você faça.
Isabela levantou uma sobrancelha.
— Por quê?
— Porque sim.
Ela quase perguntou.
Não perguntou.
— Tudo bem.
Gabriel imediatamente corrigiu:
— Mas eu ajudo.
— Você?
— Eu sei cozinhar.
— Ontem você disse que não sabia nem guardar o próprio prato.
— Isso é diferente.
Isabela abriu o armário.
— Vamos descobrir.
Teresa entrou alguns minutos depois e parou na porta.
Gabriel estava sobre um banquinho, despejando leite condensado numa panela.
Metade entrou na panela.
O restante escorreu pela lateral.
— Gabriel!
Teresa levou a mão ao peito.
— O que vocês estão fazendo?
— Ciência — respondeu Isabela.
— Brigadeiro — corrigiu Gabriel.
— No estado atual, ainda é ciência.
Teresa olhou para a bancada.
— A cozinha estava limpa.
Gabriel apontou para Isabela.
— Foi ela.
Isabela virou lentamente.
— Gabriel.
Ele tentou segurar o sorriso.
— Foi sem querer.
— Claro.
Isabela passou o dedo numa pequena gota de chocolate e marcou a ponta do nariz dele.
Gabriel congelou.
— Você fez isso?
— Foi sem querer.
Ele abriu a boca.
Isabela deu um passo para trás.
Gabriel passou a mão no nariz.
Olhou o chocolate nos dedos.
Depois para ela.
— Você vai se arrepender.
— Estou tremendo.
Gabriel mergulhou a ponta da colher no chocolate.
— Nem pensa nisso.
Ele pensou.
Isabela tentou sair.
Gabriel esticou o braço.
Uma faixa de chocolate atingiu a bochecha dela.
Teresa arregalou os olhos.
O silêncio durou meio segundo.
Isabela olhou para Gabriel.
Gabriel olhou para ela.
E começou a rir.
Não foi um sorriso curto.
Nem o pequeno riso que ele tentava esconder quando Isabela respondia às provocações.
Foi uma gargalhada.
Aberta.
Descontrolada.
Gabriel se curvou sobre a bancada.
— Sua cara!
Isabela passou a mão na bochecha.
— Ah, é?
— Não!
Ele tentou fugir.
Isabela pegou um pouco de chocolate.
Gabriel correu ao redor da ilha da cozinha.
— Teresa! Ajuda!
— Eu não vou me envolver.
— Traidora!
Isabela alcançou o menino.
Marcou chocolate na testa dele.
Gabriel gritou e riu ainda mais.
— Para!
— Você começou!
— Eu tenho oito anos!
— E eu tenho boa memória!
Gabriel tentou se esconder atrás de Teresa.
A governanta se afastou.
— Não use uma senhora inocente como escudo.
— Ninguém aqui é inocente! — gritou Gabriel.
Isabela começou a rir também.
Nenhum dos dois percebeu quando Dante entrou na casa.
Ele havia voltado quase duas horas antes do normal.
Bruno, um dos homens da segurança, vinha alguns passos atrás falando sobre uma reunião.
— O pessoal de Santos confirmou para amanhã. Ricardo também pediu—
Dante levantou a mão.
Bruno parou.
Uma gargalhada vinha da cozinha.
Dante franziu a testa.
Outra.
Mais alta.
Ele mudou de direção.
Bruno permaneceu no corredor.
Dante chegou à porta da cozinha.
Parou.
Gabriel estava escondido atrás da bancada.
Tinha chocolate na testa, no nariz e na camiseta.
Isabela estava do outro lado, também suja de chocolate.
— Se você sair daí, prometo misericórdia — disse ela.
— Mentira!
— Gabriel Montenegro me chamando de mentirosa?
— Você está com chocolate na mão!
— Provas circunstanciais.
Gabriel riu outra vez.
Dante não se moveu.
Teresa foi a primeira a percebê-lo.
Seu sorriso diminuiu.
— Senhor Dante.
Gabriel virou.
A risada morreu quase imediatamente.
Ele ficou ereto.
O corpo mudou.
— Pai.
Dante olhou para a cozinha.
Depois para o filho.
— O que aconteceu aqui?
Gabriel baixou os olhos para a camiseta.
— Nada.
Dante olhou para Teresa.
— Nada?
Teresa sorriu.
— Nada.
Dante franziu a testa.
Teresa completou:
— Esse é o problema.
Ele olhou para ela.
— Como?
A governanta apontou discretamente para Gabriel.
— O senhor não reconheceu a risada do próprio filho.
O silêncio mudou.
Isabela parou de limpar a própria bochecha.
Gabriel ficou imóvel.
Dante também.
Por alguns segundos, ninguém pareceu saber o que fazer com aquela frase.
Dante olhou novamente para Gabriel.
Havia chocolate no rosto do menino.
O cabelo estava bagunçado.
A camiseta, manchada.
Não parecia o herdeiro Montenegro.
Não parecia o garoto que atravessava aquela casa cercado por adultos cuidadosos para não contrariá-lo.
Parecia apenas uma criança.
Dante tentou lembrar da última vez que o ouvira rir daquele jeito.
Não conseguiu.
Gabriel percebeu que o pai continuava olhando.
— Foi ela que começou.
Isabela imediatamente:
— Mentira.
— Você colocou chocolate no meu nariz!
— Depois que você destruiu minha cozinha.
— A cozinha é minha.
— Tecnicamente, é do seu pai.
Gabriel olhou para Dante.
— A cozinha é minha?
Dante demorou um instante.
— Não.
Isabela sorriu.
— Obrigada.
Gabriel apontou para o pai.
— Você devia ficar do meu lado.
Dante quase respondeu automaticamente.
Então viu a panela.
— Isso é brigadeiro?
Gabriel assentiu.
— Era.
Isabela colocou a mão no peito.
— Eu fiz o possível.
Gabriel riu de novo.
Menos alto.
Mas riu.
Dante ouviu com atenção dessa vez.
Como se estivesse tentando memorizar o som.
Teresa percebeu.
Isabela também.
Dante apenas disse:
— Não destruam a cozinha.
Virou para sair.
Gabriel o chamou.
— Pai.
Dante parou.
Gabriel pegou um brigadeiro torto de um prato.
— Quer?
A pergunta era simples.
Mas Dante olhou para o doce como se não soubesse exatamente o que fazer.
— Tenho uma reunião.
O sorriso de Gabriel diminuiu.
Isabela viu.
Dante também.
Ele olhou para o corredor.
Bruno ainda esperava.
Depois voltou.
Pegou o brigadeiro.
Gabriel observou enquanto ele experimentava.
— E aí?
Dante mastigou.
— Está horrível.
Gabriel abriu a boca, indignado.
Isabela cruzou os braços.
— Eu gostaria de lembrar que seu filho participou da receita.
— A culpa foi dela!
Dante pegou outro.
Gabriel percebeu.
— Se está horrível, por que pegou outro?
Dante já caminhava para fora.
— Para confirmar.
Gabriel sorriu.
Dante saiu.
No corredor, Bruno retomou:
— Como eu dizia, Ricardo—
— Cinco minutos.
Bruno parou.
— Senhor?
Dante olhou para o brigadeiro na mão.
— A reunião espera cinco minutos.
Bruno assentiu.
Dante ficou sozinho por um momento.
Da cozinha veio outra risada.
Dessa vez ele reconheceu imediatamente.
Naquela noite, Isabela encontrou Teresa guardando alguns pratos.
— Você pegou pesado com ele.
Teresa não precisou perguntar sobre quem ela falava.
— Alguém precisava.
— Ele ficou incomodado.
— Ótimo.
Isabela encostou na bancada.
— Você trabalha para ele há quanto tempo?
— Tempo suficiente.
— Isso não é resposta.
— Vinte e sete anos.
Isabela arregalou os olhos.
— Você viu Dante crescer?
— Vi.
— Então pode me explicar uma coisa.
Teresa continuou guardando os pratos.
— Depende.
— Ele ama o Gabriel?
Teresa parou.
Virou lentamente.
— Mais do que qualquer coisa.
Isabela ficou séria.
— Não parece.
— Porque o senhor Dante sabe proteger.
— Mas não sabe ficar.
Teresa sustentou o olhar dela.
Isabela continuou:
— Tem segurança na porta. Motorista. Escola cara. Médico particular. Uma casa enorme.
Olhou para a cadeira onde Gabriel costumava sentar.
— Mas o menino ofereceu um brigadeiro para o próprio pai como se estivesse pedindo uma audiência.
Teresa respirou fundo.
— Dante acredita que manter Gabriel vivo e seguro é a coisa mais importante que um pai pode fazer.
— Não é a única.
— Eu sei.
— Ele sabe?
Teresa não respondeu.
Não precisava.
Mais tarde, Isabela passou pelo escritório.
A porta estava entreaberta.
Dante estava ao telefone.
— Resolva sem envolver Gabriel.
Silêncio.
— Eu não quero ninguém chegando perto dele.
Outro silêncio.
— Não me importa quanto custa.
A voz era fria.
Controlada.
A voz do homem que Isabela imaginava quando ouvia o sobrenome Montenegro.
Ela continuou andando.
Então percebeu algo.
Dante realmente amava Gabriel.
O problema não era falta de amor.
Era que Dante parecia conhecer apenas uma forma de demonstrá-lo:
impedir que o mundo chegasse perto.
Na manhã seguinte, Isabela tomou uma decisão.
Dante apareceu na sala de jantar às sete e quinze.
Gabriel já estava sentado.
Isabela também.
Dante pegou uma xícara de café.
— Bom dia.
Gabriel:
— Bom dia.
Dante virou para sair.
Isabela falou:
— Sente.
Dante parou.
Gabriel levantou os olhos.
Teresa, perto da porta, ficou completamente imóvel.
Dante virou lentamente.
— Como?
Isabela apontou para a cadeira vazia.
— Sente.
— Tenho uma reunião.
— Seu filho está esperando você tomar café com ele.
Gabriel imediatamente baixou os olhos.
— Eu não estou esperando.
Isabela olhou para ele.
— Gabriel.
— Não estou.
— Tudo bem.
Dante observou o filho.
Gabriel pegou um pedaço de pão.
Começou a rasgar em pedaços pequenos.
— Pode ir — disse o menino. — Eu não ligo.
Isabela não falou nada.
Dante também não.
Foi então que ele percebeu.
Gabriel não havia perguntado quando voltaria.
Não reclamara da reunião.
Não pedira que ficasse.
Apenas dizia que não ligava.
Da mesma forma que dizia não ligar quando uma babá ia embora.
Dante colocou a xícara sobre a mesa.
Puxou a cadeira.
Sentou.
Gabriel levantou os olhos.
— Você não tinha reunião?
— Tenho.
— Então?
Dante pegou um pedaço de pão.
— Eles podem esperar dez minutos.
Gabriel tentou esconder o sorriso.
Não conseguiu completamente.
Isabela não comentou.
Teresa saiu discretamente da sala.
Pela primeira vez em muito tempo, Dante tomou café da manhã sentado ao lado do filho.
Não houve grande conversa.
Gabriel reclamou da escola.
Dante perguntou sobre uma prova.
Isabela corrigiu Gabriel quando ele tentou alimentar o cachorro escondido debaixo da mesa.
Nada importante aconteceu.
E talvez justamente por isso fosse importante.
Quando Dante se levantou, Gabriel falou:
— Pai?
— Sim?
— Hoje a gente vai fazer brigadeiro de novo.
Isabela virou.
— A gente?
Gabriel ignorou.
— Se você chegar cedo, pode provar.
Dante olhou para o filho.
— Vou tentar.
Gabriel imediatamente respondeu:
— Tanto faz.
Dante quase sorriu.
— Claro.
Saiu.
Isabela observou Gabriel voltar ao café.
— “Tanto faz”?
— O quê?
— Nada.
— Você é irritante.
— Bom saber que algumas coisas não mudam.
Gabriel mordeu o pão.
Mas estava sorrindo.
Isabela olhou para a porta por onde Dante havia saído.
Ela ainda não sabia o que tinha acontecido naquela família.
Não sabia por que Gabriel bloqueava a porta.
Não sabia quem ele temia perder.
E Dante havia deixado claro que não queria que ela procurasse respostas.
Talvez ele estivesse certo sobre uma coisa.
Isabela não precisava conhecer todo o passado para perceber o problema diante dela.
Gabriel tinha um pai disposto a enfrentar qualquer pessoa para protegê-lo.
Mas talvez ninguém tivesse ensinado Dante Montenegro que, às vezes, proteger um filho também significava simplesmente sentar à mesa.
E ficar.
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