"O Abraço Dentro do Caixão" Capítulo 3
Três dias antes do próprio velório, Henrique Montenegro ainda ocupava a sala principal do trigésimo segundo andar da sede do Grupo Montenegro, na região da Faria Lima.
Naquela manhã, porém, ele não parecia o homem seguro que todos conheciam.
A tela do computador exibia uma sequência de transferências.
Pequenas demais para chamar atenção isoladamente.
Grandes demais quando somadas.
Henrique passou os olhos pelos números outra vez.
Depois uma terceira.
No canto inferior da planilha, o total permanecia o mesmo.
Mais de oitenta milhões de reais.
Henrique se recostou na cadeira.
"Isso não faz sentido."
Bruno Ferreira, seu motorista e segurança de confiança, estava próximo à porta.
"Algum problema?"
Henrique não respondeu de imediato.
Abriu outro arquivo.
Depois outro.
As transferências saíam de empresas diferentes do grupo.
Construção.
Logística.
Participações financeiras.
Em seguida, o dinheiro passava por companhias menores.
Empresas que, no papel, prestavam serviços de consultoria.
Mas Henrique nunca ouvira falar de nenhuma delas.
"Bruno."
"Sim."
"Fecha a porta."
Bruno obedeceu.
Henrique girou o monitor.
"Você conhece algum desses nomes?"
Bruno se aproximou.
Leu devagar.
"Não."
"Nem eu."
"Pode ser fornecedor novo."
"Não é."
Henrique abriu um documento.
"Todas foram criadas nos últimos dezoito meses."
Bruno franziu a testa.
"E quem aprovou os pagamentos?"
Henrique ficou em silêncio.
Esse era o problema.
As autorizações tinham passado por diferentes diretores.
Mas todas acabavam convergindo para acessos internos de nível máximo.
Acessos que só existiam em um grupo muito pequeno.
Henrique.
Augusto.
A diretoria financeira.
E dois procuradores jurídicos.
Bruno percebeu a expressão dele.
"É alguém de dentro."
Henrique apoiou os cotovelos na mesa.
"Tem que ser."
"Vai chamar a polícia?"
"Não."
Bruno arregalou os olhos.
"Oitenta milhões, Henrique."
"Se eu fizer isso agora, quem está roubando vai apagar tudo."
Henrique fechou a planilha.
"Eu quero saber até onde isso vai."
Bruno permaneceu sério.
"Isso pode ser maior do que dinheiro."
Henrique olhou para ele.
"Eu sei."
Naquela tarde, Henrique saiu da sede sem avisar a diretoria.
Mandou Bruno estacionar em um prédio discreto nos Jardins.
No quarto andar funcionava o escritório de Marcelo Ferraz, advogado da família Montenegro havia quase vinte anos.
Marcelo recebeu Henrique pessoalmente.
"Você devia ter me ligado antes."
"Não podia."
Marcelo fechou a porta.
"Então é grave."
Henrique colocou um pen drive sobre a mesa.
"Quero que você guarde isso."
Marcelo não tocou no objeto.
"O que tem aí?"
"Documentos internos."
"De quê?"
"Desvio."
Marcelo ergueu os olhos.
"Quanto?"
"Mais de oitenta milhões."
A expressão do advogado mudou.
"Você tem certeza?"
"Tenho."
Marcelo se sentou.
"E quem fez?"
"Ainda não sei."
"Alguma suspeita?"
Henrique ficou em silêncio.
Marcelo apoiou as mãos sobre a mesa.
"Henrique."
"Não quero acusar ninguém sem prova."
"Mas você está pensando em alguém."
Henrique desviou o olhar.
Marcelo entendeu.
"Alguém da família?"
Henrique não respondeu.
O silêncio respondeu por ele.
Marcelo soltou o ar devagar.
"Isso muda tudo."
"Por isso eu vim."
Henrique tirou outra pasta da bolsa.
"Também quero alterar este documento."
Marcelo abriu.
Era uma declaração vinculada ao controle de determinadas ações do Grupo Montenegro.
O advogado leu duas páginas.
Depois levantou a cabeça.
"Você quer mudar as condições de sucessão?"
"Quero."
"Agora?"
"Agora."
Marcelo franziu a testa.
"Isso pode criar uma guerra dentro da família."
"Talvez a guerra já tenha começado."
Marcelo observou Henrique por alguns segundos.
"Você está com medo?"
Henrique deu um sorriso sem humor.
"Estou começando a ficar."
Quando voltou à empresa, já era noite.
A maioria dos funcionários tinha ido embora.
O andar da presidência estava quase vazio.
Henrique saiu do elevador e percebeu algo imediatamente.
A porta de sua sala estava entreaberta.
Ele tinha certeza de que havia trancado.
Bruno levou a mão discretamente para dentro do paletó.
"Fica atrás de mim."
Henrique ignorou.
Entrou primeiro.
As luzes estavam apagadas.
Bruno acendeu.
Por alguns segundos, nada pareceu fora do lugar.
Então Henrique viu.
Uma gaveta estava aberta.
Papéis haviam sido reposicionados.
Uma pequena moldura com uma foto de Isabela e Sofia estava caída sobre a mesa.
Henrique parou.
"Alguém entrou aqui."
Bruno verificou a sala.
"Não tem ninguém."
Henrique foi até o armário lateral.
Abriu.
A pasta que guardava cópias das auditorias internas tinha sido mexida.
"Procuraram alguma coisa."
Bruno se aproximou.
"Levaram?"
Henrique conferiu.
"Não."
"Então não acharam."
Henrique olhou para o computador.
Ou talvez tivessem encontrado exatamente o que queriam.
Naquela noite, Henrique chegou à mansão do Jardim Europa depois das dez.
Isabela o esperava na sala.
"Você nem avisou que ia se atrasar."
"Desculpa."
"Está acontecendo alguma coisa?"
Henrique tirou o paletó.
"Não."
Isabela cruzou os braços.
"Você é péssimo mentindo para mim."
Henrique sorriu de leve.
"Desde quando?"
"Desde sempre."
Ele se aproximou.
Beijou a testa dela.
"Foi só um dia ruim."
Isabela segurou o braço dele.
"Henrique."
"Depois eu te conto."
"Quando?"
"Quando eu tiver certeza."
A frase não tranquilizou Isabela.
Antes que pudesse insistir, passos pequenos apareceram no alto da escada.
Sofia desceu segurando um coelho de pelúcia.
"Você chegou."
Henrique olhou para ela.
"Por que ainda está acordada?"
"Eu estava esperando."
Isabela colocou as mãos na cintura.
"Alguém deveria estar dormindo há mais de uma hora."
Sofia ignorou.
"Você prometeu terminar a história."
Henrique olhou para Isabela.
"Eu prometi."
Ela suspirou.
"Dez minutos."
Sofia sorriu.
Henrique segurou a mão da filha.
Mas, em vez de subir direto, ele se ajoelhou diante dela.
Ficou alguns segundos apenas olhando para seu rosto.
Sofia estranhou.
"Que foi?"
"Nada."
"Você está estranho."
Henrique sorriu.
"Você está ficando muito esperta."
"Eu já sou esperta."
Ele riu.
"Isso é verdade."
No quarto, Henrique deitou ao lado da filha.
Leu duas páginas.
Depois parou.
Sofia virou o rosto.
"Você não está lendo."
Henrique percebeu que estava olhando para o nada.
"Desculpa."
"Você está com medo?"
A pergunta o pegou de surpresa.
"Por que perguntou isso?"
"Porque quando você fica preocupado, você aperta a boca assim."
Henrique passou a mão pelo rosto.
"Você observa tudo, não é?"
Sofia assentiu.
"Papai, você está com medo?"
Henrique ficou em silêncio por alguns segundos.
Depois segurou a mão dela.
"Só tenho medo de não conseguir proteger você e sua mãe."
Sofia perdeu o sorriso.
"Proteger de quê?"
Henrique percebeu que tinha ido longe demais.
"De nada que você precise se preocupar."
"Você vai embora?"
"Não."
"Promete?"
Henrique olhou nos olhos dela.
"Prometo que vou fazer tudo para voltar para você."
Sofia apertou a mão dele.
"Mesmo se todo mundo disser que você foi embora?"
Henrique congelou.
A menina tinha entendido mais do que ele queria.
Ele passou o polegar sobre seus dedos.
"Se um dia alguém disser alguma coisa que seu coração não acredita, você olha com atenção."
Sofia franziu a testa.
"Como assim?"
"Você presta atenção."
"Em quê?"
"Em tudo."
Henrique beijou a testa dela.
"E não fica com medo."
Na manhã seguinte, Henrique saiu cedo.
Às nove e vinte, participou de uma reunião da diretoria.
Às dez e quinze, pediu café.
Às dez e vinte e oito, Bruno percebeu que ele estava pálido.
"Você está bem?"
Henrique soltou a caneta.
"Estou."
Não estava.
Sua visão começou a escurecer.
O som ao redor ficou distante.
Henrique tentou se levantar.
A cadeira bateu para trás.
"Henrique?"
Augusto se levantou do outro lado da mesa.
Henrique levou a mão ao peito.
Respirou com dificuldade.
Depois caiu.
A sala virou caos.
"Chama uma ambulância!"
"Henrique!"
"Afasta!"
Bruno se ajoelhou ao lado dele.
Henrique ainda estava consciente.
Por poucos segundos.
Seus olhos procuraram alguma coisa.
Ou alguém.
Depois se fecharam.
Horas mais tarde, no Hospital Santa Cecília, Isabela ouviu que seu marido não tinha resistido.
Dr. Rafael Vasconcelos assinou a declaração.
A família recebeu o corpo.
E dois dias depois, Henrique Montenegro estava em um caixão.
Agora, sentada diante da UTI, Isabela reconstituía tudo dentro da cabeça.
A estranha preocupação dos últimos dias.
A frase para Sofia.
O jeito como Henrique evitara contar o que estava acontecendo.
Nada parecia coincidência.
Isabela se levantou.
Foi até Augusto.
"Eu quero entrar no escritório dele."
Augusto virou.
"Agora?"
"Agora."
"Por quê?"
"Porque Henrique sabia de alguma coisa."
Augusto ficou sério.
"Do que você está falando?"
Isabela olhou diretamente para ele.
"Meu marido não tinha medo de morrer."
Fez uma pausa.
"Ele tinha medo de alguém."
Augusto não respondeu.
Isabela continuou.
"E se ele avisou a própria filha antes de cair, então o que aconteceu com Henrique pode não ter sido uma morte mal diagnosticada."
Ela respirou fundo.
"Pode ter sido planejado."
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