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"O Chefe da Máfia Me Contratou Para Ser Sua Esposa" Capítulo 3 — A Cadeira Atrás da Porta

正文开头

Na terceira noite, Isabela percebeu que Gabriel Montenegro tinha um ritual.

Não era nada que Teresa tivesse mencionado.

Nem algo que aparecesse em qualquer lista de tarefas.

Acontecia sempre quase no mesmo horário.

Depois do banho, Gabriel entrava no quarto.

Pegava uma cadeira pesada perto da escrivaninha.

Arrastava até a porta.

E a encaixava sob a maçaneta.

Na primeira noite, Isabela achou estranho.

Na segunda, observou de longe.

Na terceira, decidiu entrar antes que ele terminasse.

Gabriel estava de costas.

Usava uma camiseta azul e uma calça de pijama.

Empurrava a cadeira com esforço.

— Posso saber o que você está fazendo?

Ele se virou rápido.

— Nada.

Isabela olhou para a cadeira.

Depois para ele.

— Parece um nada bem pesado.

Gabriel segurou o encosto.

— Vai embora.

— Eu só vim dizer que a Teresa deixou seu remédio pra alergia na mesa.

— Eu sei.

Isabela entrou dois passos.

A cadeira bloqueava quase toda a passagem.

— Você faz isso toda noite?

— Faço o quê?

— Coloca a cadeira na porta.

Gabriel ficou imóvel.

A expressão mudou.

Não era irritação.

Era defesa.

— Não mexe.

Isabela levantou as mãos.

— Eu não mexi.

— Então não chega perto.

Ela parou.

— Tudo bem.

Gabriel continuou segurando a cadeira.

Isabela percebeu que os dedos dele estavam tensos.

Brancos nas pontas.

— Ela não vai sair andando sozinha — disse, tentando aliviar.

Gabriel não reagiu.

— Gabriel?

— Eu falei que está tudo bem.

A voz dele saiu mais dura.

Isabela olhou para a porta.

— Você tem medo de alguém entrar?

O rosto do menino fechou.

— Não.

— Então por que—

— EU NÃO TENHO MEDO!

O grito cortou o quarto.

Isabela ficou em silêncio.

Gabriel parecia ter se assustado com a própria voz.

Respirava rápido.

Os olhos estavam fixos nela.

Esperando alguma bronca.

Talvez esperando que ela insistisse.

Isabela apenas assentiu.

— Certo.

Ele franziu a testa.

— Certo?

— Você disse que não quer falar.

Ela deu um passo para trás.

— Então não vamos falar.

Gabriel continuou desconfiado.

— Você não vai contar pro meu pai?

— Contar o quê?

— Da cadeira.

Isabela olhou novamente para ela.

— Se você quiser que eu conte, eu conto.

— Eu não quero.

— Então não conto.

Gabriel ficou alguns segundos sem resposta.

Isabela apontou para o copo d’água ao lado da cama.

— Toma seu remédio.

Ele pegou o comprimido.

Engoliu.

Isabela chegou à porta.

— Boa noite.

Gabriel não respondeu.

Ela saiu.

A cadeira foi arrastada de novo.

Dessa vez, Isabela ouviu o barulho do lado de fora.

Pesado.

Raspando no piso.

Depois silêncio.

Ela ficou parada no corredor.

Por algum motivo, aquele som incomodou mais do que os pratos quebrados, as mentiras ou o celular escondido.

Porque aquilo não parecia um jogo.

Parecia necessidade.

Na manhã seguinte, Gabriel agiu como se nada tivesse acontecido.

正文1

Desceu para o café.

Sentou.

Comeu pão com manteiga.

Reclamou do suco.

Discutiu com Isabela porque não queria levar o casaco.

Tudo normal.

Ou o mais próximo de normal que existia naquela casa.

— Está frio — disse Isabela.

— Não está.

— Você ainda nem saiu.

— Eu sei quando está frio.

— Impressionante. Além de tudo, meteorologista.

Gabriel revirou os olhos.

— Eu não vou usar.

Isabela colocou o casaco sobre a mochila.

— Então leva.

— Pra quê?

— Pra quando descobrir que eu estava certa.

Gabriel pegou a mochila.

— Você gosta muito de estar certa.

— Gosto.

— Irritante.

— Também já ouvi essa.

Ele saiu.

Isabela observou até a porta fechar.

Teresa entrou com uma bandeja.

— Ele dormiu bem?

A pergunta pareceu casual.

Isabela virou o rosto.

— Sempre pergunta isso?

Teresa parou.

— Às vezes.

Isabela hesitou.

— Ele coloca uma cadeira atrás da porta todas as noites.

Teresa ficou quieta.

Só por um instante.

Mas foi o suficiente.

— Você sabia.

Teresa colocou a bandeja sobre a mesa.

— Gabriel tem alguns hábitos.

— Isso não é um hábito comum.

— Nesta casa, poucas coisas são comuns.

Isabela cruzou os braços.

— Teresa.

A governanta respirou fundo.

— Não é minha história para contar.

— Eu não pedi a história toda.

— Mas vai acabar pedindo.

Isabela não respondeu.

Teresa olhou para ela com gentileza.

— Se quiser um conselho, não tente arrancar respostas dele.

— Eu não vou.

— Bom.

— Mas também não vou fingir que não vejo.

Teresa assentiu lentamente.

— Talvez seja por isso que ele ainda não conseguiu fazer você ir embora.

Naquela tarde, Gabriel voltou da escola mais quieto.

Não reclamou.

Não provocou.

Nem tentou esconder nada.

Jogou a mochila perto da escada e subiu.

Isabela o encontrou meia hora depois sentado no chão do quarto.

Tinha uma caixa de brinquedos aberta.

Mas não brincava.

— Aconteceu alguma coisa?

— Não.

— Está bem.

Isabela começou a sair.

— Isabela.

Ela parou.

Foi a primeira vez que ele chamou seu nome sem estar reclamando.

— Sim?

Gabriel continuou olhando para os brinquedos.

— Você já ficou presa em algum lugar?

Isabela não respondeu imediatamente.

— Presa como?

— Num quarto.

O corpo dela ficou alerta.

— Não.

Gabriel apertou uma pequena peça de plástico entre os dedos.

— Nem quando era criança?

— Não.

Ele assentiu.

— Por quê?

Gabriel deu de ombros.

— Nada.

Isabela entrou um pouco mais.

— Você já ficou?

— Eu falei que é nada.

Ela parou.

Não insistiu.

— Tudo bem.

Gabriel levantou os olhos.

Parecia irritado com a facilidade com que ela aceitava os limites.

— Você sempre fala “tudo bem”.

— Nem sempre.

— Fala sim.

— Só quando você deixa claro que não quer conversar.

Gabriel olhou de volta para os brinquedos.

— As outras perguntavam até eu falar.

正文2

— E você falava?

— Não.

— Então não funcionava.

Ele quase sorriu.

Quase.

— Você acha que é muito esperta.

— Bastante.

Gabriel soltou um pequeno riso pelo nariz.

Depois apontou para a porta.

— Pode ir.

Isabela saiu.

Mas a pergunta ficou.

Você já ficou presa em algum lugar?

Naquela noite, a casa ficou mais silenciosa do que de costume.

Dante não havia voltado.

Teresa se recolheu cedo.

Os seguranças faziam rondas do lado de fora.

Isabela estava no próprio quarto lendo quando ouviu um barulho.

Baixo.

Quase imperceptível.

Ela levantou a cabeça.

Nada.

Voltou ao livro.

Então ouviu de novo.

Uma voz.

Vinha do quarto de Gabriel.

Isabela saiu para o corredor.

A porta estava fechada.

A cadeira provavelmente ainda estava atrás dela.

Ela se aproximou.

— Gabriel?

Nenhuma resposta.

A voz veio outra vez.

Fraca.

— Não...

Isabela encostou o ouvido na porta.

— Gabriel?

Silêncio.

Depois:

— Não me deixa aqui...

O coração dela apertou.

— Gabriel, abre a porta.

Nada.

Ela segurou a maçaneta.

Tentou.

A porta não abriu.

A cadeira segurava.

— Gabriel!

A voz lá dentro ficou mais aflita.

— Não... não...

Isabela bateu.

— Gabriel, sou eu.

Nenhuma resposta consciente.

Ele ainda estava dormindo.

Ela olhou para o corredor.

— Teresa!

A governanta apareceu alguns segundos depois, já de robe.

— O que aconteceu?

— Ele está tendo um pesadelo. A porta está bloqueada.

Teresa ficou pálida.

— Gabriel!

As duas empurraram a porta.

A cadeira cedeu alguns centímetros.

Depois mais.

Isabela conseguiu passar pelo vão.

Gabriel estava encolhido na cama.

Suado.

As mãos apertavam o lençol.

— Não me deixa...

Isabela foi até ele.

— Gabriel.

O menino virou o rosto.

— Abre...

Ela congelou.

— O quê?

— Abre a porta...

Isabela sentou na beirada da cama.

— Está aberta.

Gabriel continuou dormindo.

— Está tudo bem.

Ela encostou a mão de leve no colchão.

Não nele.

— Você está no seu quarto.

Gabriel respirou rápido.

— Ela vai embora...

Isabela olhou para Teresa.

A governanta ficou imóvel perto da porta.

— Quem vai embora? — perguntou Isabela, baixo.

Gabriel não respondeu.

Apenas se virou.

Então, sem abrir os olhos, estendeu a mão.

Os dedos encontraram os de Isabela.

Apertaram.

Forte.

Isabela ficou parada.

Não tentou soltá-lo.

— Eu estou aqui — disse.

Gabriel respirou.

Aos poucos, o corpo relaxou.

— Não vai...

Isabela engoliu em seco.

— Agora não.

Poucos minutos depois, ele voltou a dormir profundamente.

Teresa se aproximou.

— Ele faz isso muitas vezes?

A pergunta de Isabela saiu quase num sussurro.

Teresa evitou responder diretamente.

— Menos do que antes.

— Antes de quê?

A governanta olhou para a mão de Gabriel ainda presa à de Isabela.

— Você precisa perguntar ao pai dele.

Isabela levantou os olhos.

Nesse momento, uma sombra apareceu no corredor.

Dante.

Ainda usava a camisa escura do trabalho.

Tinha acabado de chegar.

正文3

Parou na porta.

Viu Teresa.

Viu a cadeira deslocada.

Depois viu Isabela sentada na cama.

E a mão do filho agarrada à dela.

O rosto dele ficou completamente imóvel.

— O que aconteceu?

Isabela falou baixo.

— Pesadelo.

Dante entrou.

Olhou para Gabriel.

Por alguns segundos, toda a dureza dele desapareceu.

— Ele falou alguma coisa?

Isabela hesitou.

— Falou.

Dante ergueu os olhos.

— O quê?

— “Não me deixa aqui.”

A expressão dele mudou.

Pouco.

Mas mudou.

— Mais alguma coisa?

— “Abre a porta.”

Dante desviou o olhar para a cadeira.

O silêncio pesou.

Isabela percebeu.

Ele sabia.

Não apenas que Gabriel tinha pesadelos.

Sabia exatamente do que eram.

Na manhã seguinte, ela esperou Dante no escritório.

Ele entrou pouco depois das oito.

Parou ao vê-la.

— Precisa de alguma coisa?

— Sim.

Dante tirou o paletó.

— Fale.

Isabela fechou a porta.

— O que aconteceu com Gabriel?

Ele não respondeu.

— Ontem à noite ele pediu para abrirem a porta.

Dante colocou alguns documentos sobre a mesa.

— Crianças têm pesadelos.

— Crianças também não costumam bloquear a própria porta toda noite.

O olhar dele ficou frio.

— Teresa falou com você?

— Não o suficiente.

— Então deixe assim.

Isabela respirou fundo.

— Se eu vou cuidar dele, preciso entender o que está acontecendo.

— Não.

Ela ficou surpresa com a rapidez da resposta.

— Não?

Dante se aproximou.

— Sua função é cuidar do meu filho.

— É exatamente o que estou tentando fazer.

— Então cuide.

A voz dele ficou mais baixa.

Mais perigosa.

— Não investigue.

Isabela sustentou o olhar.

— Você acha que eu estou curiosa?

— Acho que você está ultrapassando um limite.

— Eu acho que seu filho tem medo de alguma coisa.

Dante apertou a mandíbula.

— Chega.

Isabela percebeu que havia tocado no ponto certo.

Ou errado.

— Ele perguntou se eu já fiquei presa num quarto.

O silêncio caiu.

Dessa vez, Dante não conseguiu esconder a reação.

Os olhos dele se moveram.

Só um pouco.

Mas Isabela viu.

— O que aconteceu? — repetiu.

Dante ficou vários segundos sem falar.

Quando respondeu, a voz estava completamente controlada.

— Cuide dele.

Pegou os documentos.

— E não procure respostas para perguntas que ninguém fez.

Isabela ficou parada.

Dante abriu a porta.

A conversa estava encerrada.

Ela saiu.

No corredor, viu Gabriel descendo a escada.

Uniforme impecável.

Mochila nas costas.

Como se nada tivesse acontecido.

Ao vê-la, ele parou.

Olhou para ela.

Depois desviou o olhar.

— Eu falei alguma coisa ontem?

Isabela se aproximou.

— Você estava dormindo.

— Eu sei.

— Então por que pergunta?

Gabriel apertou a alça da mochila.

— Porque às vezes eu falo.

Isabela pensou.

— Nada que você precise se preocupar.

Ele a observou.

— Você vai contar pra alguém?

Ela olhou na direção do escritório de Dante.

— Não.

Gabriel assentiu.

Começou a descer.

No último degrau, parou.

— Isabela?

— Sim?

Ele não olhou para ela.

— Hoje à noite...

Fez uma pausa.

— Não mexe na cadeira.

Isabela respondeu sem hesitar.

— Não vou mexer.

Gabriel continuou andando.

Ela ficou olhando para ele.

A cadeira atrás da porta já não parecia uma mania.

Era uma memória.

E, pela primeira vez desde que entrara naquela casa, Isabela teve certeza de uma coisa:

Gabriel Montenegro não estava tentando expulsar o mundo porque era cruel.

Estava tentando controlar a única coisa que ainda acreditava poder controlar.

Quem entrava.

Quem saía.

E quem tinha permissão para deixá-lo primeiro.

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