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"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 3 — Cinco Minutos Para Apagar Três Anos

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Capítulo 3 — Cinco Minutos Para Apagar Três Anos

Saí da casa dos meus pais antes das seis da manhã.

Não deixei bilhete.

Peguei um carro por aplicativo até a Vila Militar e observei Belo Horizonte despertar pela janela. Padarias levantavam as portas de aço, ônibus passavam lotados e homens de uniforme caminhavam em direção aos quartéis.

Durante três anos, aquela rotina havia sido toda a minha vida.

Agora eu tinha menos de quatro horas para encerrá-la.

A casa onde vivi com Henrique ficava no fim de uma alameda arborizada. Havia um pequeno jardim na frente e uma treliça de madeira coberta por uma videira que eu mesma plantara.

Eu costumava esperar ali quando sabia que ele voltaria do quartel.

Henrique sempre atravessava o portão depressa, falando ao telefone ou lendo algum relatório. Nunca notou que eu escolhia aquele lugar apenas para vê-lo alguns segundos antes.

Entrei e abri o guarda-roupa.

Camisas sociais escolhidas por mim. Fardas que eu mandava ajustar. Gravatas, botas, medalhas, caixas de documentos.

Na cômoda, havia uma fotografia de Isadora dançando Giselle, tirada antes de nosso casamento.

Não encontrei nenhuma fotografia minha.

Levei cinco minutos para reunir tudo que me pertencia: três vestidos, duas calças, documentos, alguns livros, a caixa de costura de minha avó e um porta-retratos vazio.

Uma mala foi suficiente para apagar três anos.

Liguei para a administração da Vila Militar.

"Quero formalizar minha saída da residência funcional hoje. O divórcio já foi homologado."

A atendente pediu os dados e marcou uma vistoria para o início da tarde.

"A senhora tem direito a um prazo maior para desocupação."

"Não preciso. Entregarei as chaves antes do meio-dia."

Em seguida, deixei uma mensagem para o ajudante de Henrique, avisando que os pertences do major continuavam na casa e deveriam ser retirados pela unidade.

Quando desliguei, uma mão fechou-se em torno do meu pulso.

Henrique estava atrás de mim.

"Por que está devolvendo a casa?"

"Porque não sou mais sua esposa."

"Eu disse que você poderia continuar aqui."

"E eu disse que não quero."

Ele olhou a mala junto à porta. O controle em seu rosto vacilou.

"Está fazendo isso porque vou para Brasília com Isadora?"

"Estou fazendo isso porque me divorciei."

"Elisa, a recuperação dela depende do estado emocional. Não posso levá-la sabendo que você vai continuar criando problemas."

"Eu estou indo embora. Que problema ainda posso criar?"

Henrique soltou meu pulso e passou a mão pelos cabelos.

"Você não pode simplesmente desaparecer. Espere aqui. Quando ela estiver estável, eu volto para vê-la."

"Não quero que volte."

"Pare de falar por raiva."

Antes que eu respondesse, alguém tocou a campainha.

Um homem de meia-idade aguardava do lado de fora. Tinha barriga saliente, uma cicatriz no queixo e apoiava o peso numa bengala. O cheiro de álcool chegou antes de sua apresentação.

"Você deve ser a Elisa." Ele me examinou dos pés à cabeça. "Sou Sérgio Braga. Seu futuro marido."

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Dei um passo para trás.

"Meu o quê?"

Henrique surgiu ao meu lado.

"Isadora encontrou Sérgio por indicação de conhecidos. Ele tem uma oficina, casa própria e está procurando alguém para cuidar dele."

Sérgio sorriu, exibindo dentes amarelados.

"Não me incomoda que seja divorciada. Só exijo uma mulher discreta. E não gosto de esposa trabalhando fora."

Olhei para Henrique.

"Você aprovou isso?"

"Apenas aceitei conhecê-lo. Se você tiver alguém, ficarei tranquilo para cuidar de Isadora."

Meu celular vibrou. Na noite anterior, eu enviara o nome completo de Sérgio a Renata, uma antiga colega da confecção. A mensagem acabara de chegar.

Sérgio fora fornecedor da empresa. Havia quebrado a mão da ex-esposa durante uma discussão e respondido a duas ocorrências por agressão. A oficina acumulava dívidas trabalhistas.

Mostrei a tela a Henrique.

"É este o homem que deixaria você tranquilo?"

O rosto dele endureceu enquanto lia.

Sérgio tentou arrancar o celular da minha mão.

"Mentira de mulher vingativa. Minha ex era louca."

Afastei-me.

"Saia daqui."

"Você devia agradecer por eu aceitar mercadoria usada."

Henrique agarrou Sérgio pela gola antes que ele terminasse.

"Vá embora. Agora."

Sérgio praguejou, mas recuou ao reconhecer a patente no uniforme de Henrique.

Assim que o portão se fechou, Henrique se voltou para mim.

"Eu não sabia. Isadora garantiu que ele era um bom homem."

"Claro que garantiu. Ela precisava se livrar de mim antes de viajar com você."

"Não fale assim dela."

Mesmo depois daquilo, sua primeira reação ainda era defendê-la.

Peguei a mala.

"Quando Isadora fugiu do casamento, vocês decidiram que eu deveria me casar com você. Agora ela voltou, e vocês decidiram que devo me casar com outro homem."

Parei diante dele.

"Para todos vocês, sou uma pessoa ou apenas uma coisa que pode ser entregue a quem estiver disponível?"

Henrique abriu a boca, mas não encontrou resposta.

Saí pelo portão.

Ele me seguiu de carro enquanto eu caminhava até a avenida.

"Entre. Vou levá-la para a casa de seus pais."

"Não vou voltar para lá."

"Uma mulher sozinha não deve ficar andando com uma mala pela cidade."

"Vou sair de Belo Horizonte."

O carro parou bruscamente junto ao meio-fio.

Henrique desceu.

"Você não pode ir embora sem me dizer para onde."

"Posso, sim. Você não é mais meu marido."

"Nosso divórcio é temporário."

"Só para você."

O telefone dele tocou. Bastou olhar o nome na tela para sua expressão mudar.

"É Isadora. Ela acordou assustada e quer que eu volte."

"Então volte."

Henrique hesitou, como se esperasse que eu pedisse para ficar.

Eu não pedi.

"Quando chegar a Brasília, mando notícias", disse. "Você não precisa aparecer durante o tratamento. Pode escrever para mim."

"Não vou escrever."

Ele entrou no carro e partiu.

No terminal rodoviário, deixei a mala no guarda-volumes e aguardei a vistoria da casa. Às onze e quarenta, entreguei as chaves ao funcionário da Vila Militar e assinei o último documento que me ligava à vida de Henrique.

Quando voltei ao saguão, faltavam vinte minutos para o embarque.

Subi a alça da bolsa no ombro e caminhei em direção à plataforma.

Então ouvi a risada de minha mãe.

Ela estava perto do portão de embarque executivo, conversando com um casal conhecido. Isadora ocupava uma cadeira de rodas, usando um vestido claro e óculos escuros. Meu pai empurrava duas malas. Henrique, impecável em seu uniforme, segurava a passagem aérea que os levaria primeiro a Confins e depois a Brasília.

"Nossa Isadora vai receber o melhor tratamento", minha mãe dizia. "Henrique pediu transferência só para ficar ao lado dela. Assim que ela voltar a dançar, os dois vão se casar."

Henrique ajeitou a manta sobre as pernas de minha irmã.

Isadora ergueu o rosto e me viu.

O sorriso desapareceu.

"Elisa?"

Todos se viraram.

Minha mãe olhou para minha mala, depois para Henrique, e sua expressão se encheu de desprezo.

"Eu sabia", disse, avançando em minha direção. "Você veio atrás do noivo da sua irmã."

 

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