"A Noiva com o Rosto Machucado" Capítulo 5
Augusto segurou o painel enquanto os invasores reviravam o escritório.
Camila guiou Lívia entre caixas de livros até uma escada de serviço. A madeira rangia sob cada passo, e o pen drive vermelho parecia pesado dentro do bolso da camisa.
No térreo, uma porta dava para o pátio dos fundos. Camila abriu dois centímetros e viu um sedã preto parado junto ao portão.
— Há motorista — sussurrou.
Lívia tirou o telefone do modo silencioso e escreveu para Joana. Enviou localização, placa parcial e uma frase: Caio está falando com os homens dentro do prédio.
Uma sirene respondeu de algum ponto do bairro.
O motorista ligou os faróis.
— Agora — disse Augusto.
Eles saíram pelo pátio e entraram na livraria. Augusto acionou o alarme de incêndio; as luzes piscaram, e uma campainha aguda tomou os corredores.
Os invasores desceram correndo. Um deles empurrou uma estante, mas Camila já tinha aberto a porta principal.
Uma viatura dobrou a esquina. O sedã arrancou sem esperar os homens, que fugiram em direções opostas.
Um agente alcançou o mais jovem antes do cruzamento. O outro desapareceu por uma garagem.
Joana chegou quatro minutos depois. Recebeu o pen drive, lacrou-o diante de Camila e chamou a perícia para o escritório.
— O detido tem ordem de serviço da Ferraz Segurança — informou. — Empresa terceirizada do grupo de Caio.
— Ele estava ao telefone com Caio — disse Lívia.
— Seu relato entra agora. O áudio do aparelho dele pode confirmar.
Augusto olhou para a camisa de Teresa nos ombros da sobrinha.
— Você quer parar?
— Quero encontrar meu pai.
Roberto estava na sede da Valença Desenvolvimento às duas e vinte da manhã. Sentado sozinho na sala de reuniões, tinha espalhado contratos sobre a mesa e retirado o smoking; usava a camisa amarrotada e a gravata solta.
Quando Lívia entrou, ele se levantou.
— Essa camisa era da sua mãe.
— E a assinatura dela apareceu num contrato feito depois que morreu.
Roberto ficou branco.
Camila colocou uma cópia sobre a mesa. Augusto permaneceu perto da porta, deixando o espaço central para Lívia.
— Você deu sua senha do cofre para alguém? — ela perguntou.
— Sônia conhecia parte. Caio trouxe um especialista quando atualizamos o sistema.
— E o aditivo?
Roberto leu a data. Passou o dedo pela assinatura.
— Nunca vi isso.
— Há quanto tempo você assina coisas sem ver?
Ele empurrou uma pilha de papéis.
— Eu estava tentando manter seiscentos empregos.
— Usando o patrimônio que mamãe deixou para mim.
— O fundo estava parado.
— Estava protegido.
Roberto contornou a mesa.
— Caio ofereceu capital quando nenhum banco aceitava nosso risco. Ele parecia amar você.
— E quando eu disse que tinha medo dele?
O pai parou.
— Eu achei que eram conflitos normais.
— Você achou conveniente.
Augusto fechou os olhos por um instante. Camila manteve a atenção nos papéis.
Roberto apoiou as duas mãos na mesa.
— Sim. O empréstimo dependia do casamento. Eu sabia.
Lívia puxou uma cadeira, mas não sentou.
— Sônia receberia dois milhões e quatrocentos mil pela minha assinatura.
— Eu descobri hoje.
— Você aceitou vender a chave. Ela escolheu o preço.
— Não diga isso.
— Como prefere chamar?
Roberto abriu a boca e desistiu.
Camila deslizou um termo de cooperação pela mesa.
— O senhor pode entregar espontaneamente e-mails, registros contábeis e acessos. Também pode esperar uma ordem judicial. A primeira opção ajuda a investigação e os funcionários que diz proteger.
— Você já preparou isso?
— Preparei no carro.
Roberto leu. Pediu uma caneta e assinou na presença de duas testemunhas da segurança noturna.
Depois tirou uma chave pequena do chaveiro.
— O arquivo da sala do conselho. Sônia nunca soube que guardei cópias em papel.
Lívia recebeu a chave.
— Isso não conserta o que fez.
— Eu sei.
— Não peça que eu cuide do seu arrependimento.
— Não vou pedir.
Augusto se aproximou da mesa.
— O que Caio criou como dívida?
Roberto indicou uma planilha. Três obras tinham custos inflados por fornecedores ligados à Ferraz. O dinheiro emprestado cobria rombos produzidos por contratos escolhidos pelo próprio credor.
— Ele fabricou a urgência — disse Camila.
— E ofereceu Lívia como solução — Augusto completou.
Roberto sentou.
— Sônia trouxe Caio. Disse que a união protegeria todos nós.
Lívia abriu o arquivo do conselho. Encontrou e-mails impressos, atas com anexos faltando e comprovantes de transferências para uma consultoria uruguaia.
Elias chegou pouco depois, escoltado por um agente. Trazia uma pasta de couro presa ao peito e pediu desculpas antes de sentar.
— Dona Teresa me mandou guardar os livros auxiliares — disse. — Eu guardei. Quando seu pai fechou o setor, fiquei com medo de entregar.
Lívia colocou a chave sobre a mesa.
— O que aparece neles?
— Pagamentos duplicados. A Ferraz emprestava dinheiro para cobrir notas emitidas por fornecedores que ela mesma controlava.
Elias mostrou carimbos, datas e contas de passagem. Três engenheiros haviam contestado os valores e sido demitidos por recomendação de Sônia.
— Por que ligou hoje?
— Vi seu rosto no vídeo. A doutora Teresa dizia que documento guardado sem coragem vira papel morto.
Camila pediu autorização para digitalizar os livros. Elias assinou o termo e entregou a pasta sem retirar uma folha.
Roberto reconheceu sua própria rubrica em duas demissões. Não procurou desculpa; anotou os nomes dos engenheiros para localizá-los.
No fundo da gaveta havia uma fotografia de Teresa com os três: Roberto, Augusto e Lívia ainda criança.
Elias identificou outra pasta pelo elástico verde. Dentro estavam relatórios mensais que Teresa enviara ao conselho e versões alteradas depois de suas reuniões.
Em um deles, a expressão “risco de caixa controlado” virara “insolvência iminente”. A mudança justificara o primeiro empréstimo de Caio.
— Quem tinha acesso à versão final? — Camila perguntou.
— Roberto, Sônia e o diretor financeiro indicado pela Ferraz — Elias respondeu.
Roberto fechou os olhos.
— Eu li apenas o resumo.
Lívia colocou as versões lado a lado.
— Seiscentos empregos foram usados para assustar você. E você usou o mesmo medo comigo.
Roberto pediu que Elias listasse os funcionários afastados. O contador começou por três nomes e terminou com dezenove.
Camila recolheu os relatórios em caixas numeradas. Cada pessoa que saíra poderia explicar quando os números começaram a mudar.
Lívia fotografou a lista antes de entregá-la. Reconheceu uma secretária que desaparecera sem despedida e um engenheiro que Sônia chamara de desleal.
— Eu ouvi essas histórias e aceitei a versão dela — disse.
— Agora pode ouvir as outras — Elias respondeu.
Camila marcou entrevistas separadas para impedir que as testemunhas combinassem memórias. Roberto entregou os contatos pessoais que ainda possuía.
Um dos engenheiros atendeu na primeira tentativa. Disse que guardava cópias das medições originais e aceitou entregá-las naquela manhã.
Outro desligou ao ouvir o nome Valença. Lívia enviou uma mensagem curta, reconhecendo que a família permitira sua demissão e oferecendo contato direto com Joana.
Ele respondeu dez minutos depois: “Vou pensar”. Camila registrou a resposta e proibiu novas insistências.
Ela virou a foto para baixo.
— Camila, bloqueie o acesso do meu pai ao fundo.
Roberto não protestou.
— Faça — disse.
O dia começava a clarear entre os prédios quando Joana ligou. O homem detido entregara a senha do próprio telefone.
Havia mensagens de Caio, instruções para destruir o pen drive e um pagamento feito pela Avelar Estratégia.
— Vamos pedir busca na Ferraz e na consultoria — informou a delegada. — Preciso saber se o senhor Roberto coopera.
Lívia olhou para o pai.
Ele empurrou a caixa do arquivo na direção dela.
— Eu salvei os papéis e perdi você.
Lívia segurou a caixa.
— Então comece pelos papéis.
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