"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 6 — A Mulher Que Ele Esperava Encontrar
Capítulo 6 — A Mulher Que Ele Esperava Encontrar
Na mesma manhã em que voltei a Belo Horizonte, Henrique desembarcou no aeroporto de Confins ao lado de Isadora.
Mais tarde, Marcelo me contaria o que aconteceu na casa de meus pais, e Henrique confirmaria cada detalhe.
Isadora entrou andando, sem bengala. Depois de três anos de cirurgias e fisioterapia, recuperara quase todos os movimentos da perna, embora os médicos não recomendassem uma volta à carreira profissional.
Minha mãe havia enchido a sala de flores. Sobre a mesa, havia amostras de tecido branco, cartões de fornecedores e uma lista de convidados.
"Marquei o casamento para daqui a três semanas", anunciou ela. "O salão do clube militar está reservado."
Henrique não se sentou.
"Que casamento?"
O sorriso de Isadora vacilou.
"O nosso. Todos esperam por isso desde que fomos para Brasília."
"Eu deixei claro que a promessa servia para dar segurança a você durante o tratamento."
Meu pai bateu a mão na mesa.
"Você viveu ao lado da minha filha durante três anos. Toda a cidade pensa que estão juntos."
"Eu a acompanhei em consultas e sessões de fisioterapia. Não aceitei me casar."
Isadora segurou o braço dele.
"Podemos fazer uma cerimônia simbólica. Depois, quando Elisa voltar, você resolve sua situação com ela. Minha irmã sempre compreende tudo."
Henrique retirou o braço.
"Onde está Elisa?"
O silêncio que se seguiu foi a primeira resposta.
Minha mãe ajeitou uma flor no vaso.
"Ela foi embora sem dizer nada."
"Para onde?"
"São Paulo, talvez. Nunca nos deu endereço."
Henrique franziu a testa.
Durante três anos, ele enviara mensagens para um número bloqueado e cartas para a casa dos meus pais. Nenhuma recebera resposta. Ainda assim, convencera-se de que eu só precisava de tempo para deixar a raiva passar.
"Vocês disseram que ela estava trabalhando e não queria falar comigo."
"E era verdade", minha mãe respondeu. "Se quisesse ser encontrada, teria entrado em contato."
Henrique caminhou até o aparador procurando um copo. Ao abrir a gaveta, encontrou um maço de envelopes presos por um elástico.
Todos traziam a letra dele.
Meu nome estava escrito na frente. Nenhum envelope havia sido aberto.
"O que é isto?"
Minha mãe perdeu a cor.
Durante três anos, as cartas que Henrique enviara para mim haviam chegado à casa de meus pais. Lúcia guardara todas, sem avisar que existiam e sem tentar descobrir meu endereço.
"Ela não queria falar com você", disse. "Eu apenas evitei que voltasse a perturbar a recuperação da irmã."
Henrique virou-se para Isadora.
"Você sabia?"
Ela apertou os lábios.
"Sua primeira carta chegou na véspera de uma cirurgia. Mamãe achou melhor não me deixar nervosa. Depois você começou a falar de Elisa sempre que escrevia. Eu precisava me concentrar em andar de novo."
"Então esconderam todas."
"Você estava comigo", Isadora respondeu, elevando a voz. "Cuidava de mim, dormia ao meu lado quando eu tinha crises, dizia que não me abandonaria. O que uma carta para sua ex-esposa mudaria?"
Henrique soltou o elástico. Os envelopes se espalharam pelo aparador.
Na primeira carta, escrevera apenas semanas depois da viagem. Na última, enviada dois meses antes, ainda repetia que voltaria assim que o tratamento terminasse.
Minha mãe tentou recolhê-las.
"Não faça uma tragédia disso. Elisa ficou com dinheiro e liberdade. Era tudo o que queria."
Henrique segurou a última carta antes que ela a alcançasse.
"Não. Era tudo o que nós decidimos que bastava para ela."
Isadora se aproximou outra vez.
"Não estrague nossa volta por causa disso. Elisa sempre foi dramática. Quando souber que estou curada, vai aparecer."
Henrique olhou para ela como se aquela frase tivesse aberto uma rachadura numa história em que acreditara por tempo demais.
Ele saiu sem discutir.
No quartel, enquanto concluía a transferência, encontrou Marcelo Nunes, companheiro dos tempos da academia militar.
"Avelar! Pensei que só voltaria na próxima semana."
Depois de alguns minutos de conversa, Marcelo mencionou a gala da indústria têxtil.
"Minha esposa me arrastou para o evento. Parece que Elisa também vai."
Henrique segurou o documento com mais força.
"Você sabe onde ela está?"
"Em São Paulo. Pelo que ouvi, trabalha com uma empresa grande."
"Ela vem sozinha?"
Marcelo hesitou.
"Não sei. Mas, se quer conversar com ela, esta pode ser sua chance."
Henrique aceitou o convite.
Antes da gala, cortou o cabelo, trocou o uniforme por um terno escuro e usou o perfume que eu elogiara nos primeiros meses de casamento.
Isadora apareceu com um vestido vermelho e se apresentou aos convidados como futura senhora Avelar.
No salão do hotel, ela logo encontrou antigos amigos do Palácio das Artes.
"Minha irmã também deve vir", disse, com falsa preocupação. "O divórcio foi muito difícil para ela. Espero que ninguém faça perguntas inconvenientes."
"Ela se casou outra vez?" perguntou uma mulher.
Isadora riu delicadamente.
"Elisa sempre foi muito reservada. Talvez ainda não tenha superado Henrique."
Ele ouviu a frase do outro lado da roda.
Três anos antes, teria interpretado aquilo como confirmação de que eu continuava esperando. Dessa vez, lembrou-se de mim no terminal, dizendo que nunca voltaria para ele.
"Não fale por Elisa", disse.
Isadora perdeu o sorriso.
"Só estou tentando protegê-la."
Henrique não respondeu. Desde que entrara no salão, seus olhos voltavam continuamente para a porta.
Marcelo entregou a ele o programa oficial do evento.
Na seção dedicada às empresas finalistas, meu nome aparecia abaixo do logotipo da Raiz Urbana: Elisa Ferreira, cofundadora e diretora de operações.
Henrique leu duas vezes.
"Ela fundou a empresa?"
"Parece que sim", Marcelo respondeu. "A apresentação técnica enviada ao comitê também leva a assinatura dela."
Isadora pegou o programa e o fechou.
"Hoje em dia, qualquer pessoa pode colocar um cargo bonito num folheto. Daniel deve ter feito isso para ajudá-la."
Henrique observou a irmã em silêncio.
Durante três anos, Isadora dissera que eu não conseguiria viver sozinha, que voltaria assim que o dinheiro terminasse e que meu silêncio era apenas uma tentativa infantil de castigá-lo.
Pela primeira vez, ele percebeu que todas as informações que possuía sobre mim tinham vindo justamente das pessoas que mais desejavam me manter longe.
Alguns convidados começaram a comentar sobre a Raiz Urbana, a empresa paulista que disputava o contrato da noite.
"Dizem que uma das sócias é de Belo Horizonte", comentou Marcelo.
"Elisa?" Henrique perguntou depressa demais.
Um antigo conhecido riu.
"Não me diga que está falando de Elisa Ferreira. Ela não entendia de negócios. Abandonou até o emprego para se casar."
"Ouvi dizer que trabalha com Daniel Sampaio", falou outra pessoa. "Talvez seja assistente dele."
"Daniel poderia contratar qualquer profissional do país. Por que escolheria uma divorciada sem formação executiva?"
Isadora girou a taça entre os dedos.
"Minha irmã sempre teve sonhos grandes. Às vezes, grandes demais."
Henrique virou-se para ela.
"Você sabia que Elisa estava ligada à empresa?"
"Ouvi rumores. Não queria criar falsas expectativas em você."
As portas do salão se abriram.
Daniel Sampaio entrou primeiro, cumprimentando o presidente da associação comercial. Ele vestia um smoking azul-marinho e carregava a segurança de quem não precisava provar a própria importância.
O presidente da associação o conduziu até a roda de empresários.
"A proposta da Raiz Urbana recebeu a maior nota técnica", anunciou. "Ainda precisamos avaliar a capacidade de expansão, mas o projeto surpreendeu o comitê."
"O mérito operacional não é meu", Daniel respondeu. "A pessoa responsável está entrando agora."
Então se voltou para a porta e estendeu a mão.
Eu entrei.
Meu vestido verde-escuro acompanhava cada passo. O colar que Daniel fechara em meu pescoço refletia a luz dos lustres, mas não foi a joia que silenciou o salão.
Foi a forma como ele me olhou.
Como igual.
Henrique ficou imóvel perto do bar.
Nossos olhos se encontraram pela primeira vez em três anos.
Reconheci o homem que um dia amei. A postura continuava ereta, o rosto mais maduro, os mesmos olhos escuros que eu costumava procurar pela janela.
Meu coração não acelerou.
Daniel entrelaçou os dedos nos meus e me conduziu até o centro do salão.
Os cochichos começaram imediatamente.
"É mesmo Elisa?"
"Ela está com Daniel Sampaio?"
"Deve trabalhar para ele."
Isadora recuperou o sorriso e avançou.
"Elisa, que surpresa. Você desapareceu por três anos e voltou justamente quando Henrique e eu estamos organizando nosso casamento."
Daniel sentiu minha mão enrijecer.
Não falou por mim.
Esperou.
"Voltei para representar minha empresa", respondi. "Sua vida pessoal não interfere na minha agenda."
Henrique deu um passo em nossa direção.
"Elisa..."
Daniel ergueu sua taça. O gesto simples atraiu a atenção das pessoas ao redor.
Ele olhou primeiro para mim, aguardando minha permissão.
Assenti.
Daniel sorriu e se voltou para o salão.
"Quero apresentar a vocês..."
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