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"Todo o Amor Que Dei Virou Cinzas" Capítulo 2 — O Homem Que Tinha Duas Vidas

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Capítulo 2 — O Homem Que Tinha Duas Vidas

O buquê escorregou dos dedos de Rafael.

As flores caíram no chão entre nós, espalhando pétalas brancas sobre o tapete.

"Helena?"

Ele pronunciou meu nome como se eu fosse uma invasora.

Camila caminhou até ele e passou um braço por sua cintura.

"Surpresa, amor."

Rafael não correspondeu ao abraço. Seus olhos correram da minha mala de equipamentos para o celular em minha mão.

"O que você está fazendo aqui?"

"Trabalhando", respondi. "Sua esposa contratou meus serviços."

A palavra esposa fez o maxilar dele endurecer.

"Camila, vá ver o bebê. Eu resolvo isso."

"Não." Ela se encostou nele. "Eu esperei muito por este momento."

Foi então que compreendi. O pacote de dezoito mil reais, o pedido de sigilo, a insistência para que eu mesma viesse. Nada daquilo fora coincidência.

Camila sabia meu nome.

Só não conhecia a verdade.

"Você me trouxe aqui de propósito", eu disse.

Ela não negou.

"Encontrei suas mensagens no celular dele. Você não parava de falar sobre dinheiro, apartamento, futuro. Achei que estava na hora de entender qual é o seu lugar."

Rafael segurou o braço dela.

"Chega, Camila."

"Por quê? Você disse que ela era uma mulher obcecada, que ajudou no começo da empresa e depois passou a imaginar que vocês tinham um relacionamento."

Por um segundo, nem a dor conseguiu me alcançar. Havia apenas uma clareza gelada.

"Foi isso que ele contou?"

"Contou também que você se aproveitava das viagens dele para insistir em encontros." Camila ergueu o queixo. "Eu tolerei porque estava grávida. Agora meu filho nasceu e você vai desaparecer da nossa vida."

Abri o aplicativo do banco.

"Quanto Rafael disse que eu investi na empresa?"

"Não sei. Dez, talvez vinte mil reais."

Virei a tela para ela.

A lista de transferências parecia não terminar. Cinco mil. Doze mil. Vinte e três mil. Oito mil. Cada uma com a mesma descrição: nosso futuro.

No topo, o total calculado por mim naquela manhã.

R$ 382.000,00.

Camila soltou a cintura do marido.

"O que é isso?"

"Tudo o que ganhei nos últimos três anos. Dinheiro que entreguei a Rafael para a entrada do nosso apartamento e para a empresa que abriríamos juntos."

"Ela está mentindo", Rafael disse depressa.

Toquei na primeira transferência e mostrei o comprovante em nome dele.

Depois a segunda.

Depois a terceira.

"Também estou mentindo sobre isto?"

Camila pegou o celular da minha mão. O rosto dela mudou enquanto deslizava pela tela.

"Rafael, de onde veio o dinheiro da entrada desta casa?"

"Não discuta nossas finanças na frente dela."

"De onde veio?"

Ele não respondeu.

Eu me lembrei da maca importada, da enfermeira particular, de Trancoso e do quarto do bebê. Não precisei perguntar quanto custaram. Já conhecia o preço.

Custaram minha saúde.

Custaram o filho que perdi sozinha.

Custaram dois dias em uma UTI sem ninguém esperando do lado de fora.

Camila devolveu meu telefone como se ele queimasse.

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"Você disse que ela era ninguém."

Rafael finalmente olhou para mim. O susto havia desaparecido. Em seu lugar surgiu a expressão fria que ele usava quando um pedido meu atrapalhava seus planos.

"Helena, vamos conversar em outro lugar."

"Vamos conversar aqui. Sua esposa merece ouvir."

"Não faça uma cena."

Eu quase ri.

Durante três anos, sempre que eu chorava, estava cansada ou fazia perguntas, ele dizia a mesma coisa. Não faça uma cena. Não complique. Confie em mim.

"Há quanto tempo você é casado com ela?"

"Você já ouviu a resposta."

"Quero ouvir de você."

Ele olhou para Camila, depois para mim.

"Três anos."

Meu celular continuava gravando dentro da minha mão.

"E durante esses três anos você manteve um relacionamento comigo?"

"Nossa relação já estava acabando. Você se recusava a perceber."

"Ontem à noite você dormiu no meu apartamento."

Camila virou o rosto para ele.

"Você disse que estava em Campinas."

"Eu fui buscar documentos."

"Na cama dela?"

Rafael passou a mão pelos cabelos.

"As coisas não são tão simples."

"São bastante simples", respondi. "Você tem uma esposa, um filho e uma casa comprada enquanto me fazia acreditar que juntávamos dinheiro para construir uma vida."

Ele se aproximou e baixou a voz.

"Seu pai nunca aceitaria nosso casamento. Eu precisava seguir em frente."

"Então por que continuou recebendo meu dinheiro?"

"Porque você insistia em transferir."

"E por que dizia que faltava pouco para comprarmos nosso apartamento?"

O silêncio dele foi mais honesto do que qualquer resposta.

Camila começou a chorar, mas a raiva venceu rapidamente.

"Você entrou na minha casa sabendo que ele era meu marido e ficou fazendo perguntas para me humilhar!"

Ela avançou um passo. Rafael se colocou entre nós, não para me proteger, mas para proteger a vida que escolhera preservar.

"Helena, vá embora. Camila ainda está se recuperando do parto. Não vou permitir que você a desestabilize."

No mês anterior, eu trabalhara com quase quarenta graus de febre. Rafael deixara sobre a mesa uma caixa do remédio mais barato que encontrara e saíra antes que eu conseguisse me levantar.

Agora falava da recuperação de Camila como se cada respiração dela fosse sagrada.

Aquilo matou a última parte de mim que ainda procurava uma explicação menos cruel.

Fechei a mala.

"Vou embora. Mas antes você vai responder uma última pergunta."

"Não devo explicações a você."

"Deve trezentos e oitenta e dois mil reais."

Camila enxugou o rosto de repente.

"Você gastou o dinheiro dela comigo?"

"Não." Rafael falou rápido demais. "O dinheiro está ligado à empresa. Helena vai receber tudo de volta."

Mantive os olhos nele.

"Repita."

"O quê?"

"Que recebeu os trezentos e oitenta e dois mil e que vai devolver."

Ele percebeu tarde demais por que eu pedira tanta precisão.

"Você está gravando?"

"Estou protegendo o que é meu."

Rafael tentou arrancar o telefone da minha mão, mas recuei e ergui a voz.

"Toque em mim e a gravação vai para a nuvem automaticamente."

Ele parou.

Não era verdade ainda. Mas se tornou verdade poucos minutos depois.

"Eu recebi o dinheiro", ele disse entre os dentes. "E vou devolver quando a empresa tiver caixa. Satisfeita?"

"Não. Mas é um começo."

Peguei a mala e caminhei até a porta.

Atrás de mim, Camila exigia respostas. Rafael dizia que podia explicar. O bebê começou a chorar no andar de cima, e nenhum dos dois se moveu imediatamente.

Do lado de fora, minhas pernas quase cederam.

Sentei no banco traseiro do primeiro carro de aplicativo que parou e enviei a gravação, os comprovantes e as fotografias para três contas diferentes.

Depois abri a conversa que eu evitava havia três anos.

Pai.

Minha última mensagem para Augusto Vasconcelos terminava com uma frase arrogante: vou provar que você está errado sobre Rafael.

Escrevi apenas:

"Pai, eu quero voltar para casa."

A resposta veio antes que eu guardasse o telefone.

"Onde você está?"

Informei o endereço do apartamento.

Durante todo o caminho, observei as luzes da cidade passarem pela janela. Eu não chorei. Ainda não. A dor parecia grande demais para caber em lágrimas.

Subi os quatro andares carregando a mala. A lâmpada do corredor piscava, e uma mancha de umidade se espalhava pelo teto.

Minha chave tremia tanto que precisei de três tentativas para abrir a porta.

Quando finalmente consegui, parei no batente.

Augusto Vasconcelos estava sentado no nosso sofá gasto, usando um terno escuro que não pertencia àquele lugar.

Havia mais cabelos brancos em suas têmporas do que na última vez em que o vi.

Ele se levantou.

"Minha filha."

A mala caiu da minha mão.

E tudo o que eu sustentara até ali desabou com ela.

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