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"A Noiva com o Rosto Machucado" Capítulo 4

正文开头

Augusto não entrou no carro.

Ele ampliou a fotografia no telefone de Lívia. O ângulo vinha da calçada oposta à sua casa, e o relógio da câmera marcava oito e quarenta e nove.

— Minha governanta acendeu essa luz antes de sair — disse. — A casa está vazia.

Camila olhou os carros estacionados na garagem.

— Então não vamos para lá.

Joana recebeu a imagem e mandou uma equipe ao endereço. Augusto perguntou se Lívia aguentava mais uma parada.

— Onde?

— No escritório da sua mãe.

Teresa Valença mantivera uma sala acima de uma livraria na Rua Maranhão. Depois de sua morte, Augusto pagara o aluguel e preservara tudo como ela deixara.

Roberto chamava aquilo de mausoléu. Augusto chamava de arquivo.

Camila dirigiu. Lívia viajou no banco de trás, com as cartas sobre os joelhos e o vestido de noiva dobrado dentro de uma capa preta no porta-malas.

À meia-noite, a rua estava molhada por uma chuva fina. Augusto destrancou a porta lateral da livraria e acendeu apenas as luzes da escada.

O escritório cheirava a papel, madeira encerada e ao perfume cítrico que Teresa usava. Lívia parou diante de um casaco bege pendurado atrás da porta.

— Ela deixou isso aqui na última semana.

— Voltaria na segunda — respondeu Augusto.

Lívia tocou a manga. Um botão continuava preso por uma linha vermelha, reparo que a mãe começara e não terminara.

Augusto indicou um armário.

— Há roupas limpas no banheiro. Teresa guardava peças para quando saía do hospital e vinha trabalhar escondida do seu pai.

Lívia trocou o robe por uma calça preta e uma camisa de algodão da mãe. Dobrou as mangas duas vezes.

Quando voltou, Camila fotografava os lacres de um arquivo de aço.

— Alguém tentou abrir — disse a advogada.

— O cofre fica atrás — Augusto respondeu.

O quadro de uma praça antiga cobria um compartimento na parede. A porta estava fechada, mas a moldura tinha um risco novo perto do parafuso.

Augusto girou o disco com números que Lívia reconheceu: a data em que Teresa abrira a primeira empresa.

O cofre continha três pastas, um gravador e uma caixa de madeira. Nenhum pen drive.

— Procurem sinais de retirada — disse Camila.

Lívia abriu a caixa. Encontrou os brincos de pérola que usara no casamento, embora tivesse certeza de que Sônia os tirara dali meses antes.

— Como voltaram?

Augusto examinou o fundo de veludo.

— Porque a caixa tem dois compartimentos.

Ele pressionou uma borda. A placa levantou e revelou um pen drive vermelho preso com fita.

Havia também um bilhete de Teresa.

Augusto, se Roberto assinar outra garantia sem ler, entregue isto a Lívia. Ela saberá qual nome é meu.

Lívia releu.

— Qual nome?

— Vamos descobrir.

Camila desconectou o computador da internet antes de inserir o dispositivo. As pastas estavam organizadas por ano, banco e empreendimento.

正文1

Uma planilha reunia pagamentos da Valença Desenvolvimento para empresas ligadas a Sônia. Outra mostrava empréstimos de Caio com taxas crescentes e garantias escondidas em aditivos.

O arquivo mais recente tinha sido criado seis dias antes de Teresa morrer.

Dentro dele havia um aditivo assinado quatro meses depois do funeral.

Camila aproximou a tela.

— Reconhece a assinatura?

Lívia encostou as mãos na mesa.

O traço imitava a letra da mãe: T alto, curva longa no sobrenome, ponto pequeno sobre o i.

— Está bonita demais.

— Explique.

— Minha mãe assinava os documentos da empresa como Teresa de Almeida. Nunca usava Valença nos papéis privados. Dizia que o nome existia antes do casamento e continuaria depois dele.

Augusto puxou a pasta física do mesmo empreendimento. Todas as assinaturas antigas confirmavam Teresa de Almeida.

Camila salvou cópias em dois dispositivos.

— Um erro de nome não basta sozinho, mas nos dá perícia, data impossível e motivo.

O telefone de Augusto tocou. Era Elias Prado, contador aposentado que trabalhara com Teresa por vinte anos.

— Doutor Augusto, alguém abriu o cofre? — perguntou, sem cumprimentar.

— Estamos diante dele.

— Então saiam.

Augusto colocou no viva-voz.

— Por quê?

— Recebi alerta do sistema antigo. Duas senhas foram digitadas. A sua e a senha de emergência.

— Quem tem a segunda?

— Dona Teresa deu ao senhor Roberto.

Um ruído veio do corredor.

Camila retirou o pen drive e apagou a luz do monitor. Augusto fechou o cofre sem guardar as pastas.

Passos subiram a escada.

Lívia segurou a caixa de madeira contra o peito.

— A saída dos fundos? — Camila perguntou.

— Pelo arquivo morto.

A maçaneta começou a girar.

Augusto empurrou um armário estreito que escondia a passagem para o depósito da livraria. Camila entrou primeiro; Lívia foi atrás.

A porta do escritório cedeu quando Augusto fechou o painel.

Pela fresta, Lívia viu um homem de boné e luvas atravessar a sala. Ele não procurou dinheiro. Foi direto ao cofre.

Outro homem ficou junto à porta, falando ao telefone.

— O vermelho não está aqui — disse.

Uma voz respondeu alta o bastante para atravessar o aparelho.

Lívia reconheceu Caio.

O telefone de Camila mostrou que a mensagem enviada a Joana fora recebida. A delegada pediu que mantivessem silêncio e informou que uma viatura estava a quatro minutos.

Augusto contou os passos dentro do escritório. Dois homens, talvez três; o corredor estreito não permitia confronto seguro.

Lívia encontrou uma janela basculante no depósito. Do lado de fora havia uma escada de ferro presa à parede e, abaixo, o pátio de entregas.

Camila testou a trava. O metal produziu um estalo, e as vozes pararam do outro lado do painel.

— Tem alguém aí — disse um invasor.

Augusto segurou a prateleira. Lívia passou primeiro pela janela e desceu um degrau, ainda com a caixa de madeira presa sob o braço.

O painel rangeu quando o homem começou a empurrá-lo.

Augusto saiu por último e fechou a janela sem bater. No pátio, tirou o paletó cinza e o estendeu sobre a camisa clara de Lívia para esconder a roupa reconhecível da mãe.

Camila localizou o portão de carga, preso por uma corrente. Lívia encontrou uma barra metálica entre as caixas; os três forçaram o elo até abrir passagem para o beco.

Quando os invasores alcançaram a escada, encontraram o quadro balançando e a janela vazia.

No beco, os três seguiram pelas sombras até o portão principal. Augusto manteve o ouvido atento aos passos atrás deles.

— Então ela pegou. Não deixem que chegue à polícia.

O homem diante do cofre despejou as pastas numa bolsa. O segundo verificou o computador, arrancou o cabo e procurou sob a mesa.

Lívia gravou pela fresta com o telefone de Camila. A imagem pegava apenas sapatos e parte das vozes, mas o nome de Caio saíra claro.

Augusto apontou para uma prateleira móvel no depósito. Atrás dela havia um corredor estreito usado pelos livreiros para receber caixas sem passar pela loja.

Antes que saíssem, o invasor abriu a caixa vazia dos brincos. Ele xingou e lançou-a contra a parede.

Lívia fechou os dedos sobre o pen drive no bolso. O bilhete de Teresa estava com Augusto, dobrado dentro da carteira.

No corredor de serviço, três fotografias antigas estavam apoiadas sobre uma caixa. Teresa aparecia inaugurando a livraria, com Lívia aos oito anos segurando uma tesoura grande demais.

— Ela preparou uma saída até para os documentos — Lívia murmurou.

— Sua mãe sempre verificava a porta dos fundos — disse Augusto.

Um estrondo veio do escritório. Os homens haviam encontrado o painel.

Camila empurrou a prateleira de volta e indicou a escada.

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