"A Noiva com o Rosto Machucado" Capítulo 1
A porta do corredor reservado bateu contra a parede às oito e doze da noite.
Lívia Valença surgiu no salão com uma das mãos apertada contra o rosto. A outra segurava a saia do vestido para que a renda não a derrubasse.
O quarteto ainda tocava perto da pista. O primeiro violino perdeu uma nota quando a noiva atravessou o foco de luz, com o coque desfeito e o lado direito do rosto coberto por um hematoma escuro.
Uma mulher junto à mesa de doces riu.
— Olha a fuga da noiva — disse um rapaz, erguendo o celular.
Outros aparelhos apareceram sobre as cabeças. Lívia ouviu a palavra bêbada, depois escândalo, depois alguém perguntar se aquilo fazia parte da festa.
Ela correu mais depressa.
O salto esquerdo soltou do pé. Lívia não voltou para buscá-lo.
No fim do salão, um homem de terno cinza estava ao lado de uma coluna, distante das mesas reservadas à família. Augusto Valença segurava um copo de água e observava a festa como quem contava saídas.
Lívia não o via de perto havia três anos.
Sônia dissera que ele guardava rancor. Roberto afirmara que o irmão transformava preocupação em controle. Caio chamava Augusto de velho ressentido sempre que o nome surgia.
Naquela noite, ele era o único rosto para o qual Lívia conseguia correr.
— Tio Augusto!
O copo caiu da mão dele.
Lívia bateu contra seu peito e agarrou as lapelas do terno cinza-claro. O tecido frio se fechou sob seus dedos.
— Não deixa ele me levar. Por favor.
Augusto segurou os braços dela antes que seus joelhos tocassem o chão.
— Lívia?
Ela tentou esconder o rosto no ombro dele. Augusto viu a mancha roxa, a pele inchada perto do olho e uma linha vermelha na boca.
O homem que mal cumprimentara os parentes durante a cerimônia tocou o queixo da sobrinha com as duas mãos. Esperou até ela permitir que erguesse seu rosto.
— Quem encostou em você?
— Eu quero ir embora.
— Você vai. Quem fez isso?
A música perdeu força atrás deles. Um músico baixou o arco; os demais o acompanharam.
Os convidados se aproximaram em semicírculo. A mulher que rira virou o rosto quando Augusto olhou para ela.
— Eu fiz.
Caio Ferraz atravessou a roda abrindo o paletó azul-marinho. O colarinho estava aberto, mas o nó da gravata permanecia preso no bolso como parte de uma pose ensaiada.
Ele ajeitou o punho direito e sorriu para Augusto.
— Ela precisava aprender quem manda. Estamos casados agora.
Lívia recuou um passo.
Augusto sentiu o movimento pelos dedos dela. Passou a sobrinha para trás do próprio corpo e ficou de frente para Caio.
— Repete.
— Sua audição também envelheceu? — Caio abriu os braços para a plateia. — Foi uma discussão de casal; ela fez uma cena, como sempre faz.
— Você bateu nela?
Caio olhou para uma câmera e escolheu o mesmo sorriso usado nas fotos do altar.
— Dei um tapa. Minha esposa perdeu o controle porque pedi uma assinatura.
Lívia puxou ar entre os dentes.
Caio apontou para ela.
— Vem. Vamos terminar isso num lugar reservado.
Augusto não saiu do caminho.
— Ela disse que quer ir embora.
— Você não tem autoridade aqui.
— Tenho ouvidos.
Caio deu mais um passo.
— Afasta, velho.
Lívia apertou o papel dobrado contra a barriga. Augusto baixou os olhos por um instante e leu duas palavras no cabeçalho amassado: acordo pós-nupcial.
— Foi isso que ela se recusou a assinar?
O sorriso de Caio diminuiu.
— Assunto particular.
— Você acabou de anunciar o tapa diante de oitenta pessoas.
Um homem perto do bar baixou o celular. Outros continuaram filmando.
Caio inclinou a cabeça.
— Cuidado. Há testemunhas.
Augusto olhou a roda de convidados, os garçons parados e Roberto imóvel junto à mesa principal. O pai de Lívia tinha visto o rosto da filha e ainda segurava uma taça de champanhe.
Perto dele, o fotógrafo oficial baixou a câmera. Lívia recordou Caio escolhendo seu lugar nas fotos, corrigindo seu sorriso e apertando sua cintura até que obedecesse.
Na igreja, ele sussurrara que o dia precisava sair perfeito. Roberto observava o resultado daquela perfeição e ainda procurava uma explicação capaz de preservar os negócios.
— Ótimo — respondeu Augusto.
Ele se moveu antes que Caio entendesse.
O chute atingiu o peito do noivo. O sapato de Caio escorregou no mármore; seu corpo caiu de costas e deslizou até a base de uma coluna.
Uma taça se quebrou. Uma convidada gritou.
Augusto não avançou para um segundo golpe. Voltou para Lívia e a protegeu com o braço ao redor dos ombros.
Caio tentou sentar, com uma mão sobre o peito.
— Você me agrediu.
— Eu interrompi você.
— Vou acabar com a sua carreira.
Augusto manteve a voz baixa.
— Se tocar nela outra vez, vai preferir que a polícia chegue antes de mim.
Dois seguranças correram pelo salão. O primeiro, Murilo Reis, levava o rádio junto à boca e mirava Augusto como a ameaça mais fácil de identificar.
— Senhor, solte a noiva e afaste-se.
Lívia envolveu a cintura do tio com os braços.
— Ele não vai me soltar.
Murilo parou.
Caio levantou apoiado na coluna.
— Prendam esse homem. Ele me atacou sem motivo.
— O motivo está no rosto dela — disse Augusto.
Murilo examinou Lívia. Sua postura mudou, embora a mão continuasse perto do rádio.
— Senhora, quer atendimento médico?
Sônia chegou primeiro. O vestido champanhe cintilava sob o lustre, e seus saltos produziram estalos rápidos no piso.
— Lívia, querida, venha comigo. Vamos cuidar disso longe dos convidados.
Lívia pressionou a testa contra o terno de Augusto.
— Não.
— Você está abalada. A cerimônia, o calor, o champanhe...
— Ela não bebeu — disse Augusto.
Sônia fixou os olhos nele. Por um segundo, o sorriso desapareceu.
— Você não devia ter vindo.
— Recebi convite.
— Por engano.
Roberto enfim atravessou o salão. Tinha afrouxado a gravata-borboleta e parecia dez anos mais velho que na entrada da igreja.
Ele viu o sapato perdido, o papel na mão de Lívia e o inchaço no rosto dela.
— Filha, o que aconteceu?
Augusto respondeu com outra pergunta.
— Você precisa mesmo que ela explique?
Roberto evitou o irmão.
— Estou falando com Lívia.
Caio veio por trás dele.
— Ela surtou quando pedi que assinasse um documento de rotina. Seu irmão aproveitou para me atacar.
Roberto olhou para a filha.
— É verdade?
Lívia soltou Augusto devagar. O salão pareceu crescer ao redor dela.
— Qual parte?
— Você se exaltou?
O papel estalou dentro de sua mão.
— Ele bateu em mim.
Roberto passou a língua pelos lábios.
— Tem certeza de que...
— Roberto — Augusto cortou.
— Eu preciso entender.
— Então escuta.
Caio abriu a boca, e Lívia ergueu a voz pela primeira vez.
— Não fala por mim.
O noivo ficou imóvel.
Lívia encarou Murilo. Os olhos ardiam, e a luz do lustre feria o lado machucado do rosto.
— Chame a polícia.
Sônia tocou o braço dela.
Lívia se afastou.
— Sem sala privada. Sem conversa de família. As portas ficam abertas.
Murilo levou o rádio à boca.
Caio deu uma risada curta.
— Você vai se arrepender.
Lívia olhou para o homem com quem se casara duas horas antes. Depois entregou o acordo amassado a Augusto, como quem retira uma lâmina do próprio corpo.
Murilo perguntou o que deveria informar à polícia.
Ela não procurou o pai. Também não se escondeu atrás do tio.
— Meu marido bateu em mim.
você pode gostar
-
TerminadoCapítulo 5
Papai bilionário do bebê
Uma noite de amor que jamais seria esquecida. Ela dormiu com um bilionário. Apenas Jessica não sabia disso na época, outra coisa que ela não sabia é que, ao sair daquele apartamento de luxo, ela carregaria o herdeiro de uma empresa multibilionária.Moderno08 9 -
TerminadoCapítulo 4
Paixão e Domínio: Ex-esposa do CEO
Tudo o que pode levar é um escândalo para despedaçar uma história de amor de 15 anos. Conheça os Barnes. Angelina (Angel) e James Buchanan Barnes IV (Bucky). Seu romance antes de conto de fadas foi destruído. Mas quando a verdade vier à tona, eles serão capazes de reparar o estrago ou estará tão danificado que não poderá ser consertado?Moderno08 11 -
TerminadoCapítulo 2
Depois do falecimento do meu marido, eu enfrentei a amante com astúcia
Meu marido Joaquim sofreu um acidente de carro, ficou gravemente ferido e à beira da morte. O médico disse que salvá-lo teria pouco significado, então me preparei psicologicamente. Eu estava bem preparada e fiz um gesto com a mão: "Não vou dar mais problemas ao hospital, desistindo do tratamento." Obtive o atestado de óbito, encerrei a conta, levei-o ao crematório e, após seis horas, ele se tornou um monte de cinzas. Eu bato na urna de cinzas e digo: "Joaquim, oh Joaquim, você realmente era uma boa pessoa!" Joaquim tinha uma fortuna, partiu jovem e não deixou testamento. Recebi dois terços de toda a herança. Existe alguém mais atencioso do que Joaquim?Moderno08 4