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"A Noiva com o Rosto Machucado" Capítulo 2

正文开头

O rádio de Murilo chiou no salão.

— Polícia a caminho. Sete minutos.

Caio limpou o paletó como se pudesse apagar a queda com a palma da mão. Dois padrinhos se aproximaram, mas ele ordenou que ficassem onde estavam.

— Quero esse homem detido — disse, apontando para Augusto. — Todos viram o chute.

— E ouviram sua confissão — respondeu Lívia.

As cabeças se viraram. Um convidado guardou o telefone no bolso; uma mulher verificou a própria gravação e afastou-se da família Ferraz.

Caio deu um passo em direção à noiva.

Augusto fechou o espaço.

Murilo abriu os braços entre os dois.

— Ninguém se aproxima de ninguém até a polícia chegar.

— Este hotel pertence ao grupo que financia metade dos seus eventos — Caio disse.

— Hoje pertence ao relatório que vou assinar.

O segundo segurança fechou as portas laterais. Murilo pediu pelo rádio que preservassem as imagens das câmeras e anotassem os nomes dos funcionários no corredor privado.

Sônia alcançou Roberto e falou perto do ouvido dele. Lívia só captou processo, imprensa e acionistas.

O pai avançou com as mãos abertas.

— Vamos para a sala da administração. Só nós quatro.

— Cinco — corrigiu Sônia, incluindo Caio.

— Nenhuma sala fechada — disse Lívia.

Roberto olhou para os convidados.

— Você quer discutir seu casamento diante de todo mundo?

— Ele quis me ensinar diante de uma porta sem câmera. Eu prefiro testemunhas.

Caio soltou o ar pelo nariz.

— Você está fazendo exatamente o que sua mãe fazia. Cria um incêndio e obriga os outros a respirar fumaça.

Augusto se virou tão rápido que Murilo estendeu o braço.

Lívia segurou a manga do tio.

— Deixa. Quero ouvir até onde ele vai.

Caio não esperava aquilo. A boca abriu, mas Sônia se adiantou.

— Chega. Lívia precisa de gelo e privacidade.

— Preciso de uma cópia das câmeras — disse Lívia. — E do nome de cada pessoa que me viu sair daquele corredor.

Murilo assentiu.

— Vou preservar tudo.

— Você trabalha para mim — Caio falou.

— Trabalho para o hotel.

— Quem paga o hotel?

— Hoje, oitenta testemunhas.

Uma sirene subiu pela avenida. O som entrou pelas janelas altas e atravessou o resto de música que ainda vazava dos alto-falantes.

Sônia apertou os dedos sobre a bolsa dourada.

Augusto retirou um envelope do bolso interno do terno. Colocou-o na mesa de apoio, longe das taças molhadas.

— Já que Roberto quer entender, podemos começar.

— O que é isso? — perguntou o irmão.

— O preço do casamento.

Caio avançou.

Murilo o conteve com o antebraço.

Augusto abriu o envelope e espalhou três documentos. O primeiro trazia o timbre da Ferraz Participações; o segundo, o da Valença Desenvolvimento; o terceiro era uma nota de honorários emitida pela Avelar Estratégia Patrimonial.

Roberto pegou o contrato de empréstimo.

— Como conseguiu isso?

正文1

— Lendo o que você assinou.

— São documentos confidenciais.

— A cláusula sete transforma o casamento da sua filha em garantia indireta da dívida.

Lívia aproximou-se. Augusto apontou uma linha marcada de amarelo: a liberação da última parcela dependeria da “consolidação da união entre os núcleos controladores”.

— Isso quer dizer o quê? — ela perguntou.

Roberto passou os olhos pelo texto.

— Linguagem jurídica.

— Eu também sei ler linguagem jurídica — Augusto disse. — Quer dizer que Caio só colocaria mais quarenta milhões na sua empresa depois de se casar com Lívia.

Sônia tentou recolher as folhas.

Augusto cobriu o documento com a mão.

— A sua parte vem agora.

A nota de honorários registrava uma comissão de dois milhões e quatrocentos mil reais, condicionada à assinatura do acordo pós-nupcial.

Roberto leu o nome da esposa duas vezes.

— Sônia?

— Minha consultoria estruturou a negociação. O valor cobre meses de trabalho.

— Você disse que ajudava sem cobrar.

— Eu protegi a empresa que sustenta esta família.

Lívia desdobrou o acordo que quase assinara. Procurou o anexo mencionado na nota e encontrou a transferência das cotas deixadas por Teresa Valença para uma conta de administração conjunta.

Conjunta, no papel. Controlada por Caio, nas regras de movimentação.

— Meu fundo pagaria a dívida — disse Lívia.

Sônia manteve o sorriso.

— O patrimônio continuaria sendo seu.

— Com a senha dele.

— Casamento exige confiança.

— Confiança não precisa de comissão.

Roberto deixou a folha sobre a mesa. Os dedos tremiam perto da assinatura.

— Eu não sabia desse anexo.

Lívia levantou o rosto machucado.

— Você perguntou?

As portas do salão se abriram.

A delegada Joana Meireles entrou com dois agentes. Tinha cachos curtos, alguns fios grisalhos, blazer marrom e um distintivo preso ao cinto.

Ela pediu que ninguém deixasse o local. Mandou desligar os alto-falantes e separar Caio de Lívia.

— Quem fez a chamada?

Murilo se apresentou e começou o relato.

Caio tentou interromper.

Joana apontou para um agente.

— O senhor conversa com ele. A vítima conversa comigo.

— Vítima? — Caio repetiu. — Já decidiu o caso?

— Decidi onde cada um espera.

Ela levou Lívia para uma mesa próxima às janelas, ainda visível do salão. Augusto ficou a dois passos, e Joana perguntou se a jovem queria sua presença.

— Quero.

— Seu pai também?

Lívia olhou Roberto. Ele segurava o contrato como um homem que acabara de receber o resultado de um exame.

— Ainda não.

Joana anotou a resposta sem mudar a expressão.

— Conte desde o começo. No seu ritmo.

Lívia descreveu o documento entregue depois do corte do bolo. Caio dissera que o advogado estava esperando e que a assinatura levaria dois minutos.

Ela pediu para ler. Ele trancou a porta.

Ela pediu seu próprio advogado. Caio riu.

Quando Lívia devolveu a caneta, ele apertou seu braço. Chamou-a de ingrata e lembrou que Roberto perderia tudo se o fundo não entrasse na operação.

正文2

— Eu disse que queria anular o casamento — contou.

Joana ergueu os olhos do bloco.

— O que aconteceu depois?

Lívia tocou o canto da boca.

— Ele me deu um tapa, e minha cabeça bateu no armário. A porta não estava bem fechada quando ele foi buscar o papel. Eu corri.

— Havia alguém no corredor?

— Um garçom passou no começo. Depois, não vi ninguém.

Joana fotografou o rosto, o braço marcado e o vestido rasgado. Recolheu o acordo num envelope transparente e pediu a Augusto os outros documentos.

Sônia apareceu ao lado da mesa.

— Delegada, essa jovem viveu uma carga emocional intensa. Talvez a senhora devesse considerar...

Joana levantou a mão.

— A senhora testemunhou a agressão?

— Não.

— Então aguarde sua vez.

O rosto de Sônia endureceu.

Um agente trouxe o celular de Caio. A tela estava bloqueada, mas uma notificação surgiu antes de apagar: APAGAR PASTA LÍVIA — AGORA.

Joana viu.

— Coloque em modo avião e embale.

Caio protestou do outro lado do salão. Seu advogado já gritava pelo viva-voz de outro aparelho.

Lívia entregou à delegada a cópia do acordo. Joana leu a primeira página, virou para o anexo e parou na identificação do escritório responsável.

— Avelar Estratégia Patrimonial — disse. — A senhora Avelar é sua madrasta?

— É.

— E receberia por esta assinatura?

Lívia apontou para a nota sobre a mesa.

Joana comparou os papéis. Depois chamou um agente e pediu pesquisa cadastral imediata.

O resultado apareceu no tablet em menos de um minuto.

A delegada virou a tela para Augusto.

— A consultoria foi aberta há onze meses. Endereço fiscal dentro de um imóvel da Ferraz Participações.

Joana pediu ao gerente a relação dos acessos ao corredor privado. O crachá de Sônia abrira a porta vinte minutos antes da entrega do acordo; outro acesso, sem identificação, coincidira com a interrupção da câmera.

Murilo confirmou que a manutenção não constava no plano técnico. Caio tentou usar o telefone de um padrinho, mas um agente recolheu o aparelho e anotou o nome do proprietário.

Sônia recuou em direção às portas.

Joana não ergueu a voz.

— Senhora Valença, fique onde está.

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