"Eu Organizei o Noivado da Mulher Que Amava" Capítulo 7 A Gaiola de Ouro
Capítulo 7
A Gaiola de Ouro
"Quero falar com minha mãe. Agora."
Otávio desbloqueou o celular e colocou a chamada no viva-voz.
Rosa atendeu no segundo toque.
"Gabriel?"
Sua voz tremia.
"Você está bem?"
"Estou na sala dos funcionários. Disseram que preciso entregar as chaves do meu quarto se você não voltar. O senhor Augusto também mandou o jurídico suspender minha aposentadoria complementar."
Valentina arrancou o telefone da mão de Otávio.
"Ninguém vai tirar nada de você, Rosa."
"Senhorita Valentina, não piore as coisas. Por favor, traga meu filho de volta."
Fechei os olhos.
Minha mãe ainda chamava aquilo de voltar, como se a mansão fosse nossa casa.
"Eu vou", respondi. "Mas só depois da alta médica."
"O carro está preparado", disse Otávio. "Há um médico contratado para acompanhá-lo durante o trajeto."
Valentina se colocou diante dele.
"Gabriel não está em condições de viajar."
"Então dona Rosa deixará a propriedade esta noite."
Retirei o acesso venoso do braço antes que alguém pudesse impedir.
"Gabriel!", Valentina protestou.
"Se eu ficar, minha mãe paga o preço. Você sabe o que é ter alguém usado contra você."
Ela sabia. Vi isso em seu rosto.
Duas horas depois, com uma autorização de alta assinada contra recomendação médica, entrei no carro de Otávio. Valentina veio no veículo logo atrás.
Ao amanhecer, os portões da propriedade no Morumbi se abriram.
Não me levaram ao depósito. Otávio conduziu-me a uma suíte no segundo andar da casa principal, com tapete claro, lençóis novos e uma janela voltada para o jardim.
"O senhor Augusto considera adequado que o pai de seu bisneto tenha conforto."
Passei os olhos pela fechadura eletrônica e pela câmera no corredor.
"Conforto sem liberdade continua sendo prisão."
Otávio não respondeu.
Rosa apareceu minutos depois, carregando minhas roupas antigas. Parou do lado de fora, como se seus sapatos não tivessem o direito de tocar o tapete.
"Mãe."
"Você devia ter deixado tudo como estava", murmurou. "Agora todos olham para mim como se eu tivesse colocado você na cama da senhorita Valentina."
"Eu não vou pedir desculpas por existir, nem pelo meu filho existir."
Ela baixou os olhos.
"Seu filho?"
"Ou filha. E será meu, não um segredo dos Albuquerque."
Antes que Rosa respondesse, Otávio informou que Augusto nos aguardava.
O patriarca estava no escritório, acompanhado de dois advogados. Sobre a mesa havia um contrato.
"Você receberá um apartamento em Curitiba e três milhões de reais", disse Augusto. "Em troca, assinará confidencialidade e renunciará a qualquer interferência na criação da criança."
"Interferência? Está falando de paternidade."
"O bebê será criado com o nome e os recursos dos Albuquerque. Minha neta retomará o compromisso com Henrique quando a poeira baixar."
Empurrei o documento de volta.
"Não assino."
"Leia antes de bancar o orgulhoso."
"O preço não muda a resposta."
Peguei o celular e fotografei cada página antes que um dos advogados recolhesse o contrato.
"O que pensa que está fazendo?", perguntou Augusto.
"Criando um registro da proposta."
"Este documento é confidencial."
"Eu não assinei cláusula alguma. Se ameaçarem minha mãe outra vez ou tentarem afastar meu filho de mim, uma cópia seguirá para meu advogado e outra para o Ministério Público."
Eu ainda não tinha advogado. Mas finalmente entendi que não precisava enfrentar a fortuna deles apenas com dignidade. Podia reunir provas, procurar orientação e obrigá-los a responder dentro das regras que desprezavam.
Um dos homens avançou para tomar o aparelho. Valentina entrou antes que ele me alcançasse.
"Se tocar no celular dele, cometerá um erro diante de três testemunhas", disse ela.
O advogado recuou.
Augusto entrelaçou as mãos.
"Sua mãe deve tudo a esta família."
"Não. Ela trabalhou durante vinte e três anos. Se recebeu salário, moradia e benefícios, foi porque os ganhou trabalhando. Dívida não dura gerações."
Rosa ficou pálida atrás de mim.
A porta se abriu antes que o velho respondesse.
Henrique entrou carregando uma cesta de alimentos e um sorriso impecável.
"Soube que Gabriel estava doente. Vim em paz."
Valentina apareceu logo depois.
"Você não foi convidado."
"Seu avô me chamou. Ainda existe uma aliança entre nossas famílias."
Ele colocou a cesta sobre a mesa e se voltou para mim.
"Não precisa se preocupar com o bebê. Quando Valentina e eu nos casarmos, vou criá-lo como meu. Ninguém precisa saber de onde veio."
Meu estômago doeu, mas não baixei os olhos.
"Meu filho saberá exatamente de onde veio. E jamais chamará você de pai."
Henrique sorriu.
"Você realmente acredita que pode oferecer a uma criança o que nós oferecemos?"
"Posso oferecer um pai que não a trate como cláusula de contrato."
Valentina tomou o acordo e o rasgou ao meio.
"Não haverá casamento."
Henrique perdeu o sorriso.
"Você está nervosa. Podemos remarcar quando tudo se acalmar."
"Eu não adiei nosso noivado. Estou encerrando. Não amo você e não vou usar meu filho para salvar um acordo empresarial."
"E ama Gabriel?"
Valentina olhou para mim.
"Estou tentando compreender o quanto o machuquei antes de exigir uma resposta dele."
Henrique soltou uma risada amarga.
"Ele não acredita em você. E sabe por quê? Porque até eu enxergo a verdade. Você não sente falta dele. Sente falta do café na hora certa, da agenda perfeita e de alguém que suporte tudo sem reclamar."
As palavras atingiram o ponto exato que eu evitava tocar.
Valentina não negou de imediato.
Henrique se aproximou de mim.
"Você não venceu, Gabriel. Só deixou de ser empregado para virar um inconveniente."
"Saia", ordenou Valentina.
Depois que ele partiu, ela se voltou para mim.
"Quero levá-lo daqui."
"Para onde? Outro apartamento escolhido por você? Outra vida que eu devo aceitar porque decidiu que é melhor?"
Ela ficou em silêncio.
"Vou voltar a Curitiba assim que o médico permitir."
"Dê-me seis meses", pediu. "Não para prendê-lo. Para provar que sei fazer mais do que dar ordens."
"Há condições", respondi. "Minha mãe não será usada para me trazer de volta. Meus exames serão tratados pelo médico que eu escolher. Ninguém decide onde vou morar ou trabalhar. Henrique não entra onde eu estiver, e seu avô não recebe relatórios sobre mim."
Valentina sustentou meu olhar.
"Aceito tudo."
Otávio apareceu no corredor. Ela virou-se para ele.
"Retire a câmera da porta, devolva o telefone de Rosa e informe à segurança que Gabriel pode sair quando quiser. Se ignorarem uma dessas ordens, eu mesma registrarei ocorrência."
Não confiei nela por causa daquelas palavras. Mas vi que, pela primeira vez, transformava uma promessa em limites que também reduziam seu próprio poder.
"E se não conseguir?"
"Então eu mesma abrirei a porta para você partir."
Na tarde seguinte, vozes atravessaram o jardim. Sônia Ferraz surgiu acompanhada de Henrique e de dois fotógrafos particulares.
Ela lançou um envelope aos meus pés.
Fotografias antigas se espalharam pelo chão.
Em todas elas, eu tinha dezesseis anos e esperava diante do colégio de Valentina com uma marmita nas mãos.
Sônia sorriu.
"Vamos ver se todos continuam chamando isso de amor quando descobrirem há quantos anos você planeja entrar nesta família."
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