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"Todo o Amor Que Dei Virou Cinzas" Capítulo 1 — A Cliente da Casa nos Jardins

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Capítulo 1 — A Cliente da Casa nos Jardins

Faltavam dezoito mil reais para eu terminar de pagar pelo nosso futuro.

Durante três anos, eu havia transferido quase tudo o que ganhava para Rafael. Trezentos e oitenta e dois mil reais, somados parcela por parcela, atendimento por atendimento, noite mal dormida por noite mal dormida.

Ao chegarmos aos quatrocentos mil, daríamos entrada em um apartamento e abriríamos uma empresa de saúde feminina.

Era o que ele prometia toda vez que me encontrava exausta.

"Só mais um pouco, Lena. Depois disso, você nunca mais vai precisar trabalhar até o corpo doer."

Naquela terça-feira, a plataforma onde eu atendia me ofereceu um pacote particular de dezoito mil reais. A cliente queria avaliação em casa, doze sessões, horários exclusivos e sigilo absoluto.

O endereço ficava nos Jardins, e o valor era exatamente o que faltava.

Aceitei sem pensar duas vezes.

Cheguei às duas da tarde carregando uma mala de equipamentos que parecia mais pesada a cada degrau. A casa não tinha escadas na entrada, claro. Tinha uma fachada de vidro, jardim assinado por paisagista e uma porta alta o bastante para pertencer a um hotel.

A mulher que veio me receber era bonita, tinha cabelos castanhos muito bem cuidados e usava um robe de seda claro. A barriga ainda guardava a curva suave de uma gravidez recente.

"Helena Vasconcelos?"

"Sim. E você deve ser Camila."

Ela sorriu como se já soubesse muito mais sobre mim do que deveria.

"Camila Noronha Monteiro. Eu estava ansiosa para conhecer você."

O sobrenome não significou nada naquele momento. Abri a ficha no tablet e comecei as perguntas de rotina.

"Há quanto tempo foi o parto?"

"Três meses. Cesárea, sem complicações. Mas eu quero voltar ao que era antes o mais rápido possível. Meu marido é muito carinhoso e passou a gravidez inteira tomando cuidado comigo. Agora eu quero fazer uma surpresa para ele."

Expliquei que nenhum resultado responsável poderia ser prometido sem avaliação. Camila pareceu ouvir apenas metade.

"Você precisava ter visto o Rafael durante a gravidez. Ele não me deixava nem pegar um copo d'água."

Meus dedos pararam sobre a tela.

Rafael era um nome comum. São Paulo estava cheia de Rafaéis.

"Ele cancelava reuniões para ir às consultas", ela continuou. "Quando eu precisava fazer exame de sangue, segurava minha mão como se eu fosse desmaiar. No último trimestre, contratou uma enfermeira obstétrica para ficar aqui todos os dias."

Eu respirei fundo e digitei a informação seguinte.

"Você sente dor na região lombar?"

"Às vezes. Mas ele faz massagem em mim todas as noites. Na verdade, esta sala foi reformada por causa disso."

Camila me levou por um corredor iluminado até um espaço de atendimento particular. Havia uma maca importada, climatização independente e armários ainda com cheiro de madeira nova.

"Foi presente dele", disse ela. "Rafael acha um absurdo eu sair de casa para fazer tratamento."

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Rafael dizia que trabalhava até tarde porque a VivaMãe ainda não dava lucro. Dividia comigo um apartamento antigo na Zona Leste, onde a água entrava pela janela quando chovia, e reclamava até dos meus analgésicos.

Ainda assim, tentei acreditar que não podia ser o mesmo homem.

Camila se sentou na beirada da maca e pegou o celular.

"Olha isso. Foi ontem."

Na tela, um homem estava inclinado sobre um berço. Ele pegou um bebê nos braços, beijou a testa da criança e falou com uma ternura que eu nunca tinha ouvido.

"Papai chegou, meu campeão. Deixa a mamãe descansar."

O ar desapareceu dos meus pulmões.

Era Rafael.

Reconheci a pequena cicatriz junto à sobrancelha, a voz e a camisa azul-marinho que eu lhe dera no aniversário.

O aparelho escapou da minha mão e bateu contra o fecho da mala.

Camila inclinou a cabeça.

"Você está bem?"

"Estou. Só prendi o dedo."

Minha voz saiu firme demais. O tipo de firmeza que só existe quando qualquer rachadura pode derrubar tudo.

Ela aproximou a imagem do rosto dele.

"Bonito, não é? Estamos casados há três anos, mas ele ainda me trata como no começo. Esta casa foi o presente de casamento. Está só no meu nome, para eu nunca ter medo do futuro."

Três anos.

Rafael e eu estávamos juntos havia quatro.

Três anos antes, eu saíra da casa do meu pai porque Augusto Vasconcelos acreditava que Rafael estava interessado no nosso sobrenome.

"Seu pai tem razão", disse naquela noite. "Eu não tenho nada para oferecer a você."

Fui eu quem propôs provar o contrário.

Abandonei o cargo que teria no Grupo Vasconcelos, aluguei com ele o apartamento mais barato que encontramos e comecei a trabalhar como fisioterapeuta pélvica. Ele desenvolveria a plataforma; eu reuniria o capital.

Era para sermos nós dois contra o mundo.

Enquanto eu dormia em um quarto com mofo, ele presenteava a esposa com uma casa nos Jardins.

Camila continuava falando.

"Quando descobri a gravidez, tive um pequeno sangramento. Rafael cancelou tudo e passou duas semanas comigo. Nem atendia ao telefone."

Olhei discretamente para a data de uma fotografia no celular dela.

Oito meses antes.

Na mesma semana, eu descobrira que estava grávida.

Rafael me convenceu de que não tínhamos dinheiro nem estabilidade para uma criança. Disse que um bebê destruiria a empresa antes mesmo de ela começar. Eu tomei a medicação para interromper a gestação sozinha naquele apartamento.

Quando as cólicas ficaram insuportáveis, liguei para ele vinte e sete vezes.

O telefone estava desligado.

No dia seguinte, Rafael voltou dizendo que passara a noite com investidores e que a bateria tinha acabado. Chorou comigo. Pediu perdão. Duas horas depois, transferi para ele os vinte mil reais que havia recebido naquele mês.

Camila mostrou outra fotografia, desta vez em uma praia.

"Passamos meu sétimo mês em Trancoso. Ele desligou até o celular da empresa. Disse que nada era mais importante do que nós dois e o bebê."

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Seis meses antes, eu fora atingida por um carro quando voltava de um atendimento noturno. Passei dois dias na UTI. A equipe do hospital tentou falar com Rafael durante horas.

Ele apareceu onze dias depois e disse que estava visitando uma instalação sem sinal.

Depois do acidente, um médico me explicou que uma nova gravidez exigiria acompanhamento de alto risco. Rafael me abraçou e jurou que filhos não importavam, desde que eu estivesse viva.

Agora eu sabia por quê.

Ele já tinha um filho a caminho.

"Helena?"

Camila estava me observando.

"Você ficou pálida. Quer água?"

"Não, obrigada."

Com a mão escondida ao lado do corpo, ativei o gravador do celular.

"Antes da avaliação, preciso confirmar algumas informações. Você disse que está casada há três anos?"

"Três anos e dois meses. No civil e na igreja."

"E esta casa foi comprada quando?"

"Na semana do casamento. Rafael pagou a entrada e colocou tudo no meu nome."

"Ele é fundador da VivaMãe Tecnologia em Saúde?"

O sorriso de Camila se alargou.

"Fundador e diretor-executivo. Construiu tudo sozinho."

Sozinho.

Eu havia criado as primeiras fichas de atendimento que deram origem ao aplicativo. Entrevistara dezenas de pacientes. Organizara sintomas, dificuldades e jornadas de recuperação. Rafael dizia que aquilo seria a base da empresa que abriríamos juntos.

Camila me conduziu até o quarto do bebê. Enxoval importado, móveis sob medida, poltrona de amamentação, câmera inteligente. Cada objeto parecia carregar o preço de uma noite em que eu trabalhara com febre.

Então ouvi a porta da frente.

Passos atravessaram a sala.

Uma voz masculina subiu pelo corredor, leve e familiar:

"Amor, cheguei. Trouxe aquilo que você pediu."

Camila olhou para mim, e seu sorriso perdeu toda a doçura.

Rafael apareceu à porta com uma sacola de presentes em uma mão e um buquê na outra.

Quando me viu, ficou imóvel.

 

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