"Quando Ele Voltou, Eu Já Não Era Dele" Capítulo 1 — O Divórcio Que Todos Comemoraram
Capítulo 1 — O Divórcio Que Todos Comemoraram
No dia em que meu divórcio foi homologado, minha mãe comprou um bolo.
Não era para me consolar.
Era para comemorar.
Quando entrei na casa dos meus pais com a pasta do cartório debaixo do braço, encontrei a mesa coberta por uma toalha branca, xícaras de porcelana e um bolo de chocolate no centro. Sobre a cobertura, minha mãe havia escrito com glacê cor-de-rosa: Bem-vinda de volta, Isadora.
Minha irmã estava sentada no sofá, com a perna esquerda apoiada sobre duas almofadas. Mesmo abatida, continuava bonita. Os cabelos castanhos caíam pelos ombros, e o rosto delicado ainda lembrava os cartazes do Palácio das Artes, onde ela fora a bailarina mais elogiada da companhia.
Minha mãe nem perguntou como eu estava.
"Agora que o divórcio saiu, apague o número do Henrique e entregue as chaves da casa", disse Lúcia Ferreira. "Sua irmã precisa de paz."
Pousei a pasta sobre a mesa.
"A casa pertence à Vila Militar. Já vou devolvê-la."
"Ótimo." Ela sorriu, aliviada. "Quanto mais rápido você desaparecer da vida dele, melhor."
A palavra desaparecer não me surpreendeu. Durante vinte e sete anos, aquela família havia me treinado para isso.
Quando éramos crianças, Isadora ficava com a coxa do frango; eu comia a asa. Ela ganhava vestidos novos; eu usava os que deixavam de servir nela. Se Isadora gostasse de alguma coisa, eu aprendia que não devia sequer olhar por muito tempo.
Henrique Avelar também tinha sido dela primeiro.
Três anos antes, minha irmã fugira na véspera do casamento. Deixara o vestido pendurado, desligara o celular e embarcara para Buenos Aires com uma companhia de dança. As famílias Ferreira e Avelar, unidas havia décadas pela carreira militar de nossos pais, viraram assunto em todos os círculos sociais de Belo Horizonte.
Algumas semanas depois, para salvar o nome das duas famílias, decidiram que eu me casaria com o noivo abandonado.
Ninguém perguntou se eu queria.
Eu disse sim mesmo assim.
Eu amava Henrique desde os dezoito anos, quando o vi receber uma condecoração em uma cerimônia do Exército. Alto, impecável no uniforme, ele parecia o tipo de homem que jamais permitiria que alguém fosse humilhado diante dele.
Demorei três anos para descobrir que eu estava errada.
Dois meses antes do divórcio, Isadora retornara ao Brasil depois de uma queda durante um ensaio. Rompera ligamentos, passara por duas cirurgias e ouvira que talvez nunca mais dançasse profissionalmente.
Na mesma noite em que ela ligou chorando, Henrique saiu de casa sem nem amarrar os coturnos.
Depois, passou a maior parte do tempo ao lado dela.
Fui eu quem pediu o divórcio.
Henrique assinou o acordo em silêncio, mas, ao sairmos do cartório, segurou meu pulso.
"É só no papel, Elisa. Enquanto Isadora se recupera, você continua sendo minha família. Quando tudo se acalmar, nós nos casamos de novo."
Ele falara como quem decidia onde guardar um móvel até precisar dele outra vez.
Minha mãe apontou para a pasta.
"E o dinheiro?"
"Que dinheiro?"
"Não se faça de desentendida. Henrique contou ao seu pai que deixou quarenta mil reais para você, além dos móveis e da máquina de costura."
"Está no acordo de divórcio."
"Devolva."
A ordem veio seca, imediata.
Eu a encarei.
"Não."
O sorriso de minha mãe desapareceu.
"Você passou três anos morando numa casa boa, sustentada por um oficial, sem dar um filho a ele. Com que direito sai levando dinheiro?"
Isadora baixou os olhos. Uma lágrima perfeita deslizou por sua bochecha.
"Não brigue com ela por minha causa, mamãe. Elisa deve me odiar por eu ter voltado."
"Eu não odeio você", respondi.
"Então por que está levando o dinheiro do homem que ama?"
Ela ergueu o rosto, e vi por trás das lágrimas um brilho que conhecia desde a infância. Isadora nunca precisava exigir nada. Bastava chorar até alguém arrancar o que era meu e colocar em suas mãos.
Meu pai ainda não havia chegado. Minha mãe se aproximou e apontou o dedo para meu rosto.
"Henrique só se casou com você porque Isadora foi embora. Tudo o que ele tem deveria ter sido dela. Se não devolver cada centavo, não me chame mais de mãe."
Por um instante, senti a velha dor abrir espaço dentro do peito.
Eu passara a vida inteira acreditando que, se fosse obediente o bastante, minha mãe acabaria me amando como amava Isadora.
Mas eu já tinha cedido roupas, oportunidades, meu emprego numa confecção e três anos da minha vida. Agora queriam também o pouco que me permitiria recomeçar.
Fechei a pasta com calma.
"Se a senhora só quer uma filha, pode ficar com ela. Mas o dinheiro é meu. Não vou devolver."
Minha mãe empalideceu.
"Como você ousa falar assim comigo?"
"Do mesmo modo que vocês ousaram decidir com quem eu deveria me casar."
Isadora soltou um soluço.
"Eu nunca quis roubar sua vida, Elisa. Fugi porque precisava ser livre. Não suportava a ideia de passar a vida presa às regras da família Avelar."
"E agora?"
Ela hesitou.
"Agora eu entendi que Henrique sempre foi o homem certo para mim."
Quase ri.
"Que coincidência. Você descobriu isso justamente depois de ele se tornar major e de sua carreira acabar."
"Elisa!" Minha mãe gritou.
A porta da sala se abriu.
Henrique entrou usando a farda verde-oliva, trazendo duas caixas de suplementos importados. Seu olhar percorreu o ambiente e parou nas lágrimas de Isadora.
Ele não perguntou o que havia acontecido.
"O que você fez com sua irmã?"
As mesmas palavras. A mesma certeza de que a culpada só poderia ser eu.
"Nada que interesse a você."
Peguei minha bolsa e caminhei em direção à porta.
Henrique segurou meu braço.
"Aonde você vai?"
"Embora."
"Esta também é sua casa."
Olhei para minha mãe, que parecia pronta para me expulsar, e depois para Isadora, protegida pelo homem que até aquela manhã era meu marido.
"Não", respondi. "Nunca foi."
Puxei o braço, mas Isadora se levantou depressa demais.
"Elisa, espere. Se minha presença incomoda tanto, eu vou embora. Volto para Buenos Aires, mesmo que tenha de andar de muletas pelo resto da vida. Só não abandone a mamãe por minha causa."
Ela deu dois passos, levou a mão ao peito e desabou nos braços de Henrique.
"Isadora!"
Henrique a segurou antes que atingisse o chão.
Meu pai entrou naquele exato momento, carregando outra caixa de bolo. Viu minha irmã desacordada, Henrique ajoelhado ao lado dela e eu junto à porta com a bolsa no ombro.
Seu rosto se deformou de fúria.
"O que você fez com sua irmã, Elisa?"
Henrique ergueu os olhos para mim.
Minha mãe também.
Nenhum dos três esperou minha resposta.
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