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"O Abraço Dentro do Caixão" Capítulo 2

正文开头

A primeira sirene cortou a noite poucos minutos depois.

Quando a ambulância entrou na Casa Funeral São Gabriel, ninguém mais chorava pela morte de Henrique Montenegro.

Agora todos gritavam para salvá-lo.

Dois socorristas atravessaram o salão com uma maca, seguidos por uma médica do atendimento móvel.

"Todo mundo para trás!"

Isabela segurava Sofia contra o peito enquanto os profissionais cercavam Henrique.

A menina tremia, mas não desviava os olhos do pai.

A médica encostou dois dedos no pescoço dele.

Depois abriu uma maleta, colocou eletrodos em seu tórax e observou o monitor portátil.

Seu rosto mudou.

"Tem atividade cardíaca."

Teresa levou a mão à boca.

Gabriel ficou imóvel.

Isabela sentiu os joelhos fraquejarem.

"Ele está vivo?"

"Temos pulso, mas está extremamente fraco."

"Ele está vivo?"

A médica olhou para ela.

"Sim."

Isabela soltou um som que parecia metade choro, metade grito.

Sofia apenas fechou os olhos.

Como se tivesse acabado de ouvir a confirmação de algo que já sabia.

Os socorristas transferiram Henrique para a maca.

"Precisamos sair agora."

Isabela tentou acompanhar.

"Eu vou com ele."

"Uma pessoa."

"Sou a esposa."

Sofia agarrou seu vestido.

"Mamãe."

Isabela olhou para a filha.

Por um segundo, ficou dividida entre os dois.

Teresa se aproximou.

"Vai com Henrique. Eu fico com ela."

Isabela se abaixou e beijou Sofia.

"Eu vou trazer seu pai de volta."

A menina segurou o rosto da mãe.

"Ele já voltou."

Isabela não conseguiu responder.

Correu atrás da maca.

Do lado de fora, a movimentação começava a chamar atenção.

Alguns convidados filmavam com os celulares.

Um funcionário do Grupo Montenegro tentava impedir gravações.

"Guardem os telefones, por favor!"

Mas era tarde.

Henrique Montenegro, presidente de um dos maiores grupos privados de São Paulo, tinha sido retirado vivo do próprio velório.

A notícia não demoraria a chegar à imprensa.

A ambulância saiu em alta velocidade em direção ao Hospital Santa Cecília.

Durante o trajeto, Isabela ficou espremida contra a parede lateral enquanto os socorristas trabalhavam.

"Pressão caindo."

"Setenta por quarenta."

"Oxigênio."

Isabela olhava para Henrique.

O homem que duas horas antes ela acreditava que enterraria na manhã seguinte agora tinha uma máscara de oxigênio sobre o rosto.

"Henrique."

Ela segurou a mão dele.

Dessa vez, não estava fria.

"Eu estou aqui."

O monitor continuou emitindo sinais lentos.

Isabela apertou os dedos dele.

"Você vai voltar para mim."

Quando chegaram ao Hospital Santa Cecília, uma equipe já aguardava na entrada da emergência.

As portas se abriram.

Henrique desapareceu por um corredor.

Isabela tentou segui-lo.

Uma enfermeira a impediu.

"A senhora precisa esperar."

"Eu sou a esposa dele."

"Eu entendo."

"Então me deixa entrar!"

"Senhora Montenegro, eles precisam estabilizá-lo."

Isabela bateu a mão contra a parede.

"Ele passou dois dias dentro de um caixão!"

A enfermeira ficou em silêncio.

Foi naquele momento que a frase realmente atingiu Isabela.

Dois dias.

Henrique tinha sido declarado morto naquele mesmo hospital.

Ela lembrava de cada minuto.

正文1

O quarto.

Os aparelhos.

O lençol branco.

O médico dizendo que não havia mais nada a fazer.

Isabela encostou as costas na parede.

A tristeza começou a se transformar em outra coisa.

Raiva.

Quarenta minutos depois, Teresa chegou com Sofia e Gabriel.

Logo atrás veio Augusto Montenegro.

O irmão mais novo de Henrique atravessou a recepção ainda usando o terno do velório.

"Onde ele está?"

"Na emergência."

"Quem está cuidando dele?"

"Eu não sei."

Augusto olhou para os funcionários.

"Quero o diretor médico aqui."

Isabela virou para ele.

"Eu quero outra pessoa."

Augusto franziu a testa.

"Quem?"

"Rafael."

O nome caiu entre os dois.

Dr. Rafael Vasconcelos.

O médico que dois dias antes havia declarado Henrique morto.

Augusto respirou fundo.

"Isabela, agora não."

"Agora é exatamente a hora."

"Henrique está lutando pela vida."

"E por que ele está lutando pela vida se um médico deste hospital disse que ele estava morto?"

Augusto não respondeu.

Isabela avançou.

"Eu assinei a liberação do corpo."

"Eu sei."

"Eu escolhi o caixão."

"Isabela..."

"Minha filha passou horas abraçada ao pai dentro de uma funerária porque alguém me disse que meu marido estava morto!"

Sofia abaixou os olhos.

Augusto percebeu.

"Não na frente dela."

Isabela se calou.

Mas sua raiva não desapareceu.

Pouco depois, um médico saiu pela porta da emergência.

"Família de Henrique Montenegro?"

Todos se levantaram.

Isabela chegou primeiro.

"Sou a esposa."

"O senhor Henrique está vivo."

Mesmo já sabendo, ouvir aquilo dentro de um hospital fez Isabela começar a chorar.

"Como ele está?"

"Instável. Muito instável."

"Ele vai sobreviver?"

"Ainda não posso responder."

Augusto se aproximou.

"O que aconteceu?"

"Estamos diante de uma situação extremamente incomum. Há atividade cardíaca, respiração espontânea muito comprometida e sinais de desidratação."

Teresa arregalou os olhos.

"Como um homem declarado morto pode apresentar isso?"

O médico hesitou.

"Precisamos analisar o prontuário anterior."

Isabela percebeu a cautela.

"Você está dizendo que cometeram um erro?"

"Estou dizendo que ainda não sabemos o que aconteceu."

"Mas ele estava vivo."

"Neste momento, sim."

Isabela deu uma risada curta, amarga.

"Neste momento?"

O médico respirou fundo.

"Senhora Montenegro, eu entendo sua revolta."

"Não. Você não entende."

Ela apontou para Sofia.

"Minha filha encontrou o pai vivo dentro de um caixão."

O corredor ficou em silêncio.

Nesse instante, as portas do elevador se abriram.

Dr. Rafael Vasconcelos saiu.

Isabela o reconheceu imediatamente.

O mesmo cabelo grisalho nas têmporas.

Os mesmos óculos.

O mesmo rosto que ela tinha visto dois dias antes.

O homem que olhara nos olhos dela e dissera que Henrique havia morrido.

Isabela caminhou até ele.

Rafael parou.

"Isabela."

Ela lhe deu um tapa.

O som ecoou pelo corredor.

Gabriel arregalou os olhos.

Augusto segurou o braço de Isabela.

"Chega!"

Ela se soltou.

"Você disse que ele estava morto!"

Rafael levou a mão ao rosto.

"Eu sei."

"Você assinou!"

"Assinei."

"Então olha para aquela porta!"

Isabela apontou para a emergência.

"Meu marido está vivo!"

正文2

Rafael permaneceu sério.

"Eu vim assim que fui informado."

"Informado de quê? Que o morto resolveu respirar?"

"Isabela."

"Não fala meu nome!"

Rafael respirou fundo.

"Henrique foi submetido aos protocolos de avaliação."

"Não quero saber de protocolo."

"Você precisa saber."

"Eu preciso saber por que quase enterramos um homem vivo!"

Rafael fechou os olhos por um instante.

"Quando Henrique foi declarado morto, não havia pulso detectável, resposta neurológica ou respiração espontânea."

"E agora?"

"Eu não tenho uma explicação ainda."

"Então encontre uma."

Augusto entrou entre os dois.

"Isso vai ser investigado."

Isabela olhou para ele.

"Vai."

"Mas primeiro precisamos proteger Henrique."

"Proteger de quem?"

Augusto olhou ao redor.

Alguns funcionários observavam.

Do lado de fora do hospital, câmeras de televisão já começavam a aparecer.

"Da imprensa."

Isabela quase riu.

"Você está preocupado com a imprensa?"

"Estou preocupado com o que acontece quando o mercado descobrir que o presidente do Grupo Montenegro, declarado morto há dois dias, está vivo."

"Ele é seu irmão."

"Exatamente."

Augusto abaixou a voz.

"Se isso virar um circo agora, ninguém aqui vai conseguir trabalhar."

Rafael concordou.

"Henrique precisa de tranquilidade."

Isabela olhou para os dois homens.

Por algum motivo, a palavra tranquilidade lhe causou desconforto.

"Eu não quero ninguém escondendo nada."

Augusto respondeu imediatamente.

"Ninguém vai esconder."

Isabela sustentou o olhar dele.

"Espero que não."

As horas seguintes foram intermináveis.

Henrique foi transferido para a UTI.

A imprensa se acumulou diante do hospital.

O Grupo Montenegro divulgou apenas uma nota informando que a família enfrentava uma emergência médica e pedia privacidade.

Pouco depois das três da manhã, o corredor finalmente ficou silencioso.

Teresa dormia sentada.

Gabriel tinha ido buscar café.

Augusto falava ao telefone perto do elevador.

Rafael analisava documentos em outra ala.

Sofia permanecia em uma cadeira diante da porta da UTI.

Os pés não alcançavam o chão.

Isabela sentou ao lado dela.

Durante horas, evitara fazer a pergunta.

Agora não conseguia mais.

"Sofia."

A menina virou o rosto.

"Você não ficou surpresa."

Sofia não respondeu.

"Quando disseram que seu pai estava vivo."

A menina olhou para a porta.

"Eu sabia."

Isabela sentiu um arrepio.

"Como?"

Sofia mexeu os dedos sobre o colo.

"Eu sabia."

"Você ouviu alguma coisa no caixão?"

"Não."

"Sentiu ele respirar?"

Sofia balançou a cabeça.

"Então por quê?"

A menina ficou em silêncio.

Isabela segurou sua mão.

"Filha, olha para mim."

Sofia obedeceu.

"Por que você tinha tanta certeza de que seu pai não estava morto?"

A resposta veio baixa.

"Porque o papai me contou."

Isabela ficou imóvel.

"Contou o quê?"

Sofia olhou rapidamente para Augusto, que ainda falava ao telefone do outro lado do corredor.

Depois se aproximou da mãe.

"Ele falou para eu não contar para ninguém."

O coração de Isabela acelerou.

"Quando?"

"Antes de ir para o trabalho."

"Naquele dia?"

Sofia assentiu.

Isabela apertou a mão da filha.

"O que seu pai falou?"

Sofia hesitou.

"Ele disse que talvez uma coisa ruim acontecesse."

Isabela sentiu o estômago se contrair.

"Que coisa?"

"Eu perguntei se ele ia morrer."

"E o que ele respondeu?"

Sofia baixou ainda mais a voz.

"Ele disse que não."

Isabela mal respirava.

"Então o que ele disse, Sofia?"

A menina olhou novamente para Augusto.

Dessa vez, Isabela acompanhou seu olhar.

O irmão de Henrique continuava de costas.

Sofia apertou os dedos da mãe.

"Ele disse que talvez alguém tentasse fazer todo mundo acreditar que ele tinha morrido."

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