"A Noiva com o Rosto Machucado" Capítulo 3
Os flashes azuis da viatura atravessavam as cortinas da sala lateral.
Lívia estava sentada diante de Joana com uma toalha fria no rosto. O vestido ocupava outra cadeira, pesado de renda, poeira e champanhe derramado.
Uma funcionária do hotel emprestara a ela um robe branco. O tecido simples trouxe um alívio que o vestido de cinquenta mil reais nunca dera.
— Quero confirmar uma coisa — disse Joana. — A senhora deseja representar criminalmente e pedir medida protetiva?
Lívia olhou para Augusto.
Ele permanecia perto da janela, com as mãos nos bolsos. Não respondeu com o queixo, não indicou uma escolha e não completou a pergunta da delegada.
— Desejo — disse ela.
Joana marcou a opção.
— Caio será encaminhado para exame e depoimento. A confissão registrada pelos convidados pesa, mas precisamos do seu relato, do laudo e das imagens internas.
— E o chute do meu tio?
— Também será apurado. Há contexto, ameaça e proteção de terceiro. Quem decide a consequência é o processo.
Augusto se aproximou.
— Estou disponível.
— Seu advogado também vai gostar de ouvir isso — Joana respondeu.
Alguém bateu à porta. Uma mulher entrou carregando uma pasta vinho e um par de sapatilhas pretas.
Camila Nogueira tinha trinta e oito anos, tranças finas presas num coque baixo e um terno verde-escuro que parecia ter saído do armário poucos minutos antes. Ela colocou as sapatilhas diante de Lívia.
— Sou Camila. Seu tio me ligou, mas quem decide se eu fico é você.
— Você trabalha para ele?
— Já trabalhamos no mesmo caso. Eu represento mulheres em situações como a sua.
Camila abriu a pasta e mostrou três folhas.
— Posso assumir tudo, posso indicar outra profissional ou posso explicar os próximos passos e ir embora. Você escolhe.
Lívia calçou as sapatilhas. O pé descalço tinha um corte pequeno onde perdera o sapato.
— Fica.
Camila sentou ao lado dela.
— Então ninguém conversa com você sem passar por mim, a menos que você queira. Seu casamento civil foi registrado hoje, mas a dissolução pode começar amanhã. A parte criminal segue separada.
— E o fundo da minha mãe?
— Augusto me falou do acordo. Vamos bloquear qualquer tentativa de movimentação ainda esta noite.
Joana guardou o depoimento e deixou as duas conversarem. Antes de sair, informou que Roberto aguardava no corredor.
Lívia apertou a toalha contra a face.
— Ele pode esperar.
Quando a porta fechou, o silêncio ficou maior.
— Eu achei que você me odiava — Lívia disse a Augusto.
Ele retirou as mãos dos bolsos.
— Nunca.
— Você sumiu.
— Seu pai proibiu minhas visitas depois do enterro de Teresa.
— Eu tinha vinte e seis anos. Ele não podia proibir você de falar comigo.
— Bloqueou meus números no plano da família. Devolveu presentes. Disse que minhas perguntas pioravam seu luto.
Lívia olhou para o chão.
— Sônia dizia que você tentava tomar o controle do fundo.
— Eu pedi auditoria. Ela transformou isso em disputa pelo dinheiro.
— Você podia ter tentado mais.
Augusto recebeu a frase sem se defender. Tirou uma chave da carteira e entregou a Camila.
— No porta-malas do meu carro há uma caixa azul. Pode buscar?
Camila examinou os dois e levantou.
— Cinco minutos. A porta fica destrancada.
Augusto puxou a cadeira diante de Lívia.
— Tentei dezessete vezes.
— Eu teria visto.
— Não viu.
Camila voltou com uma caixa de arquivo. Dentro havia cartas fechadas, cartões de aniversário, recibos de encomendas devolvidas e impressões de e-mails que nunca chegaram.
Cada envelope trazia o nome de Lívia na letra inclinada de Augusto.
Ela pegou o primeiro. A data era de três semanas após o funeral da mãe.
— Por que guardou tudo?
— Para entregar quando você perguntasse.
Lívia abriu uma carta ao acaso. Augusto escrevera duas linhas sobre o jardim de Teresa e deixara um telefone que ela nunca conhecera.
No fim, havia uma frase: Se um dia precisar sair de algum lugar, me diga apenas onde.
Lívia fechou os olhos. A toalha caiu no colo.
— Eu parei de responder antes de você parar de escrever.
— Eles cercaram você.
— Eu deixei.
— Você confiou na família.
Camila encostou a pasta na mesa.
— Culpa não é documento útil. Vamos trabalhar com o que abre portas.
Ela pediu a senha do banco, ligou para o plantão judicial e iniciou o pedido de bloqueio preventivo. Lívia confirmou cada autorização com a própria voz.
Roberto bateu outra vez.
— Filha, por favor.
Lívia ficou em pé, atravessou a sala e abriu apenas o suficiente para vê-lo.
O pai segurava o envelope de Augusto. Sônia não estava ao lado dele.
— Onde ela foi?
— Está com um advogado.
— Claro.
— Eu não sabia da comissão.
— Sabia que o empréstimo dependia do casamento?
Roberto demorou.
— Sabia que ajudaria.
— Isso não responde.
— Sim.
Lívia manteve a mão na porta.
— Você me entregou a ele para salvar a empresa.
— Eu acreditava que vocês se amavam.
— Quando contei que ele controlava meu celular, você mandou que eu fosse transparente.
Roberto baixou os olhos.
— Quando contei que ele me assustava, você pediu que eu não dissesse coisas impossíveis de retirar.
— Eu errei.
— Você escolheu não ver.
Ele ofereceu os papéis.
— Quero ajudar.
— Dê seu depoimento. Entregue seus e-mails. Depois espere.
— Até quando?
— Eu não sei.
Lívia fechou a porta.
Camila entregou a ela um saco de papel para guardar o robe e explicou o exame de corpo de delito. Lívia perguntou se precisaria contar tudo outra vez.
— Só o necessário para registrar as lesões — respondeu. — Você pode pedir pausas ou uma profissional mulher. Também pode corrigir qualquer frase antes de assinar.
No instituto médico, a luz branca deixou o hematoma mais nítido. Uma médica mediu a área, fotografou o braço e perguntou se havia outras marcas.
Lívia mostrou a pele avermelhada perto das costelas, onde Caio a segurara durante uma discussão na semana anterior. Na época, ele dissera que brincava; ela escolhera uma blusa fechada para o jantar seguinte.
— Isso entra no laudo? — perguntou.
— Entra o que você autorizar.
Lívia autorizou. Quando assinou, leu cada linha, devolveu a folha para corrigir a palavra "desentendimento" e pediu que constasse "agressão relatada".
Camila fez a alteração diante dela.
Às onze e vinte, deixou o robe e vestiu um casaco preto do uniforme administrativo. Camila saiu primeiro para verificar a garagem.
Augusto abriu a porta do carro e aguardou.
Lívia parou antes de entrar.
Camila entregou a ela uma folha com números de emergência e pediu que escolhesse uma palavra para indicar perigo em mensagens. Lívia escreveu "pérola", referência aos brincos da mãe.
Augusto mostrou o rastreador instalado no carro e ofereceu desligá-lo caso ela se sentisse vigiada.
— Deixa ligado hoje — respondeu. — Amanhã eu decido de novo.
Ele guardou a resposta sem prometer proteção eterna. Camila anotou que toda autorização seria revista a cada vinte e quatro horas.
— Se eu mudar de ideia no meio do caminho?
— A gente muda o caminho — respondeu Camila.
Lívia assentiu e guardou a folha.
Lívia colocou a caixa de cartas no banco traseiro. Algumas continuavam fechadas; pela primeira vez, isso parecia uma escolha sua.
— Posso ficar na sua casa hoje?
— Pelo tempo que quiser.
O telefone dela vibrou dentro da bolsa.
Era uma mensagem de número desconhecido. A foto mostrava a fachada da casa de Augusto, tirada naquela noite, com a luz da cozinha acesa.
Logo abaixo, havia uma frase.
Se você sair com ele, seu tio perde tudo.
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