"A Menina que Salvou o Don" Capítulo 5
Victor desligou a energia.
As luzes de emergência acenderam antes que a mansão mergulhasse no escuro. Beatriz fechou a sala segura, e Adrian saiu da casa de barcos por uma passagem lateral.
Victor o esperava perto do gerador.
— Teste de segurança — explicou.
— Faça outro amanhã, durante o jantar.
— Está mesmo decidido a reunir todos?
— Você pediu liderança. Terá plateia.
Às seis da tarde, vinte sedãs ocupavam a entrada. Empresários, capitães e chefes sindicais sentaram-se diante de uma mesa de mogno para trinta pessoas.
Victor recebeu os convidados usando outro terno azul-marinho e o anel de diamante. Informou que Adrian sofrera um ataque cardíaco e talvez não voltasse a comandar.
— O grupo precisa de estabilidade — disse. — Os estatutos colocam a administração temporária em minhas mãos.
Ele distribuiu documentos de transição.
Rogério "Touro" Tagliano, 51 anos, cabelos pretos raspados e terno cinza apertado nos ombros, empurrou a caneta.
— Adrian ainda está vivo.
— Por enquanto.
Victor percebeu o deslize e tomou água.
No terceiro andar, Hannah acompanhava pelas câmeras. Ellie dormia depois de uma consulta remota.
Durante a tarde, homens chegaram de várias cidades. Davi encontrou armas não declaradas em três carros.
Adrian ordenou que todos entrassem desarmados. Rogério aceitou; Franco recusou até ver a pistola do chefe guardada.
Victor distribuía versões sobre Adrian. Dizia a uns que o veneno era rumor e a outros que o chefe perdera capacidade mental.
Hannah anotou cada conversa.
— Por que escreve? — perguntou Ellie.
— Gente mentirosa muda de história.
— Igual quando digo que escovei o dente?
— Igual.
Beatriz trouxe sopa, mas Hannah não comeu. Os homens discutiam milhões enquanto a mochila da filha guardava recibos de remédio parcelado.
Adrian voltou com documentos do fundo de trabalhadores. Precisava de testemunha independente.
— Eu?
— Você não deve favor aos capitães.
— Devo o tratamento de Ellie.
— Ainda não aceitou o dinheiro.
Hannah assinou apenas depois que um advogado explicou cada página.
O fundo sustentaria milhares de famílias durante a transição. Hannah sugeriu representantes eleitos pelos empregados.
— Entende de sindicatos?
— Meu marido morreu porque a empresa impediu uma comissão de segurança.
Adrian acrescentou a cláusula.
Davi enviou registros sobre David Carter. A terceirizada do acidente transferira dinheiro para Victor dois dias depois da morte.
Hannah fechou o notebook.
— Ele matou meu marido?
— Ainda não sei.
— Descubra.
— Vou.
Adrian entrou na suíte para trocar o curativo. Vestia camisa branca aberta no colarinho e calça preta.
— Sente — ordenou Hannah.
— O jantar começou.
— E seu braço abriu.
Ele sentou. Hannah limpou a pele marcada pela intravenosa e prendeu gaze nova.
— Você manda em todos assim?
— Em quem deixa sangue no chão.
— Pouca gente fala comigo desse jeito.
— Talvez por causa da arma.
Adrian olhou para a cintura vazia.
— Entreguei.
— Tem outra no tornozelo.
Ele ergueu a sobrancelha.
— Você observa.
— Trabalho em quartos. Quem não observa perde emprego.
Os dedos dela permaneceram em seu pulso um instante além do necessário.
— Depois desta noite, Ellie ficará segura — disse Adrian.
— E você?
— Isso não faz parte do acordo.
Hannah apertou o curativo, arrancando dele uma careta.
— Agora faz.
O alarme do elevador indicou que Victor subia. Adrian vestiu o paletó e pegou uma pasta de couro.
— Feche a sala quando eu sair.
— Não execute esse homem na frente de trinta pessoas.
— Ele matou minha família.
— Ellie devolveu seu ar para você fazer alguma coisa diferente com ele.
Adrian segurou a maçaneta.
— Você não sabe o que está pedindo.
— Sei o que minha filha vai perguntar amanhã.
Ele saiu.
No salão, Victor solicitava três assinaturas para assumir contas e terminais. A primeira caneta tocou o papel.
As portas bateram contra a parede.
Adrian apareceu usando terno preto de três peças, cabelos escuros penteados para trás e postura firme. Não levou guarda-costas; carregava apenas a pasta.
Trinta mãos correram para coldres.
— Sentem — ordenou.
As mãos recuaram.
Victor deixou a caneta cair.
— Você devia estar de cama.
— Kaplan está prestando depoimento. Disse coisas interessantes sobre meu coração.
Adrian percorreu a mesa. Cada homem baixou a cabeça quando ele passou.
Chegou à cadeira principal e colocou a pasta diante de Victor.
— Você queria falar de liderança.
Os fechos abriram com dois estalos.
Adrian lançou os extratos sobre o mogno.
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