"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 2 — A Mulher Que Ninguém Protegeu
Capítulo 2 — A Mulher Que Ninguém Protegeu
Meu pai atravessou a sala e me deu um tapa antes que eu pudesse falar.
Minha cabeça virou com o impacto. O gosto metálico de sangue se espalhou pela boca, e a pasta com meus documentos caiu no chão.
"Você não consegue ver sua irmã feliz nem por um minuto!" ele gritou.
Henrique tomou Isadora nos braços. Ela continuava imóvel, os cílios delicadamente pousados sobre as bochechas.
"Vou levá-la ao hospital", disse ele.
Ao passar por mim, diminuiu o passo.
Por um segundo, pensei que tivesse visto o sangue no canto da minha boca.
"Ela perdeu a carreira, Elisa. Está emocionalmente destruída. Você precisava mesmo provocá-la hoje?"
Depois saiu carregando minha irmã.
Minha mãe recolheu do chão minha carteira, meu celular e a pasta do cartório.
"Devolva", ordenei.
"Você não vai a lugar nenhum até Isadora acordar."
Meu pai abriu a porta dos fundos e apontou para o pátio descoberto.
"Fique lá fora e pense no que fez."
Eu tinha vinte e sete anos, era divorciada e, ainda assim, meus pais agiam como se pudessem me trancar de castigo.
Tentei alcançar minha bolsa. Meu pai torceu meu braço e me empurrou para fora. A porta foi trancada atrás de mim.
As primeiras gotas começaram poucos minutos depois.
Em menos de meia hora, a chuva de verão caía tão forte que a água cobria meus tornozelos. Bati na porta. Chamei minha mãe. A única resposta foi o volume da televisão aumentando dentro da casa.
Poderia ter gritado pelos vizinhos, mas eles já observavam por trás das cortinas. Eram os mesmos que haviam passado três anos cochichando que eu roubara o noivo da própria irmã.
Sentei no degrau de cimento e abracei os joelhos.
Enquanto tremia, lembrei de tudo que fizera para merecer o amor de Henrique.
Abandonei meu emprego numa pequena confecção porque ele dizia que a esposa de um oficial precisava estar disponível para recepções e compromissos sociais. Aprendi a conversar com coronéis, a organizar jantares e a sorrir para mulheres que me chamavam de substituta pelas costas.
Henrique sofria de gastrite. Não importava a hora em que voltasse do quartel, sempre encontrava sopa quente no fogão.
Ele dizia não estar pronto para ter filhos, e eu assumia sozinha todos os cuidados para evitar uma gravidez.
Nunca pedi muito. Apenas esperei que, um dia, ele olhasse para mim e percebesse que eu era sua esposa, não o remendo deixado por Isadora.
A chuva levou comigo a última esperança.
Quando a febre começou, eu já não sentia os dedos.
Acordei numa cama, com uma toalha morna sobre a testa. Henrique estava sentado ao meu lado, ainda de farda.
"Você desmaiou no pátio", disse.
Tentei me erguer. Meu corpo inteiro doía.
"Meus documentos."
"Estão comigo."
Ele me ofereceu água e dois comprimidos.
"Tome."
Engoli o remédio porque precisava recuperar forças para ir embora.
Henrique afastou uma mecha molhada do meu rosto.
"Isadora teve uma crise de ansiedade. O médico disse que o estado emocional pode atrapalhar a recuperação da perna."
"E o fato de eu ter sido trancada na chuva? Também atrapalha alguma coisa?"
Ele franziu a testa, como se minha pergunta fosse uma provocação.
"Seus pais exageraram. Mas você conhece a fragilidade dela. Não devia ter falado sobre dinheiro."
Soltei uma risada sem humor.
"Claro. A culpa ainda é minha."
"Não estou dizendo isso. Só estou pedindo que seja a pessoa sensata."
"Eu sempre sou. É por isso que todos vocês acham que podem me ferir."
Henrique ficou em silêncio. Depois apertou minha mão, usando aquele tom paciente que reservava para quando acreditava estar sendo generoso.
"Vou acompanhar Isadora a um centro de reabilitação em Brasília. Pode levar dois ou três anos, mas, quando ela estiver bem, eu volto. Nós podemos nos casar novamente."
Puxei minha mão.
"Não quero me casar novamente com você."
"Você está com febre. Conversamos quando estiver melhor."
Ele não acreditou em mim.
Henrique jamais acreditava em qualquer frase minha que contrariasse os planos dele.
Adormeci sob o efeito do remédio. Quando acordei, meu pai me puxava pelo braço.
"Levante. Sua irmã tentou engolir uma cartela de calmantes porque Henrique voltou para cuidar de você."
Minha mãe agarrou meus cabelos.
"Você vai ao hospital dizer que não vai persegui-lo."
"Eu estava inconsciente. Nem sabia que ele tinha voltado."
Eles não ouviram.
Levaram-me ainda febril até um quarto particular de hospital. Havia flores brancas, balões e uma bandeja de doces ao lado da cama. Isadora estava encostada no peito de Henrique, com o rosto enterrado no pescoço dele.
"Se eu nunca mais puder dançar, não tenho motivo para viver", ela chorava. "Se você também me abandonar, prefiro morrer."
Henrique segurou o rosto dela entre as mãos.
"Eu não vou abandonar você. Vou acompanhá-la a Brasília. Quando estiver recuperada, nós nos casamos."
As palavras me atravessaram, mas não encontraram mais nada vivo para ferir.
Minha mãe me empurrou para dentro.
"Sua irmã recebeu um pedido de casamento. Dê os parabéns."
Isadora abriu um sorriso trêmulo.
"Quero você no casamento, Elisa. Só assim vou acreditar que me perdoou."
"Parabéns", respondi. "Mas não estarei lá."
Ela segurou minha mão. Quando a retirei, Isadora gemeu e se deixou cair sobre a cama.
"Minha perna!"
Henrique se colocou entre nós.
"Por que precisa transformar tudo numa briga?"
Meu pai me acertou outra vez. Minha testa bateu no batente da porta.
Enquanto o sangue escorria junto à sobrancelha, todos se voltaram para Isadora.
Ninguém perguntou se eu estava bem.
Horas depois, quando voltamos para casa, Henrique entrou no meu quarto. Trazia cheiro de cigarro na farda.
"Vim devolver seus documentos."
Segurei a pasta contra o peito.
Ele apagou o cigarro num copo vazio e aproximou o rosto do meu.
"O cheiro está muito forte?"
Por um instante, meu coração confundiu aquela pergunta com cuidado.
Então ele explicou:
"Os remédios de Isadora dão enjoo. Ela não suporta fumaça."
Eu também não suportava. Passava mal com cheiro de cigarro desde adolescente. Havia contado isso a ele mais vezes do que conseguia lembrar.
"Está forte", respondi.
Henrique saiu depressa para tomar banho antes de voltar ao quarto dela.
Fui até a janela em busca de ar. No prédio ao lado, a cortina de Isadora estava entreaberta.
Vi Henrique entrar de camiseta, com os cabelos molhados. Minha irmã riu, agarrou-o pela gola e o puxou sobre a cama.
A luz se apagou.
Fechei a janela.
Sentei diante da escrivaninha, liguei o celular e troquei as senhas do banco. Fotografei meus documentos, enviei cópias para um novo e-mail e comprei uma passagem para São Paulo no ônibus das dez da manhã.
Depois abri o contato de Henrique.
Apaguei o número, as mensagens e todas as fotografias.
Ele acreditava que partiria por três anos e me encontraria no mesmo lugar quando voltasse.
Na manhã seguinte, descobriria que eu não estaria mais esperando.
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