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"O Abraço Dentro do Caixão" Capítulo 4

正文开头

Na manhã seguinte, Isabela voltou ao Hospital Santa Cecília antes das sete.

Ela não foi direto para a UTI.

Foi para o setor administrativo.

A mulher da recepção reconheceu seu sobrenome imediatamente.

"Senhora Montenegro, o diretor médico pediu que qualquer solicitação da família fosse encaminhada diretamente para ele."

Isabela colocou a bolsa sobre o balcão.

"Ótimo."

Fez uma pausa.

"Então diga a ele que eu quero o prontuário completo do meu marido."

A atendente hesitou.

"Completo?"

"Completo."

"Isso inclui documentos internos."

"Inclui tudo."

Pouco mais de meia hora depois, Isabela estava sentada em uma sala pequena, acompanhada por um funcionário do jurídico do hospital.

Sobre a mesa havia uma pasta grossa.

Exames.

Prescrições.

Relatórios.

Monitoramento.

Declarações médicas.

E, por último, a certidão de óbito.

Isabela parou quando viu a assinatura.

Dr. Rafael Vasconcelos.

Ela passou o dedo sobre o nome.

Aquela assinatura tinha transformado seu marido em um homem morto.

Mas agora Henrique respirava em uma UTI dois andares acima.

"Esse documento é original?"

O funcionário respondeu com cautela.

"Sim."

"Foi assinado pelo doutor Rafael?"

"Sim."

"Então vocês ainda sustentam que tudo foi feito corretamente?"

O homem evitou o olhar dela.

"Existe uma apuração interna em andamento."

"Isso não responde."

"Senhora Montenegro..."

"Meu marido quase foi enterrado vivo."

O funcionário engoliu em seco.

"Eu entendo a gravidade."

"Não. Ninguém aqui entende."

Isabela virou as páginas.

Tentou se concentrar nos horários.

Henrique dera entrada pouco depois das onze da manhã.

Os primeiros registros mostravam pressão baixa, alteração neurológica e queda progressiva da frequência cardíaca.

Mais tarde, os relatórios ficavam confusos.

Havia intervalos longos demais.

Notas curtas demais.

Algumas páginas pareciam ter sido impressas de sistemas diferentes.

Isabela não era médica.

Mas sabia ler datas.

Horários.

Sequências.

Foi assim que percebeu uma inconsistência.

Às quinze horas e doze minutos, um relatório indicava ausência de pulso detectável.

Às quinze horas e vinte e sete, outro documento registrava parada cardiorrespiratória sem resposta.

A declaração de óbito apontava quinze horas e quarenta.

Isabela voltou algumas páginas.

Algo estava faltando.

"Tem registros da enfermagem?"

"Sim."

"Todos?"

"O prontuário impresso reúne os registros validados."

Ela levantou os olhos.

"O que significa validados?"

O homem ajeitou a gravata.

"Registros oficialmente incorporados ao sistema."

"Então existem registros que não foram incorporados?"

Ele se calou.

Isabela fechou a pasta.

"Quero acesso ao histórico de alterações."

"Isso exige autorização."

"Então consiga."

"Não é tão simples."

Ela se inclinou para frente.

"Meu marido estava vivo dentro de um caixão."

A sala ficou em silêncio.

"Você realmente quer me dizer que ver quem mexeu no prontuário não é simples?"

O funcionário respirou fundo.

"Vou falar com a direção."

Uma hora depois, Isabela conseguiu autorização parcial.

Não recebeu acesso ao sistema.

Mas recebeu uma cópia do relatório de auditoria digital.

Foi ali que encontrou a primeira coisa realmente estranha.

Uma anotação havia sido criada às quinze horas e vinte.

Depois apagada.

Isabela leu devagar.

正文1

"Pulso periférico extremamente fraco."

Seu coração disparou.

Leu de novo.

A anotação tinha sido feita vinte minutos antes da declaração oficial de morte.

"Quem escreveu isso?"

O analista de sistemas apontou para um código.

"Enfermeira Camila Nogueira."

"Ela estava no plantão?"

"Sim."

"Por que apagaram?"

O homem hesitou.

"Não aparece como exclusão comum."

"Como aparece?"

"Como correção administrativa."

"Feita por quem?"

Ele clicou em outra linha.

A expressão dele mudou.

"Não consta nome."

Isabela ficou séria.

"Como assim?"

"Foi feita por um acesso de nível superior."

"De qual setor?"

"Administração clínica."

Isabela sentiu o estômago apertar.

"Então alguém leu uma anotação dizendo que Henrique ainda tinha pulso e fez essa frase desaparecer."

O analista não respondeu.

Não precisava.

Isabela se levantou.

"Quero falar com Camila Nogueira."

A enfermeira estava trabalhando naquele dia.

Foi encontrada no setor de clínica médica, no sexto andar.

Camila parecia ter pouco mais de trinta anos.

Cabelos presos.

Rosto cansado.

Quando ouviu o nome Montenegro, ficou pálida.

Isabela percebeu imediatamente.

"Você estava com meu marido naquele dia."

Camila olhou ao redor.

"Eu cuidei de muitos pacientes."

"Henrique Montenegro."

A enfermeira apertou a prancheta contra o peito.

"Sim."

Isabela mostrou a folha impressa.

"Essa anotação é sua?"

Camila leu.

Seu rosto mudou ainda mais.

"Eu não posso discutir prontuário fora dos canais oficiais."

"Eu já estou dentro dos canais oficiais."

"Então fale com a direção."

"Eu estou falando com você."

Camila tentou sair.

Isabela bloqueou o caminho.

"Você escreveu que meu marido tinha pulso."

"Senhora..."

"Vinte minutos depois disseram que ele estava morto."

Camila baixou a voz.

"Não faça isso aqui."

"Então onde?"

A enfermeira respirou rápido.

"Eu preciso trabalhar."

Isabela percebeu que ela estava com medo.

Não desconfortável.

Com medo.

"Camila."

A enfermeira parou.

"Olha para mim."

Ela obedeceu.

"Henrique estava vivo quando você escreveu isso?"

Camila ficou em silêncio.

Os olhos se encheram de lágrimas.

Isabela se aproximou.

"Por favor."

Camila mordeu o lábio.

"Eu senti alguma coisa."

O coração de Isabela acelerou.

"O quê?"

"Era muito fraco."

"Um pulso?"

Camila assentiu quase imperceptivelmente.

"Eu registrei porque achei que precisava ser reavaliado."

"Você chamou alguém?"

"Chamei."

"Quem?"

Camila começou a responder.

Então olhou para o fim do corredor.

Seu corpo inteiro enrijeceu.

Isabela percebeu.

"Camila?"

A enfermeira desviou os olhos.

"Eu me enganei."

Isabela franziu a testa.

"O quê?"

"Eu estava cansada."

"Você acabou de dizer que sentiu um pulso."

"Talvez tenha sido impressão."

"Por que mudou de ideia?"

"Eu não mudei."

"Mudou agora."

Camila apertou a prancheta.

"Preciso ir."

Isabela segurou seu braço.

"Quem você viu?"

"Me solta."

"Quem você chamou naquele dia?"

"Eu não posso ajudar."

"Camila."

A enfermeira se soltou.

"Esquece isso."

Virou e entrou em uma sala.

Isabela ficou parada.

Depois olhou para o mesmo ponto que Camila havia encarado.

No fim do corredor, perto dos elevadores, Augusto Montenegro estava imóvel.

Os dois se olharam.

Isabela sentiu o sangue esfriar.

Augusto começou a andar em sua direção.

正文2

"O que você está fazendo aqui?"

"Eu poderia perguntar a mesma coisa."

"Vim ver Henrique."

"Na clínica médica?"

Augusto franziu a testa.

"Eu estava procurando o setor administrativo."

Isabela ergueu a folha.

"Interessante."

"Que papel é esse?"

"Uma anotação que alguém apagou."

Augusto não reagiu.

"Do prontuário do Henrique."

O olhar dele mudou.

"Isabela."

"Uma enfermeira registrou que ele ainda tinha pulso."

Augusto ficou em silêncio.

"Pouco depois, a frase desapareceu."

"Você precisa entregar isso à polícia."

"Vou entregar."

"Então não confronte funcionários sozinha."

Isabela se aproximou.

"Por quê?"

"Porque você não sabe no que está mexendo."

A frase fez seu corpo inteiro endurecer.

"Você sabe?"

Augusto percebeu tarde demais como soara.

"Não foi isso que eu quis dizer."

"Então explica."

"Henrique pode ter sido vítima de um erro enorme."

"Erro?"

Isabela encarou o irmão do marido.

"Ou de alguma coisa pior?"

Augusto passou a mão pelo rosto.

"Não tire conclusões."

"Foi exatamente isso que todo mundo me pediu desde que encontrei meu marido vivo dentro de um caixão."

Ela guardou o papel.

"Eu cansei."

Naquela noite, Isabela voltou para a mansão do Jardim Europa com Sofia.

Teresa ficou no hospital.

Henrique continuava estável, mas ainda inconsciente.

A casa parecia diferente.

Grande demais.

Silenciosa demais.

Isabela levou a filha para o quarto.

"Você quer dormir comigo hoje?"

Sofia balançou a cabeça.

"Quero ficar aqui."

"Tem certeza?"

"Tenho."

Isabela beijou sua testa.

Quando estava saindo, Sofia chamou.

"Mamãe."

Isabela voltou.

"O que foi?"

A menina olhava para o criado-mudo.

"Papai deixou uma coisa para mim."

Isabela parou.

"Que coisa?"

"Eu esqueci."

"Esqueceu o quê?"

"Antes de sair naquele dia, ele veio aqui."

Sofia apontou para uma pequena caixa de música sobre a cômoda.

"Ele mexeu nela."

Isabela sentiu o coração acelerar.

"Você viu?"

"Vi."

"O que ele fez?"

"Colocou alguma coisa dentro."

Isabela atravessou o quarto.

A caixa era antiga.

Madeira clara.

Uma bailarina girava quando Sofia dava corda.

Henrique tinha comprado aquilo em Campos do Jordão anos antes.

Isabela abriu.

Não havia nada além do mecanismo e duas pulseiras infantis.

Sofia se aproximou.

"Não é aí."

"Então onde?"

"Embaixo."

Isabela virou a caixa.

Havia uma pequena tampa escondida na base.

Ela nunca tinha percebido.

Empurrou com a unha.

A madeira se soltou.

Dentro do compartimento havia um objeto preto, pequeno, envolvido em plástico.

Isabela retirou.

Era um pen drive.

Sofia olhou para a mãe.

"Foi isso que o papai escondeu."

Isabela segurou o dispositivo com força.

Na lateral, havia uma única palavra escrita à mão.

Isabela.

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