"Todo o Amor Que Dei Virou Cinzas" Capítulo 5 — A Armadilha no Palco
Capítulo 5 — A Armadilha no Palco
Camila não voltou a me procurar.
Rafael, ao contrário, apareceu na portaria da casa do meu pai na manhã seguinte.
Augusto queria mandar os seguranças expulsá-lo. Pedi que permitisse sua entrada apenas no salão do térreo, diante das câmeras e com Beatriz presente.
Rafael entrou com a mesma camisa azul-marinho que usara no vídeo do bebê.
Talvez acreditasse que aquilo despertaria alguma lembrança boa. Em mim, despertou apenas a imagem do buquê caindo no tapete.
"Precisávamos mesmo chegar a esse ponto?" perguntou.
Não o convidei a sentar.
"Qual ponto? A auditoria ou a descoberta de que você roubou meu trabalho?"
"Eu não roubei nada. Você me deu aquelas ideias."
"Para uma empresa que construiríamos juntos."
"Você nunca quis aparecer."
"Eu trabalhava seis dias por semana para financiar você. Isso não é desaparecer."
Rafael olhou para Beatriz.
"Esta conversa precisa de advogada?"
"Todas as nossas conversas precisam, a partir de agora."
Ele mudou de estratégia. Seus ombros baixaram, e sua voz assumiu o tom cansado que tantas vezes me fizera sentir culpada.
"Lena, eu errei com você. Não vou negar. Mas a VivaMãe pode valer centenas de milhões. Se você interromper a rodada agora, perde também."
"Eu não tenho participação na empresa, lembra?"
"Podemos corrigir isso."
Rafael tirou um envelope da pasta. Dentro havia uma proposta de acordo: quitação dos R$ 382 mil em parcelas, uma função simbólica como consultora e uma cláusula ampla de confidencialidade.
Em troca, eu renunciaria a qualquer reivindicação sobre o método.
"Você quer comprar por trezentos e oitenta e dois mil algo que pretende vender por quinze milhões."
"Quero encerrar uma guerra que não beneficia ninguém."
"Não. Você quer que eu assine que nunca existi."
Devolvi os papéis.
Rafael não os pegou.
"Pense bem. Se a empresa cair, todos vão saber que a herdeira do Grupo Vasconcelos destruiu uma startup porque foi trocada por outra mulher."
Ali estava a ameaça, finalmente sem disfarce.
"Diga isso outra vez", pedi.
Ele olhou para a câmera no alto da parede e recolheu o envelope.
"Você sempre foi dramática."
"E você sempre foi menos inteligente do que imaginava."
Quando os seguranças o acompanharam até a saída, Rafael ainda parecia confiante. Ele achava que a vergonha me manteria escondida.
Passamos os dias seguintes preparando o contrário.
Uma empresa especializada certificou os arquivos da nuvem, os e-mails e as fotografias dos meus cadernos. Três antigas pacientes autorizaram depoimentos sobre as entrevistas que eu realizara antes da criação da VivaMãe.
Localizamos também uma desenvolvedora que participara do primeiro protótipo.
"Rafael dizia que você era a responsável clínica", contou ela em reunião gravada. "Pedi várias vezes que incluísse seu nome nos créditos. Ele dizia que faria isso depois da rodada inicial."
Beatriz protocolou o pedido de tutela de urgência com as provas financeiras já verificadas. Não pedimos o fechamento da empresa. Pedimos preservação dos ativos ligados ao desvio, acesso da auditoria aos registros e impedimento de novas transferências extraordinárias.
Ao mesmo tempo, o veículo do Grupo Vasconcelos convocou uma reunião do conselho para a data da apresentação nacional.
Rafael recebeu a convocação e respondeu que o grupo estava tentando interferir na gestão por motivos pessoais.
Isso também foi anexado ao processo.
Eu reservei parte das manhãs para um projeto que não dependia dele.
Visitei imóveis onde poderia abrir a Renova Mulher Fisioterapia Pélvica. Não queria o endereço mais luxuoso de São Paulo. Queria estacionamento, acesso discreto, salas bem isoladas e um espaço onde uma mulher pudesse amamentar sem ser observada.
No décimo segundo imóvel, encontrei o lugar certo: dois andares em uma rua tranquila, perto de uma maternidade e de uma estação de metrô.
Augusto se ofereceu para comprar o prédio.
"Vou alugar", respondi. "E o investimento será formal, com contrato, metas e prestação de contas."
Meu pai sorriu.
"Você aprendeu rápido."
"Aprendi caro."
Assinei a locação com recursos próprios e comecei a selecionar equipamentos. O primeiro objeto levado para a nova clínica foi a velha mala de atendimentos.
Eu a coloquei no centro da sala vazia.
Durante três anos, aquela mala representara o peso que eu carregava para sustentar Rafael. Agora seria a prova de que meu trabalho podia construir algo que tivesse meu nome.
Faltavam cinco dias para a apresentação quando o convite chegou.
O Instituto Brasileiro de Inovação em Saúde me convidava para participar do evento como especialista independente em reabilitação pélvica. A comissão técnica analisara meu currículo depois que Beatriz formalizou a disputa de autoria.
Eu teria lugar na plateia e direito de manifestação se a tecnologia contestada fosse apresentada.
Rafael ligou menos de uma hora depois.
Atendi com Beatriz ao meu lado.
"Você não vai entrar naquele evento", ele disse.
"O convite tem meu nome."
"Se aparecer, vou contar a todos por que saiu da casa do seu pai. Vou mostrar que sempre foi emocionalmente instável e que tentou usar dinheiro para me controlar."
"Mostre também os comprovantes."
"Ninguém vai acreditar em uma mulher traída quando eu explicar que ela quer se apropriar de uma empresa de sucesso."
Olhei para Beatriz. Ela fazia anotações.
"Então não deveria estar preocupado."
Desliguei antes que ele respondesse.
Na véspera do evento, Marcelo concluiu a etapa preliminar da auditoria. Havia despesas pessoais disfarçadas de marketing, pagamentos da casa lançados como hospedagem corporativa e transferências para uma conta controlada por Rafael.
Também havia algo que não esperávamos.
Na última semana, ele tentara enviar quase seiscentos mil reais para uma empresa recém-aberta em nome de um antigo colega.
A transferência fora interrompida pelo controle interno do banco após a notificação de auditoria.
"Ele está tentando esvaziar o que resta", Marcelo disse.
Beatriz recebeu a informação e atualizou o pedido judicial.
"Agora temos risco concreto de dissipação patrimonial."
Na manhã do evento, vesti um terninho marfim, prendi o cabelo e coloquei na bolsa uma cópia do meu primeiro caderno.
Não levei joias caras nem o sobrenome do meu pai estampado em lugar algum.
Levei datas, assinaturas e a verdade.
Nos bastidores, Rafael sorria para investidores e jornalistas. Eu o ouvi dizer a um assessor:
"Ela não virá. Helena sempre foge quando precisa enfrentar alguém em público."
Esperei até ele ser chamado ao palco.
Então atravessei as portas do auditório e ocupei meu lugar na última fileira.
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