"A Menina que Salvou o Don" Capítulo 2
Os portões fecharam antes que a última palavra de Adrian deixasse o corredor.
Quatro veículos blindados bloquearam a entrada. Homens armados atravessaram o jardim enquanto Hannah carregava Ellie para a pequena enfermaria da mansão.
Dra. Helena Kaplan chegou com uma maleta de couro. Aos 57 anos, tinha cabelos grisalhos curtos, olhos verdes e vestia camisa branca, calça preta e jaleco grafite.
— Saturação noventa e dois — disse, prendendo o oxímetro no dedo de Ellie. — Preciso de broncodilatador infantil agora.
Beatriz Gama abriu o armário de medicamentos. A governanta tinha 64 anos, cabelos brancos presos num coque e rosto redondo; usava vestido preto, avental cinza e sapatos ortopédicos.
— O estoque de emergência sumiu.
Kaplan encarou Victor.
— Havia seis unidades ontem.
— Procurem nos carros — ordenou Adrian.
Ele permanecia sentado na maca ao lado, o paletó removido, a manga da camisa aberta e uma linha intravenosa no braço.
Kaplan recebeu de um segurança um inalador comprado numa farmácia 24 horas. Ellie usou duas doses e descansou contra Hannah.
A médica analisou o sangue de Adrian num aparelho portátil. O resultado fez seus dedos pararem sobre a tela.
— Organofosforado concentrado. Uma gota teria paralisado o diafragma.
Victor caminhava perto da janela com um copo de água com gás.
— A governanta serviu a bebida.
Beatriz endireitou os ombros.
— Preparei a bandeja. O senhor Victor levou ao escritório.
— Está me acusando?
— Estou respondendo.
Victor apontou para Hannah.
— A mulher foi contratada há três semanas. A filha aparece no andar privado, salva Adrian no instante certo e agora ouvimos uma história sobre veneno.
Hannah levantou-se.
— Minha filha quase ficou sem ar para salvar o seu chefe.
— Pode ter sido encenação.
Adrian retirou a agulha do braço.
— Uma mãe não usa a filha como distração.
— Você mal conhece essa mulher.
— Conheço os olhos da menina.
Kaplan pressionou gaze sobre o braço dele.
— Também conheço este composto. Não se compra numa farmácia.
Victor parou de andar.
— Onde?
— Laboratórios militares ou empresas farmacêuticas com licença especial.
Adrian solicitou acesso às câmeras do escritório. O trecho entre oito e oito e quarenta havia sido apagado.
Beatriz trouxe o livro de turnos da copa. Registrava entregas, visitas e alterações de rotina.
— Guardo tudo no papel desde que o sistema começou a falhar — explicou.
Naquela noite, três pessoas tiveram acesso à garrafa: Adrian, Beatriz e Victor.
Victor propôs investigar as contas da governanta. Adrian recusou.
— Ela lavou as roupas do meu filho depois do funeral porque eu não conseguia tocar nelas.
Hannah abaixou os olhos para Ellie. A menina dormia com Rosie sob o queixo.
— Que filho? — perguntou.
Adrian fechou o punho.
— Davi. Tinha cinco anos.
Victor afastou o copo dos lábios.
— Este não é o momento.
— Você escolheu o momento quando falou em lealdade.
Adrian ordenou que Hannah e Ellie fossem levadas à suíte de Isabella, sua esposa morta. Victor tentou argumentar que o quarto permanecia lacrado havia três anos.
— Tem vidro balístico e ventilação independente — respondeu Adrian. — É o único lugar que você não supervisiona.
O ataque atingiu em cheio. Victor disfarçou arrumando a gravata.
Hannah acompanhou Beatriz pelos corredores. Dois guardas ficaram diante da porta.
— Somos prisioneiras? — perguntou.
— Estão vivas — respondeu Beatriz. — Hoje isso vale mais que liberdade.
No quarto principal, Kaplan apresentou a Adrian o código de fabricação do veneno. Pertencia a uma farmacêutica suíça controlada pela Vance Atlantic Holdings.
Victor Valente administrava a filial brasileira.
Adrian abriu num tablet os registros da adega. Uma câmera externa mostrava Victor entrando com a mão no bolso vinte minutos antes da bebida.
— Não basta — disse Kaplan. — Ele pode alegar que foi buscar a garrafa.
— Vou deixá-lo alegar diante de todos.
Victor entrou sem bater.
Kaplan obrigou Adrian a permanecer sentado enquanto verificava suas pupilas. Formigamento na mão e visão dupla indicavam que o veneno ainda agia.
Hannah esperava na porta com uma sacola da farmácia. O novo inalador chegara sem espaçador, e Ellie não conseguia coordenar a dose.
Kaplan improvisou um dispositivo com uma garrafa limpa. Hannah testou o lacre antes de permitir que a filha usasse.
— Todos os medicamentos serão abertos diante de você — disse Adrian.
— Inclusive os seus.
Victor escolhera fornecedores da enfermaria. Beatriz trouxe relatórios de compras: seis inaladores constavam como entregues, embora a caixa estivesse vazia.
— Quem assinou? — perguntou Hannah.
A rubrica imitava Beatriz, mas uma curva estava invertida.
— Ele conhece minha assinatura.
Davi encontrou sedativos vencidos, ampolas sem rótulo e dois frascos do laboratório suíço.
Victor tentou tomar a planilha.
— Não transformem uma emergência numa caça.
— Alguém tirou remédio de uma criança — disse Hannah.
— Talvez você tenha vendido.
Adrian levantou-se entre os dois.
— Repita.
Victor ergueu as mãos e disse que apenas testava hipóteses.
Depois que saiu, Hannah apoiou-se no armário. Patrões acreditavam primeiro em quem vestia terno.
Adrian leu sua ficha. O contato de emergência fora apagado.
— Quem era?
— Meu irmão, Caio. Morreu há dois anos.
Ellie colocou Rosie na maca.
— Ele era bombeiro.
Hannah explicou que o marido, David Carter, morrera antes num acidente industrial no porto. A terceirizada responsável pertencia ao grupo de Victor.
Outra morte entrou na mesma conta.
— Os capitães estão perguntando quem assumirá se você piorar.
— Diga que teremos jantar amanhã.
— Você deveria descansar.
— Prepare a mesa.
Victor saiu e entrou num banheiro vazio. Retirou um telefone criptografado e enviou uma mensagem:
ALVO VIVO. H.C. TEM O REGISTRO.
Do outro lado da parede, Beatriz fechou silenciosamente o livro de turnos.
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