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"O Abraço Dentro do Caixão" Capítulo 1

正文开头

O velório de Henrique Montenegro já durava horas quando os últimos raios de sol desapareceram atrás dos prédios de São Paulo.

Na Casa Funeral São Gabriel, perto do Jardim Europa, dezenas de arranjos de lírios brancos cercavam o caixão aberto no centro do salão principal.

Empresários, políticos, funcionários do Grupo Montenegro e parentes distantes tinham passado por ali desde o início da tarde.

Todos diziam as mesmas frases para Isabela.

"Meus sentimentos."

"Henrique era um grande homem."

"Você precisa ser forte pela Sofia."

Isabela agradecia com a cabeça, porque já não tinha forças para responder.

Seu vestido preto parecia pesado demais sobre o corpo.

Os olhos estavam inchados, a garganta ardia, e havia dois dias ela ainda esperava acordar daquele pesadelo.

Henrique tinha quarenta e dois anos.

Dois dias antes, estava vivo.

Naquela noite, estava deitado dentro de um caixão.

Mas havia alguém naquele salão que não chorava.

Sofia Montenegro.

A menina de oito anos estava parada ao lado do pai desde o começo do velório.

Não se sentara.

Não comera.

Não aceitara água.

E não tirava os olhos do rosto de Henrique.

As pequenas mãos permaneciam apoiadas na borda do caixão, enquanto ela observava cada detalhe do pai como se estivesse esperando alguma coisa.

Teresa Montenegro foi uma das primeiras a perceber.

Aos sessenta e três anos, a tia de Henrique conhecia aquela família o bastante para saber quando o silêncio significava dor.

Mas o silêncio de Sofia parecia diferente.

Teresa se aproximou de Isabela e falou baixo.

"Ela está assim há quanto tempo?"

Isabela olhou para a filha.

"Desde que chegamos."

"Você tentou tirá-la dali?"

"Três vezes."

Teresa franziu a testa.

"E ela não quis?"

Isabela respirou fundo.

"Ela só balança a cabeça."

Do outro lado do salão, duas parentes cochichavam.

"A menina está em choque."

"Ela ainda não entendeu o que aconteceu."

"É muito nova para compreender a morte."

Sofia ouviu.

Mesmo assim, não reagiu.

Continuou olhando para Henrique.

O rosto dele estava sereno demais.

Os cabelos escuros tinham sido penteados para trás.

O terno preto era o mesmo que ele usara no aniversário de casamento no ano anterior.

As mãos tinham sido cuidadosamente posicionadas uma sobre a outra, no centro do peito.

Sofia olhava principalmente para aquelas mãos.

Isabela se aproximou outra vez.

Ajoelhou-se ao lado da filha e segurou seus ombros.

"Filha, vamos sentar um pouco."

Sofia não respondeu.

"Sofia, você está aqui há horas."

Nada.

"Você precisa comer alguma coisa."

A menina finalmente mexeu a cabeça.

Não.

Isabela apertou os lábios.

"Eu sei que você quer ficar com o papai."

Os olhos de Sofia permaneceram fixos no caixão.

"Mas você também precisa descansar."

Sofia falou pela primeira vez em quase uma hora.

"Eu não estou cansada."

A voz era baixa.

Calma demais.

Isabela sentiu um aperto no peito.

"Então vem comigo só por cinco minutos."

Sofia virou o rosto.

"Não."

"Por quê?"

A menina demorou alguns segundos para responder.

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"Porque eu tenho que ficar aqui."

Isabela sentiu o coração doer.

"Ele não vai ficar sozinho."

Sofia olhou de volta para o pai.

"Vai."

Isabela quase não conseguiu respirar.

Abraçou a filha por trás, mas Sofia continuou imóvel.

Alguns convidados começaram a sair para tomar café no jardim lateral da funerária.

Outros foram até a recepção.

O salão, que durante horas estivera lotado, ficou mais silencioso.

Gabriel Almeida, primo de dezenove anos de Sofia, permaneceu sentado perto da porta.

Ele também observava a menina.

Havia alguma coisa estranha naquele comportamento.

Não parecia apenas tristeza.

Sofia se inclinava de vez em quando, aproximando o rosto do pai.

Como se estivesse ouvindo.

Gabriel chegou a se levantar uma vez.

"Sofia?"

Ela nem olhou para ele.

Gabriel voltou a sentar.

Poucos minutos depois, Isabela saiu do salão acompanhada de Teresa.

Uma funcionária da funerária havia chamado as duas para resolver um detalhe relacionado ao horário do sepultamento no dia seguinte.

Antes de sair, Isabela beijou o alto da cabeça da filha.

"Eu volto em dois minutos."

Sofia não respondeu.

O salão ficou quase vazio.

Gabriel mexeu no celular por alguns segundos.

Quando levantou os olhos novamente, Sofia tinha se movido.

Ela segurava a lateral do caixão com as duas mãos.

Gabriel franziu a testa.

"Sofia?"

A menina apoiou um pé na estrutura de madeira.

Gabriel se levantou imediatamente.

"Sofia, não."

Ela subiu.

"Sofia!"

Gabriel correu.

Mas chegou tarde demais.

A menina passou uma perna sobre a borda do caixão e entrou.

O grito de Gabriel atravessou o salão.

"Tia Isabela!"

Várias pessoas voltaram correndo.

Isabela apareceu primeiro.

O que viu fez todo o sangue desaparecer de seu rosto.

Sofia estava deitada dentro do caixão.

Ao lado do pai.

A cabeça apoiada no peito de Henrique.

Os pequenos braços envolvendo o corpo dele.

Exatamente como fazia quando acordava assustada durante uma tempestade e corria para a cama dos pais.

"Sofia!"

Isabela correu.

"Meu Deus, Sofia, sai daí!"

Teresa entrou logo atrás.

Outros parentes começaram a se aproximar.

Gabriel estava pálido.

"Ela entrou do nada. Eu tentei impedir."

Isabela estendeu os braços.

"Filha, vem com a mamãe."

Sofia apertou Henrique ainda mais.

"Não."

"Sofia, agora!"

A voz de Isabela falhou.

"Por favor."

Duas tias se aproximaram do caixão.

Uma delas estendeu as mãos para puxar a menina.

Teresa levantou o braço de repente.

"Espera."

Todos pararam.

Isabela virou para ela.

"O quê?"

Teresa não respondeu.

Seu olhar estava preso dentro do caixão.

Mais especificamente, no braço direito de Henrique.

Ela deu um passo à frente.

Depois outro.

O rosto perdeu a cor.

"Não."

Isabela sentiu um arrepio.

"Teresa?"

A mulher apontou.

"A mão dele."

Ninguém entendeu.

Gabriel se aproximou.

Foi então que percebeu.

Antes, as duas mãos de Henrique estavam cruzadas sobre o peito.

Todos tinham visto.

Teresa tinha permanecido no salão quando os funcionários da funerária terminaram de arrumar o corpo.

Ela sabia exatamente como Henrique estava posicionado.

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Mas agora sua mão direita não estava mais sobre o peito.

O braço estava aberto.

Curvado ao redor de Sofia.

A mão descansava nas costas da menina.

Não parecia ter escorregado.

Não estava caída ao lado do corpo.

Estava apoiada nela.

Como se Henrique estivesse abraçando a filha.

Uma das tias levou a mão à boca.

"Não..."

Gabriel recuou.

"Isso estava assim antes?"

Teresa balançou a cabeça lentamente.

"Não."

O salão inteiro ficou em silêncio.

Isabela tentou racionalizar.

"Talvez o braço tenha caído quando Sofia entrou."

Teresa olhou para ela.

"Não caiu."

"Teresa..."

"Eu vi quando posicionaram Henrique."

A voz dela tremia.

"As duas mãos estavam juntas."

Isabela sentiu as pernas enfraquecerem.

Uma mulher atrás delas começou a rezar baixinho.

Outro parente saiu correndo para chamar um funcionário.

Isabela se aproximou do caixão.

"Sofia."

A menina continuava com o rosto encostado no peito do pai.

"Sofia, olha para mim."

Nada.

"Filha."

Sofia finalmente levantou os olhos.

Não parecia assustada.

Parecia tranquila.

"Papai não quer que eu tenha medo."

Isabela sentiu um frio atravessar o corpo inteiro.

"Não fala isso."

"Mas é verdade."

"Sofia, seu pai..."

Ela não conseguiu terminar.

Sofia voltou a encostar a cabeça nele.

"Ele está aqui."

Isabela fechou os olhos por um segundo.

"Filha, eu sei que você sente muita falta dele."

"Não."

Sofia ergueu o rosto outra vez.

Dessa vez havia confusão em seus olhos.

"Mamãe..."

Isabela percebeu a mudança imediatamente.

"O quê?"

Sofia tocou o peito do pai.

Depois o pescoço.

Então olhou diretamente para a mãe.

"Ele está quente."

Ninguém respirou.

Isabela ficou imóvel.

"Sofia..."

"Ele está quente, mamãe."

Teresa avançou.

"Isabela."

"Não."

"Encosta nele."

"Não."

"Encosta."

Isabela começou a tremer.

Seu marido tinha sido declarado morto dois dias antes.

Ela estivera no hospital.

Tinha assinado documentos.

Tinha escolhido aquele caixão.

Tinha passado horas ao lado do corpo dele.

Aquilo era impossível.

Mesmo assim, sua mão se moveu.

Devagar.

Muito devagar.

Isabela se inclinou sobre o caixão.

Os dedos tocaram o pescoço de Henrique.

Nada.

Ela prendeu a respiração.

Mudou a posição dos dedos.

Esperou.

Um segundo.

Dois.

Três.

Então sentiu.

Uma pressão quase imperceptível.

Fraca.

Tão fraca que ela acreditou ter imaginado.

Isabela congelou.

"Teresa..."

A tia se aproximou.

"O que foi?"

Isabela pressionou novamente.

Lá estava.

Um pulso.

Lento.

Quase inexistente.

Mas estava ali.

Os olhos de Isabela se arregalaram.

"Meu Deus."

Gabriel avançou.

"O quê?"

Isabela começou a chorar.

"Tem pulso."

Ninguém entendeu.

Teresa segurou o braço dela.

"O quê?"

"Ele tem pulso!"

O salão explodiu em gritos.

"Chamem uma ambulância!"

"Chamem alguém!"

"Meu Deus!"

Gabriel saiu correndo em direção à recepção.

Isabela segurou o rosto do marido com as duas mãos.

"Henrique!"

Sofia continuava abraçada a ele.

"Papai."

"Henrique, me escuta!"

Nenhuma resposta.

Isabela aproximou o ouvido da boca dele.

Nada.

Então, de repente, o peito de Henrique se moveu.

Foi pequeno.

Brusco.

Quase invisível.

Mas todos viram.

Sofia levantou a cabeça.

Isabela parou de respirar.

Henrique Montenegro abriu os lábios.

E puxou uma longa e desesperada respiração para dentro dos pulmões.

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