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"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 9 — Desta Vez, Ele Ficou Diante da Lâmina

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Capítulo 9 — Desta Vez, Ele Ficou Diante da Lâmina

Daniel acionou o alarme e ligou para a polícia.

"Não abra a porta", ordenou.

Não pretendia abrir.

Isadora golpeou o painel do interfone com o cabo da faca. A imagem tremeu. Em seguida, ela desapareceu do enquadramento.

"Onde ela foi?" perguntei.

Daniel alternou entre as câmeras.

Uma sombra surgiu junto ao muro lateral.

Antes que pudéssemos reagir, ouvimos o estrondo de um vaso caindo no quintal. Isadora havia usado a lixeira da calçada para alcançar a parte mais baixa do muro.

"Suba e tranque-se no quarto", Daniel disse.

"Não vou deixar você sozinho."

Peguei o celular, mantive a chamada de emergência aberta e recuei com ele até a cozinha. Havia duas saídas e uma porta de vidro que podíamos trancar.

Isadora apareceu no corredor externo.

"Você chama isso de não querer Henrique?" gritou. "Fez ele cancelar nosso casamento, colocou minha mãe para fora como criminosa e agora posa de vítima!"

"A polícia está a caminho. Largue a faca."

"Não quero a polícia. Quero que devolva o que roubou."

"Henrique não me pertence. E nunca pertenceu a você."

Ela atingiu a porta de vidro. Uma rachadura se abriu.

Daniel puxou-me para trás da bancada e pegou um extintor pequeno junto à despensa.

"Isadora, pare", ele disse. "Ninguém precisa se machucar."

"Você não sabe quem ela é! Elisa passou a vida inteira esperando a chance de tomar meu lugar."

"Eu passei a vida inteira cedendo o meu lugar", respondi. "Isso acabou."

Isadora golpeou o vidro outra vez. A lâmina atravessou a abertura, e ela alcançou a maçaneta interna.

Daniel descarregou o extintor quando a porta se abriu. Uma nuvem branca cobriu o corredor. Isadora gritou, mas avançou às cegas.

A ponta da faca cortou o braço de Daniel.

"Daniel!"

Ele perdeu o extintor. Isadora veio em minha direção.

Corri para a sala, mantendo a bancada entre nós. O atendente do serviço de emergência continuava falando pelo celular caído em meu bolso, pedindo que eu descrevesse o que acontecia.

"Você já tem tudo!" Isadora berrava. "Por que ele ainda pensa em você?"

"Pergunte a ele!"

"Eu perguntei durante três anos!"

"Como descobriu este endereço?"

"Segui o carro de vocês depois que saiu da empresa. Você realmente acreditou que poderia se esconder de mim na minha própria cidade?"

A resposta, gravada pela chamada de emergência, eliminaria mais tarde qualquer dúvida de que sua chegada tivesse sido um encontro casual.

Ela contornou o sofá. Recuei até a porta da frente.

Do lado de fora, pneus cantaram no asfalto.

Isadora ergueu a faca.

A porta se abriu atrás de mim, e alguém me puxou com violência para o lado.

Henrique entrou entre nós.

A lâmina atingiu suas costas com um som surdo.

Por um segundo, ninguém se moveu.

Henrique olhou para mim. A cor abandonou seu rosto, mas ele manteve os braços ao meu redor, usando o próprio corpo como escudo.

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"Desta vez", sussurrou, "eu consegui proteger você."

Senti o sangue quente atravessar a camisa dele e molhar minhas mãos.

"Henrique!"

Isadora soltou a faca.

"Não... Eu não queria acertar você."

Daniel apareceu com o braço ensanguentado e derrubou a arma para longe com o pé. Em seguida, segurou Isadora até os seguranças da rua entrarem.

Henrique cedeu sobre mim.

Ajudei-o a deitar de lado para não pressionar a lâmina, que continuava presa junto ao ombro direito.

"Não puxe", o atendente orientou pelo telefone. "Mantenha a vítima imóvel."

Pressionei um pano limpo ao redor do ferimento. Minhas mãos tremiam, mas minha voz saiu firme quando informei o endereço, a posição da faca e o estado de consciência dele.

"Como chegou aqui?" perguntei.

Henrique respirava com dificuldade.

"Sua mãe ligou... Isadora sumiu depois de discutir com ela. Eu imaginei que viria atrás de você."

"Não fale. A ambulância está chegando."

Ele tentou sorrir.

"Há três anos, você ficou na chuva e eu passei ao seu lado carregando Isadora. Pensei nisso todos os dias em Brasília."

"Guarde forças."

"Eu devia ter ficado na sua frente naquela época."

As sirenes interromperam sua voz.

Policiais entraram primeiro. Isadora se debateu entre dois agentes quando os paramédicos se aproximaram de Henrique.

"Eu queria acertar Elisa!" ela gritava. "Ele entrou no caminho! A culpa é dela!"

As palavras foram registradas pelas câmeras, pelo telefone ainda conectado e pelos policiais presentes.

Minha mãe chegou quando Henrique era colocado na maca.

Ao ver Isadora algemada, correu para ela.

"Minha filha está doente. Ela não sabia o que estava fazendo."

Depois me viu coberta de sangue.

"Diga que foi um acidente, Elisa. Você não pode deixar sua irmã ser presa."

Olhei para Daniel. Um paramédico envolvia o corte de seu braço com uma gaze. Depois olhei para Henrique, inconsciente na maca.

"Ela invadiu minha casa com uma faca, feriu meu marido e quase matou Henrique."

"Mas é sua irmã!"

"E eu era sua filha quando a senhora me deixou trancada na chuva."

Minha mãe tentou segurar meu braço.

Afastei-me.

"Não vou mentir por ela."

No hospital, Daniel recebeu seis pontos. Henrique foi levado diretamente para o centro cirúrgico.

Um investigador colheu meu depoimento ainda naquela madrugada. Entreguei as gravações das câmeras, autorizei a cópia da chamada de emergência e indiquei os nomes dos seguranças.

Daniel também entregou a camisa rasgada pelo primeiro golpe. A faca foi recolhida ainda presa à roupa de Henrique, preservando a posição e os vestígios. O investigador registrou cada item antes que deixássemos a sala.

Não era vingança. Era a primeira vez que eu me recusava a permitir que o choro de Isadora apagasse o que ela havia feito.

"Sua irmã havia feito ameaças anteriores?" perguntou.

Mostrei o vídeo da gala e as mensagens que ela enviara depois da invasão de minha mãe.

"Não apague nada", ele orientou. "Esse material será anexado à investigação."

Meus pais apareceram no corredor pouco antes das três.

Meu pai mantinha os ombros curvados. Minha mãe chorava.

"O advogado disse que seu depoimento pode destruir a vida de Isadora", Roberto falou. "Se disser que ela estava em crise e entrou apenas para conversar..."

"Há câmeras."

"Você é a vítima principal. Sua palavra importa."

"Justamente por isso vou dizer a verdade."

Minha mãe se ajoelhou diante de mim.

"Eu imploro. Ela não sobreviverá à prisão."

"Então deveria ter aceitado tratamento quando foi oferecido. E vocês deveriam ter parado de ensinar que qualquer crueldade seria perdoada se ela chorasse depois."

Daniel ficou ao meu lado, sem interferir.

Meu pai puxou minha mãe para cima. Eles foram embora sem perguntar pelo estado de Henrique.

Quatro horas depois, a luz do centro cirúrgico se apagou.

O cirurgião veio até nós, retirando a máscara.

"A lâmina passou muito perto do pulmão", disse. "Ele perdeu bastante sangue."

Prendi a respiração.

"Henrique sobreviveu?"

O médico olhou para a ficha antes de responder.

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