"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 4 — A Passagem Rasgada
Capítulo 4 — A Passagem Rasgada
Minha mãe arrancou o comprovante de embarque da minha mão.
"Você ainda tem coragem de negar?"
Antes que eu pudesse recuperá-lo, ela rasgou o papel ao meio. Depois tornou a rasgá-lo, deixando os pedaços caírem sobre o piso do terminal.
As conversas ao redor diminuíram. Algumas pessoas começaram a olhar.
"Essa passagem era para São Paulo", falei.
"E eu sou obrigada a acreditar?" Lúcia apontou para Henrique. "Você soube que ele viajaria com Isadora e veio fazer escândalo."
Meu pai largou as malas da minha irmã e agarrou a alça da minha bagagem.
"Volte para casa antes que nos envergonhe ainda mais."
"Solte a minha mala."
"Enquanto morar debaixo do meu nome, vai fazer o que eu mandar."
Segurei a alça com as duas mãos.
"Eu não moro na sua casa. Também já devolvi a residência da Vila Militar."
Roberto me encarou, surpreso. Henrique também.
"Você devolveu a casa?" minha mãe perguntou.
"Há menos de uma hora."
Ela pareceu esquecer a passagem e avançou sobre mim.
"Então onde pretende morar? Não me diga que espera que Henrique pague um apartamento para você enquanto cuida da sua irmã."
"Pretendo morar onde eu quiser, com o dinheiro que vocês não conseguiram tomar de mim."
Meu pai puxou a mala com tanta força que quase me derrubou.
Henrique se aproximou e retirou a mão dele da alça.
"Deixe comigo, senhor Roberto."
Por um segundo, pensei que finalmente fosse me defender.
Ele colocou a mala ao meu lado e baixou a voz.
"Elisa, não faça isso aqui. Isadora precisa embarcar tranquila."
Ri, incapaz de evitar.
Mesmo quando meus pais destruíam minha passagem diante de dezenas de pessoas, a preocupação dele continuava sendo a tranquilidade de Isadora.
"Pode voltar para ela. Eu não estou impedindo ninguém de viajar."
Isadora retirou os óculos escuros. Seus olhos já estavam cheios de lágrimas.
"Por favor, não briguem por minha causa. Se Elisa quer ir conosco, eu cedo meu lugar. Posso ficar aqui e aceitar que nunca mais vou dançar."
Minha mãe correu até a cadeira de rodas.
"Não diga isso, meu amor. Ninguém vai tirar seu tratamento."
Ela se virou para os curiosos, elevando ainda mais a voz.
"Minha filha mais nova sempre teve inveja da irmã. Primeiro se casou com o noivo dela. Agora, mesmo divorciada, não aceita deixá-los em paz."
Os olhares mudaram.
Uma mulher cochichou alguma coisa com o marido. Um rapaz ergueu o celular, talvez para gravar.
O rosto queimou, mas eu não abaixei a cabeça.
Abri o aplicativo da empresa de ônibus e mostrei o bilhete digital.
"Plataforma vinte e três. Destino: São Paulo. Horário: meio-dia e vinte. Quer que eu leia mais devagar?"
Minha mãe olhou a tela. A boca se abriu, mas nenhum pedido de desculpas veio.
"Mesmo assim, uma mulher sozinha não desaparece sem avisar a família."
"Vocês não queriam que eu desaparecesse da vida de Henrique? Estou atendendo ao pedido."
O alto-falante anunciou o início do embarque para o aeroporto de Confins. Meu pai empurrou a cadeira de Isadora em direção ao portão, enquanto minha mãe continuava me insultando por cima do ombro.
Henrique permaneceu diante de mim.
Parecia cansado. Havia uma linha funda entre suas sobrancelhas, como se minha decisão fosse um problema militar que se recusava a obedecer às ordens.
"Onde vai ficar em São Paulo?"
"Isso não diz mais respeito a você."
"Eu preciso saber que está segura."
"Precisava ter pensado nisso antes de me deixar trancada na chuva."
Ele empalideceu.
"Eu não sabia que seus pais fariam aquilo."
"Mas soube depois. E ainda assim pediu que eu compreendesse Isadora."
Henrique passou a mão pela nuca.
"Eu errei. Só não jogue fora tudo o que tivemos por causa destes últimos dias."
"Não foram alguns dias. Foram três anos."
Ele se aproximou e tentou tocar meus cabelos. Recuei.
"Quando Isadora voltar a ter esperança, ela não dependerá mais de mim", disse. "Ela sempre quis ser livre. Vai seguir a carreira dela, e eu volto para você."
A naturalidade daquela promessa me revoltou mais do que os gritos de minha mãe.
"Você fala como se eu fosse uma casa fechada, esperando o proprietário voltar."
"Não foi isso que eu quis dizer."
"Então escute o que eu quero dizer."
Olhei diretamente para ele.
"Eu não vou me casar com você outra vez. Não daqui a três anos. Não daqui a trinta. Nunca."
Henrique ficou imóvel.
Pela primeira vez desde o divórcio, alguma coisa parecida com medo atravessou seu rosto.
"O que você quer, Elisa?"
"Além de qualquer coisa que prejudique o tratamento de Isadora, eu posso resolver. Dinheiro? Outro apartamento? Um emprego?"
Até naquele momento, sua oferta vinha acompanhada de uma condição: minha irmã continuava em primeiro lugar.
"Não quero nada de você."
"Tem de haver alguma coisa."
"Há. Quero escolher minha própria vida. Mas isso você nunca soube me dar."
Do outro lado do portão, Isadora chamou por ele.
"Henrique! Vamos perder o traslado!"
Ele olhou para ela e depois para mim.
Eu conhecia aquela hesitação. Durante nosso casamento, vi a mesma escolha acontecer inúmeras vezes.
Henrique apertou minha mão.
"Quando ela estiver curada, nós conversaremos com calma."
Retirei meus dedos dos dele.
"Quando ela estiver curada, eu já não estarei aqui."
Ele se afastou devagar, ainda olhando para trás. Então Isadora estendeu a mão, e Henrique foi até ela.
Não esperei que desaparecessem.
Reimprimi meu comprovante num terminal de autoatendimento, recuperei a mala e atravessei o portão da plataforma vinte e três.
Quando o ônibus deixou Belo Horizonte, não senti vontade de chorar.
Vi os prédios diminuírem pela janela e abri no celular uma lista de confecções de São Paulo. Eu tinha uma reserva de quarenta mil reais, três anos fora do mercado e nenhuma pessoa me esperando na rodoviária do Tietê.
Também tinha duas mãos que sabiam costurar e uma vida que, pela primeira vez, pertencia a mim.
Cheguei a São Paulo no início da manhã seguinte.
Guardei a mala num armário, lavei o rosto no banheiro do terminal e troquei de roupa. Depois segui para o Bom Retiro com minha caixa de costura dentro da bolsa.
A terceira empresa em que entrei se chamava Vértice Confecções.
Uma mulher de blazer azul tentou me dispensar na recepção.
"Não estamos contratando."
Atrás dela, duas funcionárias discutiam diante de um manequim. O vestido de festa estava torto, com o tecido repuxado na cintura e uma mancha clara junto à barra.
Observei a peça por alguns segundos.
"Esse lote será rejeitado porque cortaram o forro contra o fio e usaram vapor quente demais", falei.
A mulher de blazer se virou.
"Como sabe disso?"
"Porque passei três anos consertando fardas que não podiam parecer consertadas."
Tirei a fita métrica da bolsa e a coloquei sobre o balcão.
"Dê-me três dias. Se eu não recuperar esse vestido e os outros do lote, vou embora sem cobrar nada."
Ela me estudou em silêncio.
"Qual é o seu nome?"
"Elisa Ferreira."
"Sou Camila Rocha. E você tem até sexta-feira."
Pela primeira vez naquele dia, alguém não perguntou de quem eu era filha, irmã ou ex-esposa.
Perguntou o que eu sabia fazer.
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