"O Abraço Dentro do Caixão" Capítulo 5
Isabela esperou Sofia dormir antes de sair do quarto.
Levou o pen drive para o escritório de Henrique e fechou a porta por dentro.
A casa inteira estava em silêncio.
Ela acendeu apenas o abajur da mesa.
Por alguns segundos, ficou olhando para o objeto preto entre os dedos.
Henrique tinha escondido aquilo no quarto da filha.
Não no cofre.
Não no escritório.
Não na empresa.
No quarto de Sofia.
Como se soubesse que alguém procuraria em todos os outros lugares.
Isabela ligou o computador.
As mãos tremiam.
Inseriu o pen drive.
Havia poucas pastas.
Uma delas tinha apenas uma palavra.
ISABELA.
Ela clicou.
Dentro havia um único arquivo de vídeo.
A data da gravação era três dias antes de Henrique cair no Grupo Montenegro.
Isabela sentiu o peito apertar.
Abriu.
A imagem apareceu.
Henrique estava sentado no próprio escritório da Faria Lima.
Não vestia paletó.
A gravata estava frouxa.
O rosto parecia cansado.
Mas o que mais assustou Isabela foi o olhar.
Henrique parecia um homem que sabia estar sendo observado.
Ele respirou fundo diante da câmera.
"Isabela."
Ela levou a mão à boca.
Ouvir a voz dele daquele jeito foi pior do que esperava.
Por um instante, esqueceu a investigação.
Esqueceu o hospital.
Esqueceu tudo.
Só viu o marido.
Henrique continuou.
"Se você está assistindo a isso, então alguma coisa aconteceu."
Isabela ficou imóvel.
"Eu espero estar exagerando. Espero que eu apague este vídeo daqui a alguns dias e ria de mim mesmo."
Ele fez uma pausa.
"Mas, se eu não fizer isso, você precisa saber de algumas coisas."
Isabela se aproximou da tela.
Henrique olhou para o lado.
Como se tivesse ouvido algum barulho fora da sala.
Depois voltou.
"Eu descobri movimentações financeiras irregulares dentro do Grupo Montenegro."
Isabela fechou os olhos.
Então era verdade.
Henrique sabia.
"Não estamos falando de um erro contábil."
A expressão dele endureceu.
"Mais de oitenta milhões de reais foram desviados através de empresas que praticamente não existem."
Isabela lembrou da conversa com Augusto.
Da clínica médica.
Do medo de Camila.
Tudo começou a se conectar.
Henrique prosseguiu.
"Os pagamentos foram divididos, distribuídos entre empresas diferentes e aprovados por pessoas diferentes."
Ele se inclinou para frente.
"Mas todos os caminhos terminam dentro da nossa estrutura."
Isabela sentiu um arrepio.
"Nossa estrutura" significava o Grupo Montenegro.
Ou a família.
Talvez os dois.
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Eu ainda não tenho provas suficientes para acusar ninguém."
"Então por que gravou isso?", Isabela sussurrou para a tela.
Como se ele pudesse responder.
Henrique continuou.
"Porque, desde que comecei a investigar, coisas estranhas começaram a acontecer."
A respiração dela ficou mais curta.
"Meu escritório foi mexido."
Henrique ergueu um papel.
"Documentos mudaram de lugar."
Ele abaixou a voz.
"E alguém tentou acessar uma pasta que só eu deveria conhecer."
Isabela se afastou da cadeira.
Era muito pior do que imaginava.
Henrique não estava apenas preocupado com dinheiro.
Ele estava sendo vigiado.
"Eu pedi ao Bruno para reforçar minha segurança sem dizer o motivo."
Isabela franziu a testa.
Bruno sabia mais do que tinha contado.
"Também procurei Marcelo."
O nome do advogado a surpreendeu.
"Marcelo Ferraz tem uma cópia de documentos importantes."
Isabela ficou ainda mais alerta.
Henrique olhou diretamente para a câmera.
"Se alguma coisa acontecer comigo, procure o Marcelo."
Ela anotou mentalmente.
"Mas não entregue este pen drive a ninguém."
Henrique fez uma pausa longa.
"Nem para ele."
Isabela congelou.
Aquilo parecia contraditório.
Henrique confiava em Marcelo para guardar documentos.
Mas não o suficiente para entregar tudo.
Por quê?
"Há outra coisa."
Henrique respirou fundo.
"Nos últimos dias, comecei a me sentir mal."
Isabela aproximou o rosto da tela.
"Tontura. Fraqueza. Algumas vezes, visão turva."
Ela sentiu o estômago revirar.
Henrique nunca tinha contado.
"Eu achei que fosse estresse."
Ele soltou um sorriso curto.
"Talvez ainda seja."
O sorriso desapareceu.
"Mas comecei a desconfiar."
Isabela apertou os braços da cadeira.
"Desconfiar do quê?"
Henrique demorou a continuar.
"Que alguém não quer apenas o dinheiro."
A sala pareceu mais fria.
"Talvez alguém queira que eu pare de procurar."
Isabela levou a mão ao peito.
O rosto de Henrique endureceu.
"E talvez essa pessoa esteja disposta a fazer mais do que ameaçar."
Ela se levantou.
"Meu Deus."
Naquele momento, tudo o que parecia exagero virou possibilidade.
O café.
A queda.
A declaração de morte.
O prontuário apagado.
Henrique não tinha sofrido uma simples emergência médica.
Pelo menos ele próprio não acreditava nisso.
O vídeo continuou.
"Eu não sei quem está por trás disso."
Henrique olhou diretamente para a câmera.
"Se soubesse, eu diria."
Isabela percebeu a frustração dele.
"Tenho suspeitas."
Ela prendeu a respiração.
"Mas suspeita sem prova pode destruir uma família."
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.
"Por isso eu não vou colocar nomes neste vídeo."
Isabela quase gritou com a tela.
"Henrique!"
Ela queria um nome.
Qualquer nome.
"Mas você precisa prestar atenção em quem se aproxima."
Henrique apoiou os braços na mesa.
"Especialmente em quem tentar te convencer a parar."
Isabela lembrou de Augusto dizendo para não transformar aquilo em um circo.
Depois, dizendo que ela não sabia no que estava mexendo.
Seu coração acelerou.
Henrique continuou.
"Quem tentar controlar o que você vê."
Augusto novamente.
"Quem tentar decidir por você o que deve ou não ser investigado."
Isabela se levantou devagar.
A imagem do irmão de Henrique no hospital surgiu em sua mente.
Ele aparecera justamente quando Camila estava prestes a falar.
Coincidência?
Talvez não.
Henrique respirou fundo.
Então disse:
"Isabela, se alguma coisa acontecer comigo, não confie em ninguém só porque essa pessoa tem o meu sobrenome."
Ela parou.
A frase ficou suspensa no escritório.
Montenegro.
Henrique estava falando da própria família.
Isabela sentiu as mãos gelarem.
Augusto.
Helena.
Outros parentes.
Quem?
Henrique baixou o olhar.
"Eu queria poder te poupar disso."
A voz dele falhou pela primeira vez.
"Mas, se eu não puder, protege a Sofia."
Isabela começou a chorar.
"Eu vou."
Henrique continuou.
"Ela percebe mais do que a gente imagina."
Isabela pensou na filha dentro do caixão.
Na certeza dela.
Naquela calma impossível.
"Se ela disser que viu alguma coisa, acredita."
Isabela secou as lágrimas.
"Se ela disser que ouviu alguma coisa, escuta."
O coração dela bateu mais forte.
Sofia talvez soubesse mais.
Muito mais.
Henrique aproximou a cadeira da câmera.
"Eu vou tentar resolver isso antes que chegue até vocês."
A tela ficou escura por alguns segundos.
Isabela pensou que o vídeo tinha acabado.
Mas voltou.
Henrique agora estava em outro ângulo.
Parecia ter levantado rapidamente.
A câmera tremia.
"Alguém está no corredor."
Ele olhou para a porta.
Isabela ficou imóvel.
Henrique pegou alguns papéis.
"Preciso parar."
Ele se inclinou para desligar a gravação.
Foi então que Isabela viu.
No canto direito da imagem.
Sobre a mesa.
Uma pasta estava aberta.
Havia vários nomes.
Empresas.
Datas.
Valores.
Ela pausou o vídeo.
Ampliou a imagem.
A resolução piorou.
Mesmo assim, uma linha ainda podia ser lida.
Isabela chegou mais perto.
Seu coração deu um salto.
Ali, em letras pretas, estava escrito:
Rafael Vasconcelos.
Ela congelou.
Voltou alguns segundos.
Assistiu de novo.
Parou.
O nome continuava lá.
Rafael.
O mesmo médico que tinha declarado Henrique morto.
O mesmo homem que jurava que todos os protocolos tinham sido cumpridos.
Isabela sentiu o sangue desaparecer do rosto.
No corredor do hospital, Camila tinha mudado de versão ao ver Augusto.
Mas naquele vídeo, Henrique investigava Rafael antes mesmo de morrer.
Ela arrancou o pen drive do computador.
Pegou o celular.
E ligou para Bruno.
Ele atendeu no segundo toque.
"Isabela?"
"Você sabia que Henrique estava investigando o Rafael?"
Silêncio.
"Bruno?"
Nenhuma resposta.
"Me responde."
Bruno soltou o ar lentamente.
"Eu sabia que ele desconfiava de alguém."
"De Rafael?"
"Isabela..."
"Sim ou não?"
Outra pausa.
"Sim."
Ela fechou os olhos.
"Por quê?"
Bruno demorou tanto que Isabela sentiu o medo voltar.
"Porque Henrique achava que estavam colocando alguma coisa no corpo dele."
Isabela abriu os olhos.
"E quem ele procurou quando começou a desconfiar?"
A resposta veio baixa.
"Dr. Rafael Vasconcelos."
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