"O Filho Que Nasceu no Casamento do Meu Ex" Parte 4
Henrique não desviou os olhos da tela.
A mensagem tinha sido enviada seis meses antes, poucos dias antes da assinatura definitiva do divórcio.
O assunto era simples.
"Sobre a agenda da senhora Isabela."
Abaixo, o texto era curto demais para explicar tudo e específico demais para ser ignorado.
Vitória havia escrito para uma assistente da equipe executiva pedindo que qualquer solicitação feita por Isabela fosse encaminhada primeiro para o setor de comunicação.
Henrique levantou os olhos.
"Por que você fez isso?"
Vitória se aproximou.
"Porque naquela época tudo virava crise."
"Não foi isso que eu perguntei."
"Henrique, nós estamos num hospital. Tem gente olhando."
Ele ignorou.
"Por que você filtrava os contatos dela?"
Vitória apertou os lábios.
"Porque você mesmo disse que não queria mais ser interrompido por discussões pessoais durante o expediente."
Henrique ficou em silêncio.
Aquilo era parcialmente verdade.
E justamente por isso doía mais.
Ele se lembrava de ter dito, numa tarde particularmente ruim, que não queria mais mensagens de Isabela entrando no meio de reuniões.
Mas nunca autorizara ninguém a controlar tudo o que ela tentava enviar.
Mariana puxou o celular de volta.
"Tem mais."
Vitória virou o rosto.
"Mariana, isso é ridículo."
"Ridículo foi você passar meses fingindo que era apenas funcionária."
Mariana abriu outra tela.
"Essa aqui é uma cópia automática do calendário da Isabela."
Henrique se aproximou.
Havia um compromisso marcado numa clínica particular nos Jardins.
Consulta ginecológica.
Dois dias antes do divórcio.
Henrique franziu a testa.
"Eu nunca vi isso."
"Porque foi cancelado."
Mariana tocou na tela.
"Olha quem fez a alteração."
A conta vinculada à modificação pertencia ao gabinete de comunicação executiva.
Na época, Vitória comandava o setor.
Henrique ficou imóvel.
"Você cancelou uma consulta dela?"
Vitória respirou fundo.
"Eu não sabia o que era."
"O calendário dizia."
"Eu recebia dezenas de notificações por dia."
"Então por que mexeu nessa?"
Vitória perdeu a paciência.
"Porque ela usava qualquer desculpa para entrar na sua agenda."
Isabela observava da cama.
Até então, permanecera em silêncio.
Agora ergueu os olhos.
"Você cancelou a consulta porque eu tinha pedido que Henrique fosse comigo."
Vitória olhou para ela.
"Você não sabe disso."
"Eu lembro exatamente."
Isabela ajeitou Gabriel nos braços.
"Eu estava atrasada havia semanas. Tinha dores, náusea e um cansaço que eu não entendia."
Henrique sentiu o peito apertar.
Isabela continuou.
"Eu mandei uma mensagem para ele."
"Eu nunca recebi."
Ela olhou diretamente para Henrique.
"Eu sei."
A frase caiu pesada.
Mariana abriu outro registro.
"Também foi encaminhada para o setor dela."
Henrique pegou o celular.
Leu.
A mensagem de Isabela era curta.
"Preciso que você vá comigo ao médico. Não quero ir sozinha."
Ele leu de novo.
E uma terceira vez.
"Por que isso nunca chegou até mim?"
Vitória fechou os olhos por um instante.
"Porque vocês estavam se separando."
"Isso não responde."
"Porque qualquer contato entre vocês terminava em briga."
"Quem decidiu isso?"
"Eu estava tentando proteger você."
Henrique levantou a cabeça.
"De uma consulta médica?"
Vitória deu um passo para trás.
"Você está distorcendo tudo."
"Estou vendo registros."
"Registros sem contexto."
"Então me dá o contexto."
Vitória não respondeu.
No corredor, uma enfermeira passou mais devagar do que o necessário.
Mariana fechou a porta.
O quarto ficou tenso.
Isabela olhou para Gabriel.
"Não adianta."
Henrique virou o rosto.
"O quê?"
"Não adianta você agir como se tivesse acabado de descobrir que eu não conseguia falar com você."
"Eu não sabia disso."
"Você não quis saber."
"Isso é diferente."
"Não para quem estava do outro lado."
Henrique ficou calado.
Isabela sentiu a raiva antiga voltando.
Não explosiva.
Pior.
Uma raiva cansada.
"Eu dizia que minhas mensagens não chegavam."
Henrique desviou o olhar.
"Eu dizia que sua agenda mudava sem ninguém me avisar."
Ele lembrava.
"Eu dizia que Vitória sabia de decisões da nossa vida antes de mim."
A mandíbula dele endureceu.
"Você dizia que eu estava paranoica."
Vitória cruzou os braços.
"Porque você estava."
Isabela olhou para ela.
Dessa vez, havia algo gelado no rosto da ex-senhora Vasconcelos.
"Você ainda não percebeu que não tem mais o direito de me chamar de nada."
Vitória riu.
"Você sempre gostou de fazer cena."
Mariana deu um passo à frente.
"Escolhe muito bem a próxima frase."
Isabela levantou uma mão.
"Deixa."
Vitória se aproximou da cama.
"Você quer transformar isso numa vitória?"
Isabela não respondeu.
"Quer usar esse bebê para provar que todo mundo estava errado sobre você?"
Henrique olhou para Vitória.
"Chega."
Ela ignorou.
"Um bebê não transforma você novamente em uma Vasconcelos."
O quarto ficou em silêncio.
Isabela olhou para ela por alguns segundos.
Depois sorriu.
Calma.
Quase aliviada.
"Ainda bem. Eu passei seis meses tentando deixar de ser uma."
Vitória perdeu o sorriso.
Henrique sentiu a frase como um golpe.
Isabela continuou.
"Eu não quero sua casa."
Olhou para Henrique.
"Não quero seu sobrenome."
Depois voltou os olhos para Vitória.
"E não quero seu casamento."
Vitória ficou rígida.
"Então por que guardar o filho dele em segredo?"
"Porque meu filho não é moeda."
"Se for filho dele."
Henrique virou o rosto bruscamente.
"Vitória."
Ela percebeu que havia ido longe demais.
Mas já estava irritada.
"Você quer mesmo fingir que isso não precisa ser confirmado?"
Isabela respondeu sem elevar a voz.
"Você parece muito interessada num exame que não tem nada a ver com você."
Vitória congelou.
Por um instante, ninguém falou.
Henrique observou.
Havia alguma coisa naquela reação.
Algo diferente de ciúme.
Medo.
Ele conhecia Vitória havia anos.
Sabia quando ela ficava irritada.
Sabia quando ficava ofendida.
Aquilo era outra coisa.
Mariana também percebeu.
"Você está com medo de quê?"
Vitória soltou uma risada curta.
"Vocês perderam a noção."
"Então responde."
"Eu acabei de casar."
Vitória apontou para o próprio vestido.
"A imprensa está esperando no Palácio Tangará. O conselho inteiro está lá. E meu marido está aqui discutindo a gravidez escondida da ex-mulher."
"Não foi isso que eu perguntei."
Henrique deu um passo em direção a ela.
"Por que esse bebê te assusta?"
Vitória empalideceu.
"Não me assusta."
"Então para de falar como se a existência dele ameaçasse alguma coisa."
Ela desviou o olhar.
Foi o suficiente.
Henrique percebeu.
"Tem alguma coisa que eu não sei."
"Henrique..."
"Tem."
Vitória respirou fundo.
"Você está cansado."
"Não muda de assunto."
"Seu pai vai enlouquecer quando souber que você saiu da recepção."
Henrique parou.
Augusto.
A simples menção ao nome mudou o ambiente.
Isabela percebeu.
Vitória também.
Ela tentou usar aquilo.
"Você sabe como ele é."
Henrique ficou em silêncio.
"Se houver qualquer dúvida sobre esse bebê, isso precisa ser resolvido em particular."
"Por quê?"
"Porque envolve a família."
"Qual parte da família?"
Vitória fechou os olhos por um segundo.
Tarde demais outra vez.
Mariana olhou para Isabela.
Henrique se aproximou.
"Qual parte?"
Vitória não respondeu.
Ele pegou o celular.
Ligou para o diretor jurídico do Grupo Vasconcelos.
Vitória estendeu a mão.
"Henrique, não."
Ele ignorou.
A ligação foi atendida rapidamente.
"Eduardo."
Do outro lado, o advogado pareceu surpreso.
"Senhor Henrique? Achei que estivesse na recepção."
"Preciso de uma informação."
Vitória ficou imóvel.
Henrique continuou.
"Quero saber se existe alguma cláusula no acordo patrimonial da família relacionada ao nascimento de descendentes diretos."
Silêncio.
Henrique franziu a testa.
"Eduardo?"
O advogado respirou fundo.
"Existe."
Vitória baixou os olhos.
Henrique sentiu o estômago apertar.
"Que cláusula?"
"Isso não é assunto para telefone."
"É agora."
Outra pausa.
Então veio a resposta.
"O primeiro filho biológico reconhecido do senhor entra automaticamente como beneficiário de uma parte do Fundo Patrimonial Vasconcelos."
Henrique ficou parado.
Isabela ergueu o rosto.
Mariana parou de respirar por um instante.
Vitória permaneceu absolutamente imóvel.
Henrique falou mais baixo.
"Que parte?"
"Participação econômica e direitos futuros vinculados às ações familiares."
"Quanto?"
O advogado hesitou.
"Uma parcela relevante."
"Quanto, Eduardo?"
A resposta veio seca.
"Hoje, algo em torno de setecentos milhões de reais em ativos vinculados."
O quarto inteiro pareceu encolher.
Henrique olhou para Gabriel.
Depois para Vitória.
Ela estava pálida.
Agora ele entendia.
Não era apenas ciúme.
Não era apenas o casamento.
Era dinheiro.
Poder.
Controle.
Se Gabriel fosse seu filho, a estrutura patrimonial da família mudaria imediatamente.
E alguém ali já sabia disso.
Henrique desligou.
Vitória deu um passo para trás.
"Você está interpretando errado."
Ele encarou a mulher com quem havia acabado de se casar.
"Você sabia dessa cláusula?"
Ela não respondeu.
Henrique se aproximou mais.
"Vitória."
Nada.
"Você sabia?"
A porta se abriu antes que ela respondesse.
Um homem de terno escuro entrou, acompanhado por dois seguranças.
Henrique virou o rosto.
Augusto Vasconcelos.
Seu pai.
O presidente do grupo olhou primeiro para Henrique.
Depois para Isabela.
Por fim, para o bebê em seus braços.
O rosto dele não demonstrou surpresa.
Apenas cálculo.
"Então é verdade."
Henrique estreitou os olhos.
"Como você soube?"
Augusto ignorou a pergunta.
Aproximou-se da cama e olhou diretamente para Gabriel.
"Antes que qualquer coisa saia deste quarto, nós vamos descobrir se esse menino é um Vasconcelos."
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