"A Menina que Salvou o Don" Capítulo 3
Beatriz levou o caderno consigo quando conduziu Hannah ao terceiro andar.
A suíte cheirava a lavanda seca e madeira encerada. Um piano de jacarandá ocupava a parede, e sobre a mesa havia a fotografia de uma mulher de cabelos pretos sorrindo ao lado de Adrian e de um menino.
Ellie acordou ao ser colocada na cama.
— Esse quarto é de princesa?
— É de alguém que não está aqui — disse Hannah.
Ela examinou as janelas seladas e a porta pesada. Havia luxo suficiente para disfarçar uma cela.
Ellie encontrou um desenho de barco entre as partituras.
— O menino fez?
Hannah virou a folha. "Davi, cinco anos" estava escrito no verso.
A maçaneta girou. Hannah cobriu a filha com o próprio corpo.
Beatriz já mostrara o banheiro, a saída e o botão escondido sob a penteadeira.
— Isabella insistiu em rotas de fuga — contou. — Depois que Davi nasceu, desconfiava das reuniões.
— De Victor?
— De homens que baixavam a voz quando ela entrava.
Na fotografia, Isabella mantinha plantas de navios sob a mão e anotações de orçamento sobre o piano.
Ellie encontrou cartões de aniversário nunca entregues. Davi escrevera o nome em letras largas.
— Posso deixar Rosie perto dele?
— Só hoje.
A menina colocou o coelho diante da fotografia. Quando Adrian entrou e viu Rosie ali, apoiou a mão na cômoda.
Hannah desviou o olhar, oferecendo privacidade dentro do mesmo quarto.
Ele abriu um armário de Davi pela primeira vez. Pequenos casacos ainda cheiravam a cedro; uma caixa guardava barcos inacabados.
Ellie escolheu o menor.
— Posso consertar?
— Falta apenas a vela — disse Adrian.
Ele sentou no tapete. Seus dedos grandes tiveram dificuldade para prender o tecido, e Ellie mostrou o nó que aprendera com o pai.
— Pronto.
Hannah perguntou se Isabella conhecia os negócios ilegais. Adrian explicou que ela pressionava pela venda dos cassinos e criação de uma fundação.
— Victor perderia dinheiro — disse Hannah.
— E controle.
Sob a caixa encontraram recibo de manutenção do carro, datado da véspera da explosão. A empresa pertencia a um operador de Victor.
No verso, Isabella escrevera: "Se acontecer alguma coisa, procure a casa de barcos."
Adrian fotografou a pista.
Adrian entrou usando suéter grafite e calça preta. Sem o terno, parecia menos inalcançável, embora a arma continuasse presa à cintura.
Ele viu o desenho nas mãos de Ellie.
— Meu filho queria construir navios.
— Ele mora longe?
Hannah tocou o ombro da menina.
— Ellie...
— Morreu — respondeu Adrian. — Ele e a mãe.
A criança colocou o desenho sobre a mesa com cuidado.
— Desculpa.
Adrian puxou uma cadeira e sentou a três passos da cama.
— Como está o ar?
Ellie inspirou para demonstrar. Um chiado leve permaneceu no fim.
— Melhor. O seu?
— Voltou.
— Então o remédio funcionou.
A lógica simples arrancou dele um movimento perto da boca. Hannah não soube se era dor ou tentativa de sorriso.
Adrian colocou um envelope sobre a mesa. Dentro havia autorização para tratamento num centro respiratório de Curitiba e um depósito de duzentos e cinquenta mil reais.
— Não posso aceitar — disse Hannah.
— O tratamento começa amanhã.
— Ellie não salvou você por dinheiro.
— Isto compra proteção, remédio e tempo. Minha vida custa mais.
Hannah empurrou o envelope.
— Sua vida não está à venda para mim.
Adrian sustentou seus olhos.
— Ótimo. Então aceite pela vida dela.
Ellie apertou Rosie e observou os dois.
— Mamãe, a doutora disse que o remédio é caro.
Hannah fechou a mão sobre o papel. A vergonha veio no calor do rosto, mas ela guardou o envelope.
Adrian falou sobre a explosão de três anos antes. O carro deveria levá-lo a uma reunião; Isabella saiu com Davi para comprar sorvete e morreu na avenida.
— A polícia culpou uma quadrilha do porto — disse. — Eu acreditei.
— O que fez?
— Coisas que não conto perto de criança.
Ellie cobriu as orelhas do coelho.
— Rosie não é criança.
Adrian desviou o olhar para o piano.
— Passei dezoito meses atacando as pessoas erradas. Victor colocou a arma na minha mão e apontou o alvo.
Ele mostrou no telefone o registro da farmacêutica suíça.
— A empresa do veneno pertence a ele.
Hannah sentou na ponta da cama.
— Então por que não manda prendê-lo?
— Propriedade de empresa prova oportunidade. Preciso ligar a bomba, o veneno e as ordens.
Beatriz bateu e entrou com uma bandeja. Ao ver Adrian, deixou o livro sobre uma cômoda.
Ellie reconheceu o caderno.
— A senhora desenha tudo?
— Escrevo quem passa pela copa e pela adega.
— O moço do anel passou.
Adrian voltou-se para ela.
— Que moço?
Ellie apontou para a própria mão.
— O que tem pedra brilhante. Ele estava com seu copo.
Hannah pediu que não pressionassem a menina. Adrian concordou e mudou de assunto.
Quando Ellie dormiu, ele levou Hannah até o armário. Pressionou um fecho oculto, e um painel de aço abriu para uma sala iluminada com monitores, comida, armas e sistema de ar independente.
— Se o alarme tocar três vezes, entre aqui e feche.
— Victor conhece?
— Isabella mandou construir depois de uma ameaça. Nem ele sabia.
Hannah observou as câmeras. Uma mostrava Victor parado diante da suíte, ouvindo atrás da porta.
Adrian apagou a luz da sala secreta.
Do lado de fora, a sombra do homem permaneceu imóvel.
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